Conheci a série Discworld com a trilogia das bruxas, um volume contendo três fabulosas histórias com as bruxas mais formidáveis de toda a fantasia – mulheres que, sendo bruxas, não são propriamente más, mas distraídas, excêntricas e dadas a particularidades que o autor explora de forma sublime. Para além desta trilogia, li outras histórias no mesmo Universo, mas nunca tinha pegado no primeiro volume – pelo menos no formato de livro (existe em formato banda desenhada).

A história começa por nos apresentar o mundo do Disco – uma meia esfera balanceada por quatro elefantes em cima de uma tartaruga que deambula pelo Universo. É aqui que se encontra o Mundo de Terry Pratchett. O foco da narrativa está num falhado aprendiz de feiticeiro que apenas sabe um feitiço. O que faz esse feitiço? Desconhece. De alguma forma o feitiço entrou no seu cérebro, desaparecendo do livro em que se encontrava e, por esse motivo, ninguém sabe o que faz. Foi na sequência deste incidente que foi expulso da Escola de Feitiçaria.

Mas a narrativa não se centra só neste aprendiz de feiticeiro, também num turista – o primeiro daquela região – um viajante de terras distantes que distribui ouro como pãezinhos quentes, sem perceber o valor naquela sociedade das moedas que ostenta. Acompanhado por uma bagagem com pernas e dono de uma máquina fotográfica que tem, no interior, um homenzinho que desenha muito depressa, este turista é uma personagem muito inocente que quer conhecer uma verdadeira luta de taberna e todos os monstros possíveis – sem perceber muito bem os riscos em que se encontra.

Tudo começa quando os dois se encontram na cidade, e o aprendiz de feiticeiro entra ao serviço do primeiro turista. Ao redor tudo parece desmanchar-se em catástrofe, com uma sucessão de episódios mirabolantes e rocambolescos. As aventuras levam-nos para fora da cidade, onde irão fugir a novos perigos e passar incólumes aos encontros com as criaturas mais extraordinárias.

Terry Pratchett cria um mundo ridículo – Discworld é tanto impossível como maravilhoso, um conceito tão absurdo como fascinante; como paródia a cientistas e terraplanistas. É, pois, possível andar e cair no nada. Ou espreitar na ponta e ver alguma parte do elefante ou da gigante tartaruga que os sustenta a todos. Talvez. Não há muitos que tenham tentado.

Para além disso, o mundo possui cidades e aldeias, reinos diversos e todas as criaturas que podemos imaginar numa história fantástica. Mas todos os elementos apresentam detalhes que são uma paródia aos clichés do género, ou um parecer crítico mas bem humorado à ciência, à religião ou à sociedade. É impossível ler e ficar mal disposto.

Este não é o melhor livro da série. Há alguns detalhes menos perfeitos na sucessão de episódios e na descrição dos momentos de acção – mas já contém todos os melhores elementos daquela que se tornaria uma das grandes séries fantásticas. Os conceitos são hilariantes, as personagens peculiares e a narrativa é movimentada e rocambolesca. A somar a tudo isto, a história parodia a nossa sociedade, o conceito de morte, a religião, a ciência – enfim, a humanidade.