Publicado em Portugal pela Iguana (Penguin Random House), Mulher, vida e Liberdade é uma colectânea de pequenos episódios em torno da realidade do Irão, organizada por Marjane Satrapi, primeira autora iraniana a escrever banda desenhada, e autora de Persépolis.

Este volume de quase 300 páginas apresenta-nos vários capítulos, cada um desenvolvido por diferentes autores, estando, no total, quase 20 autores envolvidos. Cada capítulo possui o seu tema, a sua estrutura e a sua forma distinta de apresentar o objectivo a que se propõe. Todos juntos, apresentam diferentes perspectivas e diferentes abordagens para nos mostrar a realidade iraniana.

Alguns capítulos descrevem as mortes desnecessárias, ou aludem a pessoas específicas que foram torturadas e mortas pelo regime. Algumas pessoas são mortas simplesmente porque o lenço está mal colocado, outras porque ousaram ajudar alguém. Para além do clima de terror, exista uma intensa propaganda por parte do governo e tentativa de criação de uma realidade paralela com notícias falsas ou mais positivas.

Outros textos mostram tudo aquilo que uma mulher no ocidente pode fazer, mas que, no Irão leva à morte (coisas tão simples como andar de bicicleta). Mas se as mulheres possuem uma existência mais restrita, os jovens também sente essa diferença, juntando-se clandestinamente para tentar ter uma convivência diferente. Existem, também, vários homens que se juntam à luta e às manifestações, compreendendo-se mais recentemente que a luta dos direitos das mulheres irá ajudar a conceder direitos, também, aos restantes.

Neste seguimento, há uma saída em massa de jovens do Irão e outros que falam do que poderá ser este futuro, percebendo-se que a evolução só será possível sem este regime. Fora de fronteiras, os iranianos prosseguem as suas carreiras, mas, ainda assim, perseguidos pelos fantasmas do seu país. A propaganda constante instiga a desconfiança entre grupos demográficos, a existência de espiões entre manifestantes implica que ninguém saiba em quem confiar.

A cada texto vamos construindo uma realidade brutal, onde o regime é, simultaneamente atemorizante e ridículo. Atemorizante pela forma como tortura e mata cidadãos com base em elementos triviais, cuja importância é inflaccionada ou apresentada numa perspectiva que parece justificável aos mais religiosos. Ridículo porque, entre a tentativa de imposição de um código de conduta severo e intransigente, uma parte da classe mais poderosa acumula riquezas de forma fraudulenta e expõe uma forma de vida completamente oposta.

Mulher, Vida, Liberdade apresenta a origem deste lema da resistência iraniana, e vários outros elementos do regime ditatorial. É uma leitura interessante, por vezes pausada e mais descritiva, noutras mais visual e fluída, dependendo da abordagem seguida pelos autores daquele capítulo. Mas é, sobretudo, uma leitura aconselhada aos que pretendem entender um pouco mais das circunstâncias vividas no Irão.