Naomi Novik é a autora de obras de fantasia tão diversas como a série Temeraire, Spinning Silver, Uprooted (publicado em Portugal como Coração Negro), ou a série Scholomance (em Portugal lançada pela Kathartika começando por Uma Educação Mortal). Um dos seus mais recentes livros, The Summer War, remete-nos para o povo feérico, numa construção mais clássica que recorda um mito.

O enquadramento possui traços medievais, apesar do reino onde a história decorrer se encontrar na fronteira com as Terras Feéricas. Aqui uma jovem de uma família relevante (ainda que de raízes mais obscuras) chamada Célia, começa por nos contar como o pai tem nitidamente um filho favorito – o mais velho que o irá suceder e que anda de Terra em Terra, construindo o seu nome como cavaleiro digno e corajoso.

Mas este irmão, Argent, possui um segredo que o irá fazê-lo afastar-se da família, fazendo com que Célia, sentindo-se rejeitada, num ataque de imaturidade o amaldiçoe. É neste pico de raiva e frustração que os seus poderes se revelam, fazendo com que Argent seja realmente amaldiçoado. Sem o irmão favorito (que agora parte na construção do seu próprio destino, sabendo que nunca poderá ser amado) volta-se para o irmão mais novo que, apesar de negligenciado, se revela uma aliança forte ainda que menos óbvia – até porque, com o afastamento de Argent, o pai entra em declínio.

Tudo parece encaixar-se, pelo menos nos poucos anos seguintes – até o Rei forçar que Célia se case com o príncipe, por ver o pai como uma ameaça ao seu reinado. Mas o casamento que realmente decorre é bastante diferente, com Célia concedida ao Príncipe do Reino Feérico, como forma de tentar terminar uma Guerra que já se arrasta ao longo de um século.

A história, relativamente curta, explora a diferença das condições feminina e masculina numa sociedade de contornos medievais, onde nem Célia, nem Argent parecem ser totalmente donos dos seus destinos, direccionados pelas responsabilidades de pertencer a uma família de relevância política e militar no reino.

Ultrapassando esta vertente, a história explora também relações familiares e expectativas para a prole, apresentando como algumas lições têm impactos inesperados quando se transformam em adultos. A narrativa desenvolve diferentes laços familiares, desde admiração e companheirismo entre irmãos, às relações diferentes que cada um tem com o pai – existem nitidamente os favoritos.

Em termos de contexto, a história apresenta a longa Guerra com a nação feérica, apresentando entre outros episódios os motivos e os desenvolvimentos, explicando-se também outras consequências para além das usuais, e as interacções mais amigáveis que, mesmo assim, alguns humanos possuem com os feéricos.

Tal como noutras narrativas que envolvem criaturas feéricas, a história segue um determinado padrão onde é dada imensa importância à honra e à história que é deixada, tendo-se de ter cuidado com as palavras usadas para realizar promessas (que nunca podem ser quebradas). A utilização de um contexto feérico permite que a autora não tenha de fornecer longas descrições do mundo, usando os conceitos já conhecidos para trabalhar dentro das expectativas do leitor.

A história é relativamente curta e contida. O enquadramento é limitado, debruçando-se nas interacções familiares e explicando o conflito, mas sem se alongar para além do necessário. A narrativa apresenta a perspectiva de Célia, sendo, sobretudo na primeira metade, uma história bastante cândida. O formato é conciso e directo, cumprindo a função de contar a história, o que, neste caso, funciona muito bem.

The Summer War é uma leitura agradável. Não a achei excepcional, mas é recomendável para quem queira uma história coesa e sem deambulações, onde os elementos feéricos são usados na sua forma tradicional, apesar de apresentar algumas divergências em relação à expectativa que tinha para alguns detalhes mais fantásticos.