A personagem Peter Pan terá sido criada por J. M. Barrie na sua história The Little White Bird – um pequeno rapaz que vive aventuras mágicas e se recusa a crescer. Esta personagem iria inspirar a criação da peça de teatro Peter e Wendy, e o Peter Pan que entretanto foi mais popularizado. José Luis Munuera adapta o romance de J. M. Barrie, destacando-se o local onde decorrem as aventuras, os Jardins de Kensington.
A história centra-se em Maimie Mannering, uma menina que entra nos jardins e neles permanece após o fecho, encontrando-se com Peter e estabelecendo com ele uma relação de amizade. O foco de ambos é bastante diferente. Enquanto Peter se pretende afastar do mundo dos humanos, recusando o seu próprio crescimento, Maimie está focada em voltar a encontrar os seus pais.



E é no jardim, encontrando uma rainha mágica que recorda a Rainha de Copas (numa versão menos caótica), que Maimie é incumbida de uma tarefa mágica teoricamente impossível que lhe irá permitir voltar a casa. Esta interacção permite vislumbrar o mundo das fadas que residem no jardim, envoltas numa lógica muito própria, aparentemente benévolas, mas com maleficência muito própria.
O mundo dos jardins é bastante diferente da Terra do Nunca que foi associada à versão de Peter Pan mais popular. É um mundo onde as regras normais deixam de fazer sentido, habitado por fadas e aves que falam, com costumes próprios. Existe magia, mas esta é menos fantástica e fabulosa do que esperado, contendo uma aura sombria e até, perigosa.



Como seria de esperar do que é conhecido da personagem, Peter abomina o mundo real dos adultos. Mas, pela forma como se refere aos adultos, sentindo-se invisível e, até, rancoroso, depreende-se que o seu relacionamento com os crescidos não terá sido dos melhores. Esta perspectiva é contraposta pela de Maimie que fala do pai como um homem atento que lhe dá atenção e que brinca com ela. Duas perspectivas opostas que ditam a forma como ambos veem o mundo real.
Outra diferença em relação à versão mais popular de Peter Pan estará na postura que ambas as crianças assumem no seu relacionamento. Maimie é, aqui, apenas uma criança que procura voltar para a sua realidade, e não assume um papel materno em relação às outras crianças. Já Peter ajuda Maimie na sua demanda, mas exaspera-se com a postura de Maimie perante o mundo fantástico.



Visualmente, Peter Pan de Kensington aproveita o facto da acção decorrer de noite para apresentar páginas sombrias, onde se joga com as sombras e as luzes intensas das iluminações. Assim se destacam as personagens, que contrastam com o ambiente que as rodeia. O traço é expressivo e dinâmico, demonstrando a intensidade da aventura vivida pelas crianças.
Este Peter Pan de Kensington é uma leitura que consegue surpreender , ao adaptar a versão original de Peter Pan. Neste seguimento, a narrativa é mais ambígua e o ambiente inquietante, com uma abordagem menos romântica perante o espírito aventureiro da eterna criança de Peter Pan. É, por isso, uma leitura aconselhável, sobretudo para os que não conhecem a vertente original da história.

