
Foi com The Spear Cuts Through Water que me recordo de ter ouvido falar do autor pela primeira vez, aparecendo na shortlist para o prémio Ursula K. Le Guin, e nomeado para o prémio Ignyte. Não que este The Vanished Birds tenha sido recebido de forma menos inglória. Publicado dois anos antes, foi nomeado para os prémios Locus, Arthur C. Clarke e Astounding Award. Mais recentemente, foi lançada esta edição especial em capa dura (a original era um paperback de dimensão intermédia) pela The Broken Binding.
Num futuro em que a humanidade colonizou vários planetas, espalhados por múltiplos sistemas, as viagens interestelares fazem com que o tempo passe de forma desigual, sendo que meses a bordo de uma nave se reflectem em décadas para quem ficou num planeta. É nesta realidade que conhecemos Kaeda, um rapaz que nasce num mundo de características rurais, em que o que vem do exterior é visto com desconfiança e preconceito.
Excepto durante as trocas comerciais que ocorrem de largos anos em largos anos. E é aqui que Kaeda, ainda criança, se fascina com uma visitante, Nia, recebendo uma flauta que irá ter um papel bastante relevante ao longo da história. Na próxima visita, Kaeda, já um jovem adulto, ganha coragem para abordar a visitante, iniciando-se um romance fugaz que vai saltitar de décadas em décadas, mostrando o envelhecimento de Kaeda e a juventude de Nia.
A vida de Kaeda é contada de encontro em encontro, mostrando como a profecia do pai se realiza, até que de agricultor se torna o representante da sua vila. Quando um rapaz, nitidamente estranho ao planeta, é encontrado, é ele que o recolhe, pretendendo enviá-lo na próxima visita de Nia, para fora do planeta. Mas o rapaz não fala e será através da flauta que se irá expressar.



A partir daqui a história vai saltitar de personagem em personagem. Esta abordagem permite explorar perspectivas muito pessoais, bem como adquirir um entendimento maior da história do que cada personagem, mostrando os relacionamentos que se vão estabelecendo. Acompanhamos uma cientista solitária que vai mudar o futuro da humanidade, bem como outras pessoas que se encontram a bordo da nave de Nia, percebendo o que as motiva e preocupa. Vemos diferentes planetas e formas de vida. Percebemos diferentes culturas e diversidades.
Mas, tão importante quanto esta pluralidade de visões, a história consegue criar e desenvolver cada personagem, de forma coerente, criando uma ligação peculiar com os seus defeitos e características. Apesar das atrocidades que são cometidas, não existem vilões absolutos – pelo menos não como pessoas individuais. Existem, claro, os que tomam más decisões e tenham de viver com elas, bem como aqueles que têm dúvidas, existindo consequências pela sua hesitação.
Apesar de apresentar um tema de ficção científica pura e dura, The Vanished Birds destaca-se pela abordagem profundamente humana e emocional, apresentando cada personagem como única e relevante – por vezes de forma demasiado fugaz; mas conseguindo caracterizar de forma sublime cada pessoa que pretende tornar palpável, do ponto de vista emocional e psicológico. Personalidades que se distinguem e fortalecem, captando o interesse e a emoção do leitor.
Mas não são só as personagens que são múltiplas. A história começa por nos mostrar um mundo de contornos medievais em termos de tecnologia, carregado de superstições e fechado em costumes – mas que terá de mudar com a chegada das viagens instantâneas. A progressão tecnológica e a expansão de um Império galáctico capitalista trarão consequências também para outros mundos. É-nos apresentando um mundo de músicos, destruído pela ganância galáctica, e um mundo recém absorvido que provavelmente irá perder a sua cultura única, a bem da uniformização de idioma de costumes para pertencer ao novo conjunto.



Assistimos, também, ao cataclismo num mundo moribundo, um mundo de degradação ecológica que dita o destino de milhões de humanos que não terão meios para escapar. É aqui que vemos alguns humanos que, de forma altruísta escolhem ficar e dedicar as suas invenções a melhorar o quotidiano dos remanescentes. Por oposição, também somos levados por uma estação espacial altamente avançada onde os luxos são usufruídos por uma classe nobre caprichosa e distante.
The Vanished Birds não cria um futuro único e homogéneo, mas consegue, num único livro, caracterizar vários planetas e sociedades, diferir em perspectivas e contrapor a existência pacífica e equilibrada de alguns planetas com uma sociedade imperial em expansão que, não sendo propriamente maléfica, tem o lucro e o crescimento como objectivos máximos, exercendo os direitos contratuais até às últimas consequências. A calma, a nostalgia e a aceitação do destino opõe-se a momentos mais sangrentos e traumatizantes, criando uma combinação agridoce que acompanha o final do livro.
E apesar dos momentos mais deprimentes, até desesperantes, a viagem proporcionada pela história vale a pena – pela combinação de emoções e pelos laços que desenvolve, a criação de uma família sem laços de sangue que acompanha e motiva, pela ligação emocional e, até, elevação, e, sobretudo, pela apresentação da arte como forma de resistência, neste caso pela música, uma forma de conexão, encontrando-se sentido na imensidão do cosmo.
The Vanished Birds apresenta-se como um mosaico fascinante, que explora a humanidade na era da expansão intergaláctica, mas também apresenta, paralelamente, novas preocupações, resultantes da tecnologia. É ambicioso pela imensidão de perspectivas e pela pluralidade apresentada, mas emocionante, nostálgico e, novamente, agridoce.
