Os Engonços da Quionga / A loja do desejo agridoce – Rhys Hughes

Ainda que a maioria dos contos da antologia Winepunk sejam de autoria nacional, existem dois de Rhys Hughes que decorrem no mesmo Universo. Na primeira história um estrangeiro explora as origens da sua estranha casa, percebendo que a casa viajou vários milhares de quilómetros. No segundo conto parte este mesmo estrangeiro para salvar uma donzela, utilizando-se elementos narrativos criados no primeiro conto.

Quem conhece o autor percebe o seu fascínio por culturas não ocidentais. Não é, assim, de estranhar, que o autor tenha situado os dois contos em África, começando com os conflitos armados que aí decorriam. Nostálgicos pela terra natal e sem querer largar as suas casas, seguem um inventor louco que cria um mecanismo capaz de viajar longas distâncias, transportando, numa plataforma, todas as casas de quem deseja regressar. A convivência permanente dos viajantes e os trios amorosos resultam em conflitos difíceis de resolver. Os viajantes acabam por se separar de forma inesperada.

Num segundo conto, o mesmo estrangeiro explora as lojas locais e encontra uma de desejos agridoce onde se fala de árvores de bochechas e outros eventos improváveis. A compra de uma poção leva-o à praia, onde encontra uma garrafa com uma mensagem de socorro. Ainda sob o efeito da poção, o estrangeiro parte para salvar uma donzela, sem saber que será uma viagem de reviravoltas inesperadas.

Ainda que as duas histórias possuam um ambiente algo diferente do resto da antologia, são dois contos imaginativos e fantásticos, de leitura divertida pela forma como jogam com ideias mirabolantes.

Outros contos da antologia Winepunk

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In Vino Veritas – João Ventura – Winepunk

Pegando na frase em Latim, João Ventura dá-lhe um novo significado integrando um novo tipo de vinhas combatentes que são capazes de ter uma acção determinante contra forças inimigas.  O conto ganha especial interessante por usar figuras históricas da época, integrando-as de forma coerente.

A premissa do conto é simples e João Ventura trabalha-a de forma consistente e elegante, transformando-se numa história imaginativa, interessante e de bom ritmo. A história mostra o novo tipo de vinhas combatantes, mas consegue focar-se em várias localizações para dar uma visão maior dos conflitos entre o Norte e o Sul do país.

Outros contos da antologia Winepunk

Laura and the Shadow King – Bruno Martins Soares

 

Bruno Martins Soares é mais conhecido, entre os leitores portugueses, por Alex 9 (publicado inicialmente como trilogia e depois em volume único pela Saída de Emergência) ou por A Batalha da Escuridão (publicado mais recentemente em português pela Editorial Divergência). Mas, para além destes livros, Bruno tem escrito e publicado sobretudo em inglês, pela Amazon, procurando o público internacional, entre o qual poderá ter um maior número de leitores.

Entre os livros publicados na Amazon encontramos Laura and the Shadow King, uma história apocalíptica que refere um género de apocalipse zombie passado em terras da Península Ibérica onde não falta acção e guerra – algo que é pouco usual encontrar em autores portugueses. E esta é uma das principais características da escrita de Bruno Martins Soares, talvez por influência de outra das actividades do autor – escritor de roteiros de cinema.

Quem me segue sabe que dou primazia à narrativa num livro: ao (bom) desenvolvimento de personagens acima de pensamentos filosóficos, à sucessão de episódios lógicos acima de jogos de palavras com significado dúbio. Laura and the Shadow King apresenta estas características, preferindo dar força à velocidade da acção, ainda que dê mais importância à sucessão de episódios do que ao foco nas personagens.

A acção intercala várias personagens que se encontram em diferentes locais.  Se por um lado se foca nos operacionais militares que tentam manter algum controle sobre o território lusitano (ainda que existam grupos civis que mantenham o controle local) e que se debatem com o aparecimento de seres humanos suicidas (para além dos usuais humanos doentes e contagiosos); por outro, apresenta uma dupla mãe-filha que tenta escapar das garras de uma facção russa em território espanhol – uma dupla que tem um papel fulcral no crescimento da facção.

Entre descrições de operações no terreno e pequenas batalhas militares, encontramos a dupla em fuga por territórios perigosos e inóspitos. Mas ambas possuem um dom que as irá manter a salvo mais do que uma vez – um dom que pode ser determinante para o futuro da humanidade.

Utilizando a experiência noutras áreas, Bruno Martins Soares consegue dar ao enredo o devido tom de urgência. Existem vários episódios que conseguem transmitir a tensão de estar no terreno – mesmo quando não existe confronto o ambiente é de alerta e qualquer movimento suspeito poderá iniciar uma rápida troca de agressões. Com várias referências às munições utilizadas (que darão outro gosto a quem as reconhece) a história tem um grande foco militar numa situação de apocalipse, mantendo um ritmo elevado.

Mas não pensem que a história é só militar. Apesar de todos os detalhes nessa componente, a história centra-se muito na relação entre a mãe e a filha, uma relação de amor e dependência em torno da qual toda a história irá se centrar. Se, por um lado, a mãe quer fugir da facção russa a todo o custo, a filha pensa apenas na presença da mãe e em como responder adequadamente às expectativas nela depositadas.

Laura and the Shadow King tem algumas arestas por limar – sobretudo na caracterização de personagens e na forma rápida como as introduz, não dando grande espaço para o leitor respirar. Mas, tratam-se de arestas. São poucos os autores portugueses capazes de conduzir uma história com esta velocidade e Bruno Martins Soares consegue fazê-lo. Ainda que esta história possa ser lida isoladamente, existirão mais livros no mesmo Universo.

Novidade: Bug Vol.1 – Enki Bilal

Com a proximidade do Festival de Beja, a Arte de Autor anuncia o lançamento do primeiro volume de BUG (estando o lançamento do segundo já agendado para Outubro):

Num futuro próximo, numa fração de segundo, o mundo digital desaparece, como se sugado por uma força inexprimível. Um homem encontra-se só no meio da tormenta, cobiçado por todos os outros.
BUG significado
Em português: erro ou falha na execução de programas informáticos, prejudicando ou inviabilizando o seu funcionamento.
Em inglês: inseto, bicharoco ou vírus.

Enki Bilal, denunciante! O que acontecerá se a raça humana abandonar sua memória apenas à tecnologia? Ao contar o BUG do ano de 2041, o artista assina um thriller de antecipação nervosa em que os destinos íntimos se chocam com o caos de um mundo em completo apagão. Na continuidade direta de Monster e Coup de Sang, Bilal continua seu trabalho orwelliano e shakespeariano.

As melhores leituras de 2018 – Banda desenhada

À semelhança do que fiz com as restantes leituras de 2018, eis uma listagem dos melhores livros de banda desenhada que tive oportunidade de ler este ano! Entre os 220 livros que li em 2018 entre 2/3 e 3/4 é de banda desenhada, pelo que muitos livros excelentes terão de ficar de fora! Irei começar com as melhores leituras nacionais!

Obras portuguesas

Melhor banda desenhada de ficção científica

 

 

 

 

 

 

 

A escolha de um destes estava tão difícil que optei por seleccionar ambos. Ambos são bastante irónicos na forma como abordam as transformações em curso na nossa sociedade. No caso de Futuroscópio de Miguel Montenegro encontramos vários contos que abordam aspectos diferentes, exagerados, levados ao extremo, numa caricatura aos movimentos sociais. O futuro não é risonho, apesar de haver uma aparente felicidade dos cidadãos (da ignorância vem a felicidade) – é um beco sem saída sem evolução, uma regressão da humanidade que deixa, como legado, a tecnologia avançada, mas que não poderia ser criada pelos humanos que com ela coexistem.

Já em Watchers de Luís Louro seguimos, numa realidade futura, um grupo de jovens denominados watchers que usam a tecnologia para criar canais que expõem o mundo que os rodeia. Sem filtros, sem análises nem contextos, as filmagens são divulgadas para todos os que as quiserem ver. Começando com episódios fofinhos e caricatos, a busca de mais seguidores e de mais reacções nas redes sociais depressa leva a que sejam filmadas situações mais inusitadas, ridículas, perigosas e violentas. Até onde se vai pela busca de seguidores?

Comentário mais detalhado:

Futuroscópio – Miguel Montenegro;

Watchers – Luís Louro. 

Melhor banda desenhada de fantasia – Zahna – Joana Afonso

Zahna possui o estilo característico de Joana Afonso, um estilo que se destaca na transmissão de emoções e sentimentos e que conferem traços de caricatura às suas personagens. A protagonista é uma mulher guerreira, rabugenta mas leal às suas responsabilidades, que se vê literalmente com uma maldição sob a cabeça! Leitura divertida, Zahna deturpa ligeiramente os clichés da fantasia para apresentar uma história engraçada.

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Melhor banda desenhada cómica – Conversas com os putos e os pais deles – Álvaro

À semelhança do volume anterior, Álvaro reúne neste Conversas com os putos e com os pais deles, uma série de conversas com os seus alunos e os respectivos pais. Se as conversas com os jovens se encontram entre o absurdo e o quase impossível de tao idiotas, as conversas com os seus pais ainda são piores.

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Melhor narrativa de ficção – Olimpo Tropical – André Diniz e Laudo Ferreira

Quem é o vilão? O traficante ou a polícia corrupta? Em Olimpo Tropical retrata-se a realidade da favela onde os estudos são largados cedo por falta de sucesso, a favor das ocupações de mais fácil dinheiro, quase sempre relacionadas com o tráfego de droga e a criminalidade. Quem manda é quem se mostra mais destemido, quase louco, na sua capacidade de se fazer temer pelos outros. Visualmente expressivo, exagerado em expressões e traços físicos, Olimpo Tropical é um trabalho excelente que é capaz de cativar o leitor, fazendo-nos perceber a realidade inevitável das favelas que engole os seus moradores num ciclo interminável – quem tenta arranjar um emprego fora da favela é descriminado ou ganha tão pouco que se torna impossível sustentar uma família.

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Obras de autores estrangeiros

Melhor banda desenhada de super-herói – Ms. Marvel – G. Willow Wilson e Adrian Alphona

Ms. Marvel não é uma heroína comum – muçulmana, distingue-se fisicamente do aspecto tradicional das heroínas enquanto altas e louras; e culturalmente pelas suas origens pouco ocidentais. O resultado é uma heroína que se preocupa com os comuns cidadãos e que apresenta conflitos pessoais diferentes do que é habitual. Este volume apresenta como surgiu Ms.Marvel, dando grande foco à componente pessoal, ainda que não faltem os característicos episódios de acção.

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Menção honrosa – Michael Chabon’s The Escapists

No seguimento de uma tradição ficcional de livros sobre livros que não existem, a história centra-se num rapaz fascinado pelos livros de banda desenhada do falecido pai. Estes livros de banda desenhada centravam-se num herói há muito esquecido que o jovem tenta recuperar. Para tal compra os direitos do super-herói e tenta montar uma pequena gráfica para produzir novas aventuras!

A história vai intercalando episódios da vida deste rapaz, com episódios da velha banda desenhada e episódios da nova. São três histórias que ecoam umas nas outras, enquanto a ficção se imiscui na realidade, e a realidade se traduz numa nova ficção, sendo que o próprio autor entra neste jogo e constrói uma excelente homenagem ao livro de Michael Chabon.

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Menção honrosa – Batman – O príncipe das trevas – Marini

O príncipe encantado das trevas alterna o foco entre dois casais peculiares – o de Batman com a Catwoman, e o de Joker com Harley Quinn, mostrando dois relacionamentos disfuncionais, cada um da sua forma. Lançado em dois volumes de formato maior do que é habitual, esta história destaca-se pelo belíssimo aspecto gráfico, em que Marini é narrador e desenhador. A linha narrativa tem vários pontos previsíveis com vários clichés, mas a leitura consegue captar o leitor e dar-nos a sensação final de termos assistido a um filme.

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Melhor adaptação – Afirma Pereira – Pierre-Henry Gomont

Afirma Pereira é o despertar da consciência política de um homem que, até então tinha vivido demasiado voltado para si mesmo e preso no passado. Neste acordar, quase forçado por novas empatias, não se consegue remediar totalmente pela anterior apatia, mas tenta, enfrentando as consequências. Depois de anos preso às memórias de um passado distante, Pereira começa a reconhecer as pequenas notas políticas no que o rodeia, tanto no jornal, como nas ruas em que dantes passava como inocente. Reconhece, também, que o enfrentar desta situação tem um custo elevado.

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Menção honrosa – O jogador de xadrez – David Sala

O tema da história é simples e roda em torno de um jogador de xadrez. Mas se esperamos que a história se centre no maior jogador de xadrez, um imbatível mas inculto jovem que vence qualquer jogo, somos rapidamente desenganados. No barco em que viaja encontram-se vários homens curiosos pela presença do campeão, não sendo, assim, de estranhar, que organizem um jogo de xadrez em que todos, em conjunto, enfrentam o campeão.

Após as primeiras jogadas, destaca-se, entre o grupo de amadores, um homem cujo intelecto parece competir com o do campeão, referindo jogadas que deixam o campeão surpreso. Este homem misterioso não só esconde um enorme talento no xadrez, como um passado pesado que liga a prática xadrez a eventos psicologicamente marcantes. Utilizando elementos artísticos de pintores famosos do fim do século XIX ou início do XX (que a sinopse da editora identifica como Klimt ou Schiele) a história é tudo menos linear ou, até, aborrecida. A tensão que se cria ao longo do jogo de xadrez transporta o jogo para outra dimensão e o foco deixa de estar nas jogadas, confrontando-se a curta história do campeão, com a traumática história de um anónimo que se lhe iguala.

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Melhor banda desenhada história – O Comboio dos órfãos – Vol.2 – Philippe Charlot e Xavier Fourquemin

Esta série centra-se nas crianças que foram deslocadas das grandes cidades para serem adoptadas ao longo dos Estados Unidos, nos anos 20. Mas nem todos os que recebem estas crianças têm boas intenções, e algumas crianças são usadas como trabalhadores, ou são levadas a casar prematuramente. Para além do bom aspecto visual, a série destaca-se por conseguir apresentar uma situação trágica mas, ao mesmo tempo, dar-lhe pequenos detalhes cómicos entre os diálogos infantis. Esta mistura resulta numa excelente leitura – uma das favoritas de 2019.

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Menção honrosa – Marcha para a morte – Shigeru Mizuki

Marcha para a Morte é um livro sobre a Guerra. Mas acima de tudo, um livro que nos mostra o quão absurda é a guerra, desperdiçando a vida dos soldados por estratégias mal definidas, levando adolescentes imberbes a enfrentar outros imberbes adolescentes, uma constante falta de consideração pela vida – e para quê? Aproveitando a sua própria experiência na guerra, Mizuki traça um retrato crítico, de elevada tensão, onde os momentos trágicos são acompanhados por tiradas de humor negro que dão nova perspectiva aos acontecimentos.

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Melhor banda desenhada de ficção científica – Descender – Jeff Lemire e Dustin Nguyen

Existem várias séries de ficção científica e fantasia em curso, publicadas principalmente pela Image mas Descender continua a ser, para mim, uma das melhores. Por um lado, a temática corresponde ao meu género favorito (a ficção científica) mostrando um Rise of the machines num futuro distante. Por outro, a história consegue a proeza de mostrar várias linhas narrativas que se vão cruzando e dando diferentes pontos de vista aos acontecimentos. Por último, o estilo gráfico de Dustin Nguyen adequa-se totalmente à história e torna as páginas fascinantes.

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Menção honrosa – Imperatriz – Vol.1 – Mark Millar e Stuart Immonen

Visualmente fabuloso, este Imperatriz parecia, nas primeiras páginas, trazer uma história quase cliché, com a mulher de um homem poderoso mas violento, a fugir pela galáxia com os filhos. Toda a história nos leva a pensar numa determinada situação passada que não se verifica acabando por nos surpeender. Do ponto de vista gráfico, os autores aproveitam a possível diversidade de planetas para contrastar cidades sobrepopuladas e futuristas com desertos gelados e desolados. O resultado é movimentado e visualmente fabuloso!

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Menção honrosa – Ciudad – Giménez e Barreiro

Com algumas semelhanças a Parque Chas, Ciudad centra-se numa cidade sem tempo, uma espécie de buraco negro onde vão parar habittantes de todos os tempos e lugares – imensa e diversa, uma cidade sem fim nem saída. A cidade não é contínua, nem no espaço, nem no tempo, e a dupla de exploradores experimenta o passado e o futuro, ambos traumatizantes, não percebendo as diferenças na duração da noite e do dia entre as diferentes partes da cidade. Cruzando outras ficções com esta narrativa (não só pela apresentação de monstros, como pelo surgir da figura Eternauta, e por referências indirectas a outras obras) Ciudad funde vários elementos para se transformar numa longa e rica viagem.

Comentário mais detalhado.

Melhor narrativa ficcional – Essex county – Jeff Lemire

Este volume reúne três histórias diferentes que se interligam e que decorrem em Essex County  – o ambiente é frio e inóspito, e os relacionamentos humanos mostram-se difíceis. A razão de tal dificuldade deriva de uma série de segredos familiares e desgraças passadas que o autor vai desenvolver em várias linhas narrativas. As personagens ultrapassam a ficção e passam a ser pessoas com passado e densidades – pessoas que se encontram e desencontram tal como o leitor.

Comentário mais detalhado.

Menção honrosa – O cão que guarda as estrelas – Takashi Murakami

Neste pequeno livro aproveita-se a figura do animal de estimação, neste caso um cão, como forma de explorar a complexidade dos relacionamentos (e a sua evolução). O cão oferece uma visão simples, mas através dele vamos interpretando os sinais de algo diferente, como o afastamento do casal, em que, ao invés de apoio mútuo, encontramos sacrifício e apoio de uma das partes, mas, da outra, egoísmo e quebra completa. O animal de estimação acaba por se tornar o único ponto de consolo e de amizade, o único relacionamento que se mantém, e que serve de consolo para o homem que se vê fora da própria casa e da própria vida.

Com uma pequena aura de tragicidade (já conhecemos o final da dupla desde o início) e passando o sentimento de destino que se irá cumprir, a história coloca-nos a tentar perceber o percurso das duas personagens. O animal fornece uma perspectiva interessante, com elementos que ele não compreende, mas que o leitor percebe.

Comentário mais detalhado

As melhores leituras de outros anos

Resumos / melhores de 2018

Evento: Fórum Fantástico

Começa amanhã, dia 12, um dos mais esperados eventos do ano em torno da ficção científica e fantasia, o Fórum Fantástico. O Fórum apresenta, como já nos habituou, um programa extenso e diverso, onde se discutem e apresentam projectos. Neste seguimento entrevistei o Rogério Ribeiro, um dos organizadores (conforme já tinha divulgado),  mas aproveito para realçar algumas componentes, cujo programa podem consultar na página oficial do evento:

Workshops de escrita – com Bruno Martins Soares e Pedro Cipriano ou com Chris Wooding (o convidado internacional deste ano);

Lançamento de livrosLisboa Oculta (Guia Turístico), Tudo isto existe de João Ventura, O Resto é paisagem, Apocryphys vol. 3 (banda desenhada);

Palestras com vários autores nacionais e internacionais – de banda desenhada, ficção científica e fantástico;

– Jogos de tabuleiro;

– Exposições – Nos 25 Anos de Filipe Seems; de Nuno Artur Silva e António Jorge Gonçalves; Jardim Secreto, de Bruno Caetano;

– Feira do fantástico.

Assim foi: Comic Con 2018

Fui pela primeira vez à Comic Con! Por um lado porque decorre em Lisboa, por outro porque fiz parte do júri dos Galardões Comic Con e porque ia apresentar o painel do Daniel Rodrigues no Domingo. Eis um pequeno apanhado sobre o evento: o bom, o mau e o vilão. Claro que, dados os meus interesses, o meu comentário centra-se nas vertentes que mais aprecio: livros, banda desenhada e jogos de tabuleiro.

Espaço dedicado à série Walking Dead

Acessos

Este foi, no Domino, O Vilão do evento. Pelo menos porque nesse dia houve condicionantes adicionais que, não sendo culpa da organização dificultaram o acesso ao evento.

O problema do acesso começou com estradas cortadas por uma corrida na marginal (ou algo do género). Talvez por esta razão, no Domingo, o estacionamento era inexistente. Fomos até Belém sem perspectiva de lugar. Optámos por fazer o resto do percurso de táxi mas nem este pode passar, algo que não é usual. Mas se até posso compreender que para nós os acessos fossem tão distantes. Mas vimos algumas pessoas com mobilidade reduzida (cadeira de rodas) que tiveram de fazer o percurso todo até à entrada do evento.

Saída de Emergência na Comic Con

Restauração

Li vários comentários referindo a pouca variedade de comida. A experiência, do nosso ponto de vista não foi má, considerando o tipo de evento e a expectativa que tinhamos. Quando quisemos comer, escolhemos e recebemos a comida em 5 minutos e até tivemos lugar sentados à sombra. Não vi confusão nem grandes filas e havia várias mesas espalhadas ao sol (demasiadas ao sol). A diversidade não era muita e não era barato. Mas também não achei excessivo para além do esperado.

Programação

Decididamente, O Mau. Uma confusão. A forma como é feita a divulgação e se encontra a informação na página oficial tornou difícil perceber, antes e durante o evento, quem estava onde, quando e a fazer o quê.  Vários autores e editoras tinham as duas publicações separadas, e os autores oscilavam entre o programa oficial do evento e o programa paralelo.

Para poder optimizar todas as presenças que me interessavam no evento, tinha de despender bastante tempo, coisas que não tive.

Espaço – Mapa e indicação

O evento dispunha de bastante espaço para se estender(O Bom). Mas faltavam indicações e organização. Cada stand estava voltado para o seu lado, e ainda que tivessem a mesma temática, não pareciam orientados para rapidamente se perceber a totalidade da oferta. Ainda, as indicações eram escassas – para alguém que pretendia estar em determinado local em determinada hora, houve alturas em que andei feita uma barata tonta. Ah. Quase me esquecia. Casas de banho. Costumam ser a parte esquecida da equação (excepto quando estão em estado miserável). Não vi muitas queixas nesta componente, o que, de si, é excepcional para um evento deste tamanho.

Os mais pequenos

Não levámos crianças ou jovens connosco, mas reparei que existiam várias actividades e espaços de que podiam dispor e divertirem-se!

O Espaço dos mais pequenos

Banda desenhada

Entre apresentações, sessões de autógrafos e stands, esta vertente estava bem representada mas parecia dispersa, sem aproveitar a totalidade dos interessados nessa componente:

  • Artist’s Alley – apertada, confusa e escura. Existiam várias bancas em que teria parado mais tempo se houvesse espaço, mas os visitantes acotovelavam-se. Existiam artistas semi escondidos e não era fácil dar com eles e deparei-me como autores convidados (Rubín, por exemplo) que não sabia que ia estar nesta zona no Domingo. Optei por contactar rapidamente aqueles que tinham livros que queria comprar, pedir os respectivos autógrafos e fugir. Sem dúvida O Vilão desta componente. Os autores que pagaram para expor o seu trabalho mereciam muito melhor;

 

Miguel Montenegro com o seu novo livro, Futuroscópio

Ricardo Venâncio

Pepedelrey

 

  • Painéis – alguns espaços encontravam-se rodeados de barulho, o que não facilitava a audição;
  • Autógrafos – confesso que não tive oportunidade para explorar esta vertente, dado ter planeado algumas entrevistas para o programa de rádio (vamos lá ver se possuem qualidade suficiente) mas várias pessoas que foram com o objectivo de recolher autógrafos se mostraram satisfeitas com o resultado – O Bom.

Jogos de tabuleiro

Talvez porque, em comparação com os videojogos, os jogos de tabuleiros não possuem, neste evento, a mesma quantidade de fãs, revelou-se uma parte com espaço suficiente para circular e comprar. Existiam bancas de várias editoras (a bons preços) e mesas para experimentar os jogos – O Bom.

Cosplay

Ainda que seja das vertentes do evento que menos me interessem, existiam fatos de grande qualidade, e de universos variados, conferindo um aspecto bastante interessante ao evento.

Steampunk

Existiam dois espaços Steampunk no evento, um com adereços próprios e informação, e outro dispondo um género de pavilhão de curiosidades, associado ao Custom Café (cujas fotos apresento a seguir).

Resultado

Quem lê parece que foi uma má experiência. Não foi. Também não foi excepcional. Para quem gosta de banda desenhada, livros e jogos de tabuleiro é um evento agradável, mas algo disperso. Esta dispersão sente-se em tudo: na comunicação das várias vertentes, tanto pública como aos que intervém nos painéis, ou na disposição da página web.

Compreendo que seja um evento de grande dimensão e que é a primeira vez neste espaço, mas existem vários elementos de pouco esforço que poderiam ter contribuído para uma melhor experiência.

Resumo de Leituras – Agosto de 2018 (5)

144 – O Farol Intergaláctico – João Pedro Oliveira – eis mais um grande exemplo de boa ficção científica publicada pela Imaginauta num formato acessível (em preço) e de fácil transporte. O conto de 12 páginas centra-se na distância temporal criada pelas viagens espaciais, mostrando dois amigos que não se vêem há uma viagem – um no auge da sua juventude, outro velhote e melancólico;

145 – Joe The Barbarian – Grant Morrison e Sean Murphy – Após a morte do pai, a mãe luta para manter o tecto sobre a cabeça dela e do filho. Já o rapaz, que é diabético, soturno, é marginalizado pelos restantes rapazes. Resta-lhe sonhar pelos seus desenhos, até ao dia em que se materializa noutro mundo fantástico onde a sua presença é fulcral;

146 – Seis drones – António Ladeira – Falhei o lançamento na Barata por distração mas ainda assim comprei um exemplar. As referências a várias obras de ficção científica revelam que o autor sabe o que está a escrever e efectivamente os seis contos que apresenta parecem ter inspiração nos clássicos – Orwell, Bradbury, Dick. O resultado é bom, com pontinhas de ironia relativamente à tecnologia e à possibilidade de servirem de forma de controlo das populações;

147 – Portais – Octavio Cariello e Pietro Antognioni – Esta banda desenhada de ficção científica foi lançada há alguns meses, mas só agora a li. Visualmente bastante boa, possui uma história futurista com portais entre épocas diferentes que visam transportar elementos decisivos para a luta por um trono distante.

Artemis – Andy Weir

Não li o famoso Marciano de Andy Weir. Nem vi o filme. Apesar da curiosidade inicial, a excessiva fama levou-me a afastar da história durante uns tempos para não ir com excessiva expectativa. Apesar de ser do mesmo autor, este Artemis ainda não tem um grande histórico de fama, pelo que me resolvi a experimentá-lo.

Fluído e divertido, centra-se na personagem ideal – Jazz, alguém de bons princípios que seguiu um percurso à margem da lei, desviada pelas circunstâncias da vida e as más companhias. Ainda assim não se safa mal e gere o contrabando da cidade lunar, Artemis, tendo como objectivo acumular uma soma que a deixará confortável.

O livro começa com uma cena movimentada em que Jazz tenta regressar à cidade com toda a rapidez, depois de ter um problema técnico com o seu fato. Conseguiu-se salvar mas chumba o exame que lhe permitiria servir de guia para turistas, uma ocupação que lhe concediria uma maior remuneração.

Frustrada, continua com a ocupação legal de transporte de mercadorias que lhe permitem camuflar o contrabando – e é nessa altura que lhe propõem um outro tipo de trabalho, algo mais arriscado mas também com uma margem de lucro muito superior. Algo que a irá colocar no caminho de mafiosos que, felizmente, não têm agentes suficientes em Artemis. Ainda.

Demasiado centrado numa única personagem, muito inteligente e de imenso potencial, Artemis é uma leitura movimentada e divertida que nos leva à primeira cidade fora da Terra, com todos os constrangimentos que esta existência terá na sua construção e nos seus habitantes. O espaço escasseia, o ar é controlado, os possíveis incêncios são a prioridade máxima da cidade e a comida é sobretudo uma tentativa de reconstrução terrestre ou uma gosma de mau sabor.

É neste contexto que Artemis explora, com competência, as características do espaço (falta de atmosfera, pouca gravidade ou recursos locais) para nos levar por uma história de acção onde existem vilões relativos e bonacheirões prejudiciais. Existe uma tentativa constante de nos fazer simpatizar com a personagem principal (Jazz, a rapariga inteligente que se deixou levar por maus caminhos) que comigo nem sempre resultou – mas nem precisou de resultar para se tornar uma leitura absorvente.

Artemis foi publicado pela Topseller.

Resumo de Leituras – Agosto de 2018 (4)

140 – O corpo dela e outras partes – Carmen Maria Machado – Uma série de contos de ficção especulativa, com elementos de ficção científica, fantasia e horror, que apresentam personagens com diferentes sexualidades e nas quais a sexualidade é parte da história, como algo natural. Estes contos podem servir de ponto de partida para discussões mais profundas sobre dinâmica de género ou de relação, ou podem ser simplesmente apreciados conforme se apresentam;

141 – Cicatriz – Sofia Neto – Enquadrado no género da ficção científica, apresenta um futuro em que a o sociedade é dividida. Alguns escolheram permanecer dentro das cidades, com acesso a todas as componentes tecnológicas, enquanto outros ficam nos campos. Duas realidades fechadas, alimentando rumores sobre a outra metade que é demonizada sobre os aspectos mais propícios. Uma leitura interessante e inesperada ainda que saiba a pouco a incursão neste mundo;

142 – Tatuagem – Hernán Migoya e Bartolomé Seguí – Adaptação de um romance policial, apresenta alguns clichés do género, fazendo piada sobre estes mesmos aspectos comuns a tantas outras obras de ficção policial. A personagem principal é um homem que não perde a oportunidade de se aproximar de mais uma donzela, aliás, algo que partilha com o homem de quem procura a identidade;

143 – O jogo – Carmo Cardoso e José Machado – Trata-se de um dos mais recentes contos de ficção científica publicados na colecção Barbante que nos apresenta a situação limite de uma vida dependente do resultado de um jogo.

O jogo – Carmo Cardoso & José Machado / O Farol Intergaláctico – João Pedro Oliveira

Eis os mais recentes contos publicados na colecção Barbante! Tratam-se de duas histórias de ficção científica, a primeira uma história com traços de horror, na perspectiva de um prisioneiro que joga sabendo que o preço a pagar pela derrota é a vida. Decorrendo no futuro, é um malicioso jogo gerido por alguém que detém todo o poder.

O segundo conto foi o que mais me cativou (tanto que falei dele na palestra sobre ficção científica portuguesa no Sci-fi LX). Nesta história um homem visita um amigo, mas tendo viajado pelas estrelas apenas umas semanas encontra-o velhote, pois, para ele, passaram décadas. O conto usa a relatividade do tempo. O tema não é novo mas é tratado de forma envolventee provoca uma certa nostalgia no leitor.

A colecção Barbante é publicada pela Imaginauta e lança pequenas histórias enquadradas nos géneros da ficção especulativa neste pequeno formato, permitindo a disponibilização bastante acessível (50 cêntimos) de boas histórias. A colecção encontra-se aberta a submissões e, claro, os autores publicados não têm de pagar nada pela publicação das suas histórias.

Resumo de Leituras – Julho de 2018(5)

124 – Amatka – Karin Tidbeck – É difícil encontrar uma temática minimamente original mas em Amatka encontramos alguns elementos interessantes e originais! Numa sociedade de regime autoritário, ligeiramente distópica, os objectos precisam de ser recordados constantemente para manter a sua forma, e quem não toma cuidado para que assim seja, é um traidor, dado que é esta constante manutenção da forma que se torna o centro da sociedade, a forma de manter uma ilusão contra a qual muitos se rebelam;

125 – 7 vidas – diário de vidas passadas – André Diniz e Antonio Eder – O autor apresenta a sua própria experiência com a regressão e a forma como esta o ajudou com episódios de aflição que sofria de vez em quando. Vida após vida, as regressões mostram-lhe o que foi anteriormente, e como as várias existências se interligam;

126 – Os fabulosos feitos de Fantomius – Vol.1 – Num formato maior do que é habitual, e com maior qualidade de impressão, a Goody lançou recentemente três novas séries Disney. Este primeiro de Fantomius centra-se numa personagem interessante, um ladrão inteligente que tece os mais complexos golpes, para dar aos pobres o que ricos convencidos amealham. Trata-se de um volume com extras (arte e entrevistas) que se afasta dos típicos volumes Disney;

127 – Free Lance – Diogo Carvalho e Nimesh Moraji – Com a disponibilização, na Convergência, de uma série de livros de edição de autor ou de pequenas editoras, adquiri este Free Lance, um pequeno volume com duas histórias de um cavalheiro oportunista onde são tornados cómicos alguns episódios típicos das histórias de cavalheiros.

O corpo dela e outras partes – Carmen Maria Machado

Nomeada para vários prémios, entre os quais um Nebula (e na semana passada, um World Fantasy Award), Carmen Maria Machado possui contos publicados em várias revistas de ficção especulativa e uma colectânea. E eis algo que nunca pensei ver publicado em Portugal – a colectânea, de nome O corpo dela e outras partes.

Trata-se de um conjunto de histórias com elementos de ficção especulativa (desde horror a ficção científica e fantástico), mas o que surpreende é a forma como entrelaça a sexualidade das suas personagens. Encontramos heterossexuais, homossexuais ou bissexuais em semelhante proporção, em contextos quase banais, sendo que o que distingue do banal se deve aos elementos fantásticos.

Se, na primeira história acompanhamos a dinâmica de poder num casal quase tradicional transformada em tema de horror, em várias das outras histórias as mulheres expressam a sua sexualidade com um desprendimento libertador, sem tabus ou preocupações de julgamento social, algo que me pareceu tão natural que só após a leitura me apercebi desta componente.

Tratam-se de histórias muito focadas no ponto de vista da personagem narradora, que, em quase todas é feminina, destacando-se a forma fluída como o faz. A sucessão de episódios assemelha-se ao fluxo de pensamentos (numa pessoa lúcida), com pequenos saltos narrativos e intercepção de outros episódios, mas nada que seja em excesso e que dificulte a leitura. Noutros contos a apresentação de cada parágrafo é antecida por uma palavra chave, elemento que marca a percepção do sentimento de cada parte.

Encontramos elementos de ficção especulativa para todos os gostos: desde apocalipses em que a espécie humana é dizimada por uma doença mortal de rápida e silenciosa propagação, a elementos fantásticos num conto de terror, a histórias de crime com componentes sobrenaturais que, em simultâneo, exploram relacionamentos, amores e desamores.

O Corpo dela e outras partes foi publicado em Portugal pela Alfaguara.

Resumo de leituras – Julho de 2018 (4)

120 – Love Star – Andri Snae Magnason – O que pretendia ser o paraíso tecnológico dos seres humanos, uma companhia fascinante e economicamente bem sucedida, facilmente se torna numa distopia controladora. Não que este controlo seja directo. Mas através da pressão social (sobre como encaixar melhor na sociedade e demonstrar ser bem sucedido) instigam-se as pessoas a consumir determinador produtos. Catastrófico e muito pouco amoroso, Love Star surpreendeu por ser tão corrosível;

121 – Afirma Pereira – Pierre-Henry Gomont – Não li o livro de Tabucchi. Infelizmente. Mas a adaptação permite absorver a história sem maiores introduções (apesar de deixar a curiosidade por ler o livro). A história passa-se durante o Estado Novo, em torno de um jornalista que se deixa corromper pelo ajudante revolucionário. Inicialmente preso nos seus hábitos, por desgosto e comodidade, o jornalista revolta-se e faz o pouco que pode pela revolução;

122 – Espero por ti na próxima tempestade – Robert Yves O género romance não é o meu tipo de leitura, mesmo quando possui alguns detalhes de surrealidade. Ainda assim, já conhecia o autor de outras andanças e gostei da história que teceu – uma história de encontros e desencontros, de simulações e dissimulações;

123 – One-punch man vol.3 – No terceiro volume este herói anti cliché regista-se oficialmente como herói. A componente interessante deste volume encontra-se na forma como contrasta com os restantes heróis, de posturas dramáticas e carregados de uma suposta importância, mas de capacidades que não se comparam às no One-Punch que dá cabo de qualquer monstro só com um murro.

Os mundos decadentes de Jeff Vandermeer

Jeff Vandermeer – foto retirada do site oficial http://www.jeffvandermeer.com/

Jeff Vandermeer é o autor da trilogia Área X, do qual o primeiro volume, Aniquilação, foi adaptado recentemente para filme. Vencedor de vários prémios (World Fantasy Award, BSFA, Locus, Nebula ou Shirley Jackson Award), Jeff Vandermeer é, para além de escritor, editor e organizador de várias antologias de ficção especulativa e bem como crítico, publicando regularmente as opiniões em diversos jornais e revistas.

Desde a maravilhosa cidade de Ambergris carregada de esporos à cidade sem nome de Borne, em que as ruínas se tornam nichos ecológicos para construções biotecnológicas, grande parte da ficção de Vandermeer decorre em cenários de corrupção crescente, seja por acção humana, seja por circunstâncias histórias e ecológicas anteriores aos acontecimentos que acompanhamos.

Se em Venice Underground nos é apresentado um local transformado pela biotecnologia em que se esmorece a fronteira entre animais e humanos, dando origem a novos seres mas, também, baixando o valor do humano, num desenvolvimento que se enquadra no género New Weird (para quem desconhece, foi um sub-género da ficção especulativa que, aqui há uns anos originou trabalhos como Perdido Street Station de China Miéville ou The Etched City de K. J. Bishop onde se sobrecarrega a realidade com elementos estranhos levados ao extremo e que, nalguns casos provocam hostilização e inquietação no leitor), em Borne, os elementos estranhos são enquadrados de forma a parecerem quase normais, levando o leitor a empatizar com as novas criaturas.

 

 

 

 

 

 

 

 

Assim, em Borne, temos uma criatura que, não sendo humana, quer ser uma pessoa, mas a sua natureza fagocítica impele-o a comportamentos inclusivos pouco sociáveis. Por sua vez, em The Strange Bird, segue-se um pássaro com resquícios de humano, que cruza elementos de vários animais e é um ser pensante. As suas características especiais levam-no a ser usado por vários seres humanos com objectivos distintos, objectivos dos quais se vinga sorrateiramente. Esta segunda história, mais pequena, fornece alguns detalhes que tinham sido omitidos (sem desproveito da narrativa) em Borne, dando novos sentidos irónicos a alguns acontecimentos.

Tal como seres refeitos de partes de outros, a imagem de Urso é comum. Em Borne um dos novos seres é um urso enorme, um constructo com proxies à sua imagem, que ameaça toda a realidade. Já em The Situation  a imagem do urso tinha sido marcante, desta vez uma representação metafórica de um trabalhador num ambiente profissional corrosivo. Trata-se de um conto carregado de elementos representativos onde se destaca o ambiente claustrofóbico provocado por um líder incompetente que desagrega a equipa. O resultado é a transformação das personagens consoante o estado psicológico.

Ainda não localizei o terceiro volume da trilogia depois das mudanças… Nem esse nem outros que tenho do autor…

A corrupção do mundo encontra-se, também, presente na trilogia Area X. O primeiro livro, Aniquilação, apresenta uma bolha na realidade descrita, uma descontinuação que é de difícil exploração pelo homem e onde decorrem uma série de fenómenos inexplicáveis – fenómenos que parecem iteracções fractais de vários elementos. A trilogia prossegue, num tom bastante diferente, conferindo perspectivas totalmente opostas da fornecida no primeiro volume. O ambiente é inóspito e propositadamente confuso para os seus visitantes (e, consequentemente, para os leitores) destacando-se alguns cenários não presentes directamente na adaptação cinematográfica como a torre invertida, inspirada na Quinta da Regaleira.

Desde City of Saints and Madmen (Ambergris) a Borne, Jeff Vandermeer leva o leitor a passear por realidades impossíveis – realidades que constrói povoando de detalhes estranhamente coerentes e personagens peculiares, duas componentes que possibilitam o envolvimento absoluto do leitor.

Mas o espírito criativo de Jeff Vandermeer não se fica pela escrita. Conjuntamente com a esposa, Ann Vandermeer, tem organizado várias antologias que ficam para a história da ficção científica. Recordo, por exemplo, o Almanaque do Dr. Thackery T. Lambshead de Doenças Excêntricas e Desacreditadas onde uma série de autores cria novas e fantásticas doenças. Trata-se de um manual totalmente ficcional, publicado em português com doenças inéditas por autores portugueses, e que já foi encontrado na secção de medicina da FNAC como se fosse um livro académico.

Recordo, também, os belíssimos manuais Steampunk, livros de mesa que reúnem as mais maravilhosas referências do género, ou, mais recentemente, The Big Book of Science Fiction que pretende conter histórias representativas de todos os géneros.

Alguns livros publicados pela Livros de Areia, entre eles, no topo, um pequeno livro com histórias de Ambergris, a cidade dos fungos!

Em Portugal ainda é um autor pouco publicado. Para além do almanaque de doenças ficcionais referido acima, mais recentemente foi lançada a trilogia da Área X (aproveitando a adaptação cinematográfica) e houve, há vários anos, uma pequena parte da história de Ambergris publicada pela Livros de Areia – A transformação de Martim Lake & Outras histórias – numa belíssima edição.

Outros artigos sobre livros de Jeff Vandermeer

Eventos: Sci-fi LX 2018

Cartaz da autoria de Edgar Ascenção

A menos de uma semana do evento (gratuito) vou começar a divulgar algumas componentes já anunciadas para o próximo fim de semana no Instituto Superior Técnico!

Isaque Sanches vem falar da relação entre a construção de narrativas e os videojogos

António de Sousa Dias apresenta uma homenagem a um dos mais prolíficos cineastas e escritores do Fantástico português. Conheçam a obra e o percurso de António de Macedo (1931-2017).

Entre os workshops disponibilizados este ano (em que se podem inscrever aqui) encontra-se um de Impressão 3D (dado por Artur Coelho) de Crochet, Amigurimi, pintura de miniaturas, desenho manga, criação de marcadores, como escrever um conto apocalíptico (por Pedro Cipriano) e de escrita criativa em Como Matar Personagens (de Bruno Martins Soares e Pedro Cipriano).

Resumo de Leituras – Junho de 2018 (2)

104 – Terra 2.7 – MAF – Ainda que o tema seja interessante (os seres humanos tentam colonizar um novo planeta mas são travados nas suas ambições de conquista), os desenhos são demasiado estáticos e os diálogos estereotipados não soam naturais, pelo que o conjunto não me cativou.

105 – Prazeres estivais – Vilhena – Um livro ao estilo de Vilhena, onde o autor expõe as canalhices dos humanos;

106 – The Tangled Lands – Paolo Bacigalupi e Tobias S. Buckell – O livro é composto por quatro histórias no mesmo Universo, sendo que duas tinha já lido porque tinham sido publicadas em volumes independentes. Neste mundo a magia tem um preço – alimenta uma erva daninha cujo contacto com os seres humanos é perigoso. Cidade após cidade os humanos ficam sem espaço e refugiam-se nos poucos locais a salvo. Neste mundo não há heróis absolutos nem vitórias extremas – tratam-se de histórias bem equilibradas;

107 – Os Guardiões do Louvre – Taniguchi – A colecção novela gráfica deste ano abriu com um livro de Taniguchi, a cores, onde o autor explora o Louvre enquanto espaço e enquanto museu, falando sobre artistas e sobre a forma como as obras sobreviveram às invasões nazis. Visualmente excelente.

The Gods Themselves – Isaac Asimov

A grande novidade em The Gods Themselves é conseguir apresentar personagens alienígenas, provenientes de outro Universo, com preocupações, raciocínios e perspectivas muito próprias mas, ainda assim, fazer-nos sentir mais empatia e reconhecimento por estas personagens do que por algumas das personagens humanos que acompanhamos.

O livro decorre em três componente diferentes, partindo da perspectiva humana e passando à de outro Universo, para retornar aos humanos numa última componente. O livro começa quando um cientista se questiona sobre a presença de Tungsténio na sua secretária. O incidente não é de todo inocente e com este tungsténio obtêm-se instruções para a construção de uma máquina que irá fornecer energia ilimitada ao ser capaz de agir como condutor entre os dois Universos.

O ter-se questionado foi o que provocou a descoberta das instruções para a máquina, mas o cientista,  mediano, não se fica por receber estes louros e tenta captar para si a capacidade de inventar a máquina, obscurendo as circunstâncias que levaram à sua construção. A partir daqui usa o poder obtido para evitar questões e estragar a carreira de todos aqueles que ousam esclarecer a origem da máquina, ou, até, duvidar da sua estabilidade e segurança.

Pois é. É que um cientista do seu instituito percebeu que a conclusão de que, dada a troca de massa e energia, o sol só explodiria daí a largos milhares de anos, poderia ter partido de premissas erradas. E corrigindo as premissas todo o sistema solar estará em perigo eminente. Embatendo frontalmente com o seu chefe percebe que os egos e o conforto da energia a custo 0 são mais importantes do que a segurança de todo planeta, e assim acaba na lista negra e impedido de publicar em ciência.

No outro Universo temos uma diferente realidade. A história começa por nos apresentar um trio de seres que constituirá uma unidade familiar capaz de produzir novos bebés. O trio é composto por três seres de diferentes capacidades: Dua, central e emocional, Odeen, esquerda e científica, Tritt, direita e parental. Os elementos dos trios são denomiados por Os Moles em contraste com os Duros, uma outra espécie que habita o mesmo mundo, mais muduros e intelectualmente mais desenvolvidos.

Dua é uma central estranha – ao contrário dos outros elementos do seu género não tem prazer na conversa oca e nas longas horas ao sol em grupo. Ao invés disso questiona-se como se fosse um intelectual. É, também, uma central excessissivamente etérea, o que contrabalança em termos sociais a sua inesperada racionalidade. É pelas suas características especiais que estabelece um relacionamento mais forte com Odeen, que tem um intelecto desenvolvido até para os do seu género.

Odeen vai ensinando Dua o suficiente para ela perceber a construção da nova bomba de energia e das implicações que poderá ter para o mundo (a Terra) que se encontra no outro lado. A partir daí aproveita-se da capacidade de se evaporar para fazer passar mensagens de perigo para o outro mundo.

A terceira parte decorre na Lua mostrando as diferenças entre os seres humanos que cresceram nos dois planetas. As diferenças de gravidade comprometem a fisionomia e seres humanos que tenham nascido na Lua nunca poderão pisar o solo terrestre. Já o contrário é possível e é assim que um cientista terrestre, ostracizado por questionar a nova fonte de energia, encontra, na Lua, uma comunidade pronta a recebê-lo e e deixar trabalhar.

Para além de tentar provar as teorias sobre a nova fonte de energia, este cientista encontra uma Intuitiva, uma mulher geneticamente modificada com fortes capacidades de intuição que consegue encaminhá-lo no sentido de uma grande descoberta científica.

Com esta disposição, Isaac Asimov consegue explorar e apresentar problemas diferentes. Na componente humana assistimos ao problema dos egos nas carreiras científicas, problema que impede muitas vezes grandes progressos por mentes medianas incapazes de progredir e de cooperar, captando para si o trabalho dos outros. Para além disso percebemos que, face a grandes benefícios e conforto, a maioria dos seres humanos prefere ignorar as consequências.

Na componente central encontramos os alienígenas que, com as suas características próprias conseguem captar a nossa empatia e atenção, apresentando problemas de género que aqui se encontram no contexto diferente. A diferença pode trazer algo positivo e neste caso mostra-se como pode conferir capacidade evolutiva à espécie.

Na última componente, de volta aos seres humanos, voltamos a encontrar problemas títpicos das civilizações humanas, com descriminação entre pessoas de origem diferente ou a necessidade de singrar por meios ilícitos. Por outro lado quem detém poder nem sempre tem os interesses do conjunto em mente, dando mais importância às suas motivações do que ao destino dos restantes.

Low – Vol.4 – Remender, Tocchini e McCaig

Low continua a ser uma das minhas séries favoritas do ponto de vista visual, mas pela perspectiva narrativa tem perdido algum interesse. Comecei esta série na mesma altura que Descender, e se a última tem crescido (apesar de alguns momentos mais parados), Low parte de uma premissa interessante para não ter, até agora, grandes pontos de inovação.

Alternando entre as várias cidades submersas e concedendo a cada uma, um visual diferente que torna o volume fascinante, Low apresenta um mundo em apocalipse onde o fim da humanidade parece tão próximo que acaba com o positivismo de qualquer pessoa  e mesmo quando surgem notícias de um outro mundo passível de colonização parece preferível ceder à tragicidade do fim.

Neste volume exploram-se rivalidades numa sucessão de episódios de acção, sem o tom introspectivo ou filosófico dos volumes anteriores. Algumas das personagens principais não sobreviveram até aqui, resultando na tensão acumulada que justifica o ritmo frenético e explosivo.

Centrando-se no que de pior a espécie humana tem para oferecer, este quarto volume afasta-se bastante do espírito que encontrei nas primeiras páginas, onde me sentia irritada pelo excessivo optimismo de uma das personagens – optimismo que impeliu uma série de eventos carregados de esperança que tem sido esmagada a cada volume.

Oscilante em tom e equilíbrio, até ao momento é uma série estranha e inconstante, que vai deixando linhas narrativas em aberto que espero que sejam recuperadas nos próximos volume. Reitero que um dos aspectos positivos é o visual que cruza cenários conhecidos (o fundo do mar) com tecnologia futurista criando uma série de imagens improváveis mas fascinantes.

À espera de … (lançamentos internacionais)

É nesta altura do ano que se começo a antecipar alguns lançamentos, imaginando estes novos livros na minha biblioteca.

Vencedora de dois prémios BSFA no mesmo ano para categorias diferentes, Aliette de Bodard tem lançado várias histórias de ficção científica e fantasia com elementos culturais diferentes do usual. De origem vietnamita e francesa, a autora fala diversas vezes sobre os elementos que encontra noutras fantasias em que se assume que os hábitos ocidentais são gerais ao restante planeta Terra (como o comer pão ao pequeno almoço) e em formas de evitar tal generalização ou de tornar os hábitos descritos lógicos ao habitat em que ocorrem. Depois do sucesso que tem feito com a trilogia iniciada com The House of Shattered Wings, a autora lança agora uma  ficção científica que parece ter detalhes orientais:

Welcome to the Scattered Pearls Belt, a collection of ring habitats and orbitals ruled by exiled human scholars and powerful families, and held together by living mindships who carry people and freight between the stars. In this fluid society, human and mindship avatars mingle in corridors and in function rooms, and physical and virtual realities overlap, the appareance of environments easily modified and adapted to interlocutors or current mood.

A transport ship discharged from military service after a traumatic injury, The Shadow’s Child now ekes out a precarious living as a brewer of mind-altering drugs for the comfort of space-travellers. Meanwhile, abrasive and eccentric scholar Long Chau wants to find a corpse for a scientific study. When Long Chau walks into her office, The Shadow’s Child expects an unpleasant but easy assignment. When the corpse turns out to have been murdered, Long Chau feels compelled to investigate, dragging The Shadow’s Child with her.

As they dig deep into the victim’s past, The Shadow’s Child realises that the investigation points to Long Chau’s own murky past… and, ultimately, to the dark and unbearable void that lies between the stars…

Catherynne M. Valente já venceu diversos prémios no área do fantástico, tendo sido publicada em Portugal uma das suas obras premiadas (A menina que circum-navegou o reino encantado num barco que ela mesma fez – infelizmente com falhas de tradução e de revisão que tornam o livro pouco legível nalgumas partes). Inicialmente conhecida pela série The Orphan’s Tales, a autora tem-se distinguido com várias outras obras e uma extensa publicação de contos. Aqui dá todo um novo sentido ao termo Space Opera:

IN SPACE EVERYONE CAN HEAR YOU SING

A century ago, the Sentience Wars tore the galaxy apart and nearly ended the entire concept of intelligent space-faring life. In the aftermath, a curious tradition was invented-something to cheer up everyone who was left and bring the shattered worlds together in the spirit of peace, unity, and understanding.

Once every cycle, the civilizations gather for Galactivision – part gladiatorial contest, part beauty pageant, part concert extravaganza, and part continuation of the wars of the past. Instead of competing in orbital combat, the powerful species that survived face off in a competition of song, dance, or whatever can be physically performed in an intergalactic talent show. The stakes are high for this new game, and everyone is forced to compete.

This year, though, humankind has discovered the enormous universe. And while they expected to discover a grand drama of diplomacy, gunships, wormholes, and stoic councils of aliens, they have instead found glitter, lipstick and electric guitars. Mankind will not get to fight for its destiny – they must sing.

A one-hit-wonder band of human musicians, dancers and roadies from London – Decibel Jones and the Absolute Zeroes – have been chosen to represent Earth on the greatest stage in the galaxy. And the fate of their species lies in their ability to rock.

Paolo Bacigalupi é o autor de uma das minhas obras de ficção científica favoritas, The Windup Girl. Conhecido por publicar obras em que se expressa a preocupação ecológica, apresentou neste volume um futuro pós-apocalíptico em que a subida das águas provoca uma crise energética e de alimentação, com a extinção da grande maioria das espécies vegetais comestíveis. No seu novo livro estabelece uma parceria com Tobias S. Buckell para escrever um livro de fantasia:

From award-winning and New York Times bestselling authors Paolo Bacigalupi and Tobias Buckell comes a fantasy novel told in four parts about a land crippled by the use of magic, and a tyrant who is trying to rebuild an empire – unless the people find a way to resist.

Khaim, The Blue City, is the last remaining city in a crumbled empire that overly relied upon magic until it became toxic. It is run by a tyrant known as The Jolly Mayor and his devious right hand, the last archmage in the world. Together they try to collect all the magic for themselves so they can control the citizens of the city. But when their decadence reaches new heights and begins to destroy the environment, the people stage an uprising to stop them.

In four interrelated parts, The Tangled Lands is an evocative and epic story of resistance and heroic sacrifice in the twisted remains surrounding the last great city of Khaim. Paolo Bacigalupi and Tobias Buckell have created a fantasy for our times about a decadent and rotting empire facing environmental collapse from within – and yet hope emerges from unlikely places with women warriors and alchemical solutions.

Um momento na história acompanhado por um alienígena que deveria manter-se como mero observador da tragédia. Mas o saber do desenrolar não será capaz. Trata-se do primeiro livro de um novo autor publicado na Angry Robots, uma das principais editoras anglo-saxónicas do género.

In medieval Italy, Niccolucio, a young Florentine Carthusian monk, leads a devout life until the Black Death kills all of his brothers, leaving him alone and filled with doubt. Habidah, an anthropologist from an alien world racked by plague, is overwhelmed by the suffering. Unable to maintain her neutrality, she saves Niccolucio from the brink of death. Habidah discovers that neither her home’s plague nor her assignment on Niccolucio’s ravaged planet are as she’s been led to believe. Suddenly the pair are drawn into a worlds-spanning conspiracy to topple an empire larger than the human imagination can contain.

 

Depois de A Súbita Aparição de Hope Arden, a autora já publicou um romance que me parece bastante diferente (mas apetecível) The End of the day onde explora a figura da morte. 84K será o título que tem planeado para 2018, centrado num auditor criminal, responsável por garantir que os culpados por um crime pagam a dívida na totalidade à sociedade.

Theo Miller knows the value of human life – to the very last penny.
Working in the Criminal Audit Office, he assesses each crime that crosses his desk and makes sure the correct debt to society is paid in full.
But when his ex-lover is killed, it’s different. This is one death he can’t let become merely an entry on a balance sheet.
Because when the richest in the world are getting away with murder, sometimes the numbers just don’t add up.

 

Cory Doctorow tem escrito vários livros distópicos envolvendo a tecnologia actual e a excessiva vigilância do estado. Um dos seus livros mais conhecidos é Little Brother (publicado por cá com o mesmo título pela Editorial Presença) onde se faz uma analogia a 1984, mas nos tempos modernos e contendo como jovens as principais personagens. Por sua vez, Charles Stross é conhecido por livros de ficção científica pura e dura, com uma grande pitada de humor (como The Atrocity Archives). Este humor não é característico apenas dos livros, verificando-se, também, nas apresentações que tive oportunidade de assistir do autor. Juntos, criam este livro que, pelo título e pela premissa, parece, no mínimo engraçado:

Welcome to the fractured future, at the dusk of the twenty-first century.

Earth has a population of roughly a billion hominids. For the most part, they are happy with their lot, living in a preserve at the bottom of a gravity well. Those who are unhappy have emigrated, joining one or another of the swarming densethinker clades that fog the inner solar system with a dust of molecular machinery so thick that it obscures the sun.

The splintery metaconsciousness of the solar-system has largely sworn off its pre-post-human cousins dirtside, but its minds sometimes wander… and when that happens, it casually spams Earth’s networks with plans for cataclysmically disruptive technologies that emulsify whole industries, cultures, and spiritual systems. A sane species would ignore these get-evolved-quick schemes, but there’s always someone who’ll take a bite from the forbidden apple.

So until the overminds bore of stirring Earth’s anthill, there’s Tech Jury Service: random humans, selected arbitrarily, charged with assessing dozens of new inventions and ruling on whether to let them loose. Young Huw, a technophobic, misanthropic Welshman, has been selected for the latest jury, a task he does his best to perform despite an itchy technovirus, the apathy of the proletariat, and a couple of truly awful moments on bathroom floors.