In Vino Veritas – João Ventura – Winepunk

Pegando na frase em Latim, João Ventura dá-lhe um novo significado integrando um novo tipo de vinhas combatentes que são capazes de ter uma acção determinante contra forças inimigas.  O conto ganha especial interessante por usar figuras históricas da época, integrando-as de forma coerente.

A premissa do conto é simples e João Ventura trabalha-a de forma consistente e elegante, transformando-se numa história imaginativa, interessante e de bom ritmo. A história mostra o novo tipo de vinhas combatantes, mas consegue focar-se em várias localizações para dar uma visão maior dos conflitos entre o Norte e o Sul do país.

Outros contos da antologia Winepunk

Laura and the Shadow King – Bruno Martins Soares

 

Bruno Martins Soares é mais conhecido, entre os leitores portugueses, por Alex 9 (publicado inicialmente como trilogia e depois em volume único pela Saída de Emergência) ou por A Batalha da Escuridão (publicado mais recentemente em português pela Editorial Divergência). Mas, para além destes livros, Bruno tem escrito e publicado sobretudo em inglês, pela Amazon, procurando o público internacional, entre o qual poderá ter um maior número de leitores.

Entre os livros publicados na Amazon encontramos Laura and the Shadow King, uma história apocalíptica que refere um género de apocalipse zombie passado em terras da Península Ibérica onde não falta acção e guerra – algo que é pouco usual encontrar em autores portugueses. E esta é uma das principais características da escrita de Bruno Martins Soares, talvez por influência de outra das actividades do autor – escritor de roteiros de cinema.

Quem me segue sabe que dou primazia à narrativa num livro: ao (bom) desenvolvimento de personagens acima de pensamentos filosóficos, à sucessão de episódios lógicos acima de jogos de palavras com significado dúbio. Laura and the Shadow King apresenta estas características, preferindo dar força à velocidade da acção, ainda que dê mais importância à sucessão de episódios do que ao foco nas personagens.

A acção intercala várias personagens que se encontram em diferentes locais.  Se por um lado se foca nos operacionais militares que tentam manter algum controle sobre o território lusitano (ainda que existam grupos civis que mantenham o controle local) e que se debatem com o aparecimento de seres humanos suicidas (para além dos usuais humanos doentes e contagiosos); por outro, apresenta uma dupla mãe-filha que tenta escapar das garras de uma facção russa em território espanhol – uma dupla que tem um papel fulcral no crescimento da facção.

Entre descrições de operações no terreno e pequenas batalhas militares, encontramos a dupla em fuga por territórios perigosos e inóspitos. Mas ambas possuem um dom que as irá manter a salvo mais do que uma vez – um dom que pode ser determinante para o futuro da humanidade.

Utilizando a experiência noutras áreas, Bruno Martins Soares consegue dar ao enredo o devido tom de urgência. Existem vários episódios que conseguem transmitir a tensão de estar no terreno – mesmo quando não existe confronto o ambiente é de alerta e qualquer movimento suspeito poderá iniciar uma rápida troca de agressões. Com várias referências às munições utilizadas (que darão outro gosto a quem as reconhece) a história tem um grande foco militar numa situação de apocalipse, mantendo um ritmo elevado.

Mas não pensem que a história é só militar. Apesar de todos os detalhes nessa componente, a história centra-se muito na relação entre a mãe e a filha, uma relação de amor e dependência em torno da qual toda a história irá se centrar. Se, por um lado, a mãe quer fugir da facção russa a todo o custo, a filha pensa apenas na presença da mãe e em como responder adequadamente às expectativas nela depositadas.

Laura and the Shadow King tem algumas arestas por limar – sobretudo na caracterização de personagens e na forma rápida como as introduz, não dando grande espaço para o leitor respirar. Mas, tratam-se de arestas. São poucos os autores portugueses capazes de conduzir uma história com esta velocidade e Bruno Martins Soares consegue fazê-lo. Ainda que esta história possa ser lida isoladamente, existirão mais livros no mesmo Universo.

Senlin Ascends – The books of Babel Vol.1 – Josiah Bancroft

Em Senlin Ascends inicia-se uma tetralogia fantástica, com traços de ficção científica, que se centra numa construção que marca este mundo imaginário – a Torre de Babel. Construção gigantesca que comporta reinos infindáveis e quase impossível de mapear, a Torre de Babel inspira a economia dos que a rodeiam, bem como os sonhos de grandiosidade da humanidade.

Senlin é um dos homens que sonha com a Torre de Babel e que resolve visitar a Torre.Professor austero, aproveita a Lua de Mel e leva a esposa, alguns pertences e uma enorme expectativa em conhecer o exponente máximo da tecnologia e da cultura, pensando que, sob a sua sombra, se encontra o pico da civilização e da educação.

Não demora muito até se aperceber que a Torre é bastante diferente do que tinha pensado: rapidamente perde a mulher no enorme mercado, é enganado e roubado. Depois de alguns dias em busca da esposa, resolve procurá-la dentro da Torre mas a situação não mostra sinais de melhorar: os primeiros passos fazem-se por uma passagem pouco glamorosa e claustrofóbica que o levam a ser novamente enganado e roubado.

A partir daqui Senlin explora os níveis seguintes, sendo que a passagem para o seguinte é uma aventura de elementos aparentemente idiotas. No primeiro cada novo visitante é integrado num palco sem público onde deve realizar determinado papel mesmo que coloque em risco a sua própria vida. Quem não cumprir com as regras é marcado e expulso, existindo diferentes castigos consoante o número de expulsões.

Já no segundo nível, a boa vida de uma cidade com dezenas de hóteis e bares pode levar à ruína financeira de qualquer um e, consequentemente, à sua condenação a trabalhos forçados. Esta cidade é controlada por um déspota sanguinário, cujo poder se estende a vários níveis. No terceiro Senlin encontra uma cidade portuária na qual é forçado a ter um papel de grande responsabilidade mas, sendo um fugitivo procurado da cidade anterior, não terá descanso.

Senlin ascends centra-se demasiado numa única personagem – uma personagem que, nas primeiras aventuras continua a ser um homem ingénuo, incapaz de percepcionar a dureza da vida da torre e que, por isso, não se adapta. Será necessário assistir a injustiças provenientes de fontes supostamente oficiais para perceber que, na Torre, não são os honestos que vencem na vida. Será necessário ter notícias da actual situação da esposa para se revoltar, tomar novo fôlego e aprender a manobrar os que o rodeiam, sem largar os seus limites morais.

Este demasiado centralismo numa única personagem que, no início, é fraca e pouco interessante, torna os primeiros momentos do livro pouco envolventes. Com o prosseguir das páginas a personagem ganha calo face às inusitadas e violentas situações que o atingem e consegue estabelecer algumas alianças interessantes que melhoram a dimensão das personagens na história. Outro defeito na caracterização é a forte perspectiva inicial das mulheres como indefesas e necessitadas de protecção masculina – perspectiva que evolui nas páginas finais do livro, pelo menos para algumas personagens femininas.

Desconsiderando a lenta entrada na narrativa, Senlin Ascends revelou-se uma boa leitura com elementos curiosos em cada um dos níveis apresentados – elementos que fazem parte de um puzzle maior, de uma engranagem de difícil percepção que lentamente se revela. Ainda que a narrativa pareça de fantasia, as várias engrenagens que vão sendo expostas fazem resvalar Senlin Ascends para um Steampunk soft, que terá de ser confirmado nos volumes seguintes. Decerto irei ler os próximos volumes num futuro próximo!

Seis drones – Novas histórias do ano 2045 – António Ladeira

Infelizmente não compareci ao lançamento na livraria Barata, nem falei com ninguém que tivesse comparecido, mas parece-me que o autor sabe bem que pode ser enquadrado no género de ficção científica e não o esconde. Refere-se ao género na sinopse, e nas referências literárias que apresenta, com Orwell, Bradbury ou Philip K. Dick.

Também não li o outro volume do mesmo autor, Os Monociclistas e outras histórias do ano 2045 (mas já o acrescentei à lista de encomendas), mas o livro pode ser lido isoladamente sem interferir na interpretação do leitor. O que encontramos são seis contos que parodiam a tecnologia e a obsessão por segurança, dois elementos que, em conjunto, possibilitam a criação de sociedades altamente seguras (ou inseguras), controladas e claustrofóbicas.

No primeiro conto, que empresta o título ao livro, Seis Drones, encontramos um homem que se vê sem drones a meio de um percurso pedonal. Nada que nos pareça muito grave excepto quando a personagem tenta perspectivar como chegar a casa sem os drones – é que sem eles facilmente é alvo de publicidade ou de controlo estatal, podendo, até levar com um míssil. A sua salvação advém de uma jovem que aceita em acompanhá-lo, coisa rara naqueles dias.

Em O Objecto os livros, como os conhecemos, desapareceram. Temos conhecimento desta realidade através de um idoso editor. Qualquer história clássica foi adaptada, não só pela difícil linguagem antiga, mas pelas referências que se tornaram irreconhecíveis. Moby Dick, por exemplo, reconhece estar errado na sua caça pela baleia, e termina os seus dias defendendo os cetáceos. As adaptações estão a cargo de uma série de trabalhadores do estado e ai de quem tente saber a versão original da história – é extremamente proibido.

Não são só os livros que se transformaram. Também o automóvel, sendo que já não é suposto saber conduzir um carro, mas sim informar a rede do destino e deixar-mo-nos conduzir. Se o nosso percurso for autorizado. Há que dar espaço aos que trabalham, sendo que quem deseja apenas passear será considerado menos prioritário. Que dizer então de quem está reformado? Usar o automóvel para passear? Em rota livre? Que ideia tão absurda.

Em A Agência o protocolo para viajar torna-se tão complexo que surgem cidades inteiras para possibilitar que o indivíduo viaje. As ameaças terroristas servem como justificação para ir aumentando o protocolo até que se termina com a criação de uma força muito especial.

Quando tudo em nosso redor responde à tecnologia, desde a abertura da porta de casa, à roupa, torna-se possível uma verdadeira guerra tecnológica – guerra esta que leva a que alguns seres humanos escapem das cidades e permaneçam em cavernas, caçando.

No último conto, A Falésia, um casal afasta-se das suas ocupações profissionais para se dedicar a perceber o mistério por detrás da janela nublada – uma janela que aparenta algum defeito que não conseguem depreender inicialmente, mas que mais tarde percebem dever-se a uma nebulosidade localizada.

Sem se afastar muito da época em que vivemos e usando possíveis desenvolvimentos tecnológicos (ou utilizações para tecnologia já existente) António Ladeira constrói uma série de pequenas distopias que castram as liberdades individuais para o bem de toda a comunidade, tendo como mote fazer com que os indivíduos não se apercebam do que estão a perder. Ou arranjando forma para que escolham, eles próprios, essa castração.

O  resultado é uma série de bons contos com pontinhas de ironia relativamente à tecnologia e à forma como a dependência total pode dar mal resultado. Mesmo que a maioria dos indivíduos que se encontrem nesta sociedade não se apercebam.

Não falta algum nonsense nem a criação de realidades imaginadas (levando-se à questão dickiana de, até que ponto é real o que nos rodeia), nem a alusão ao Fahrenheit 451 (ainda que menos quente) ou a Orwell (pelo controlo extremo das populações fazendo-as crer na preocupação pelo seu bem-estar).O resultado é de leitura leve e agradável, carecendo de sentido crítico e irónico do leitor para a sua compreensão.

Seis Drones – novas histórias do ano 2045 foi publicado pela editora Onyva.

Resumo de Leituras – Julho de 2018(5)

124 – Amatka – Karin Tidbeck – É difícil encontrar uma temática minimamente original mas em Amatka encontramos alguns elementos interessantes e originais! Numa sociedade de regime autoritário, ligeiramente distópica, os objectos precisam de ser recordados constantemente para manter a sua forma, e quem não toma cuidado para que assim seja, é um traidor, dado que é esta constante manutenção da forma que se torna o centro da sociedade, a forma de manter uma ilusão contra a qual muitos se rebelam;

125 – 7 vidas – diário de vidas passadas – André Diniz e Antonio Eder – O autor apresenta a sua própria experiência com a regressão e a forma como esta o ajudou com episódios de aflição que sofria de vez em quando. Vida após vida, as regressões mostram-lhe o que foi anteriormente, e como as várias existências se interligam;

126 – Os fabulosos feitos de Fantomius – Vol.1 – Num formato maior do que é habitual, e com maior qualidade de impressão, a Goody lançou recentemente três novas séries Disney. Este primeiro de Fantomius centra-se numa personagem interessante, um ladrão inteligente que tece os mais complexos golpes, para dar aos pobres o que ricos convencidos amealham. Trata-se de um volume com extras (arte e entrevistas) que se afasta dos típicos volumes Disney;

127 – Free Lance – Diogo Carvalho e Nimesh Moraji – Com a disponibilização, na Convergência, de uma série de livros de edição de autor ou de pequenas editoras, adquiri este Free Lance, um pequeno volume com duas histórias de um cavalheiro oportunista onde são tornados cómicos alguns episódios típicos das histórias de cavalheiros.

O corpo dela e outras partes – Carmen Maria Machado

Nomeada para vários prémios, entre os quais um Nebula (e na semana passada, um World Fantasy Award), Carmen Maria Machado possui contos publicados em várias revistas de ficção especulativa e uma colectânea. E eis algo que nunca pensei ver publicado em Portugal – a colectânea, de nome O corpo dela e outras partes.

Trata-se de um conjunto de histórias com elementos de ficção especulativa (desde horror a ficção científica e fantástico), mas o que surpreende é a forma como entrelaça a sexualidade das suas personagens. Encontramos heterossexuais, homossexuais ou bissexuais em semelhante proporção, em contextos quase banais, sendo que o que distingue do banal se deve aos elementos fantásticos.

Se, na primeira história acompanhamos a dinâmica de poder num casal quase tradicional transformada em tema de horror, em várias das outras histórias as mulheres expressam a sua sexualidade com um desprendimento libertador, sem tabus ou preocupações de julgamento social, algo que me pareceu tão natural que só após a leitura me apercebi desta componente.

Tratam-se de histórias muito focadas no ponto de vista da personagem narradora, que, em quase todas é feminina, destacando-se a forma fluída como o faz. A sucessão de episódios assemelha-se ao fluxo de pensamentos (numa pessoa lúcida), com pequenos saltos narrativos e intercepção de outros episódios, mas nada que seja em excesso e que dificulte a leitura. Noutros contos a apresentação de cada parágrafo é antecida por uma palavra chave, elemento que marca a percepção do sentimento de cada parte.

Encontramos elementos de ficção especulativa para todos os gostos: desde apocalipses em que a espécie humana é dizimada por uma doença mortal de rápida e silenciosa propagação, a elementos fantásticos num conto de terror, a histórias de crime com componentes sobrenaturais que, em simultâneo, exploram relacionamentos, amores e desamores.

O Corpo dela e outras partes foi publicado em Portugal pela Alfaguara.

Resumo de leituras – Julho de 2018 (4)

120 – Love Star – Andri Snae Magnason – O que pretendia ser o paraíso tecnológico dos seres humanos, uma companhia fascinante e economicamente bem sucedida, facilmente se torna numa distopia controladora. Não que este controlo seja directo. Mas através da pressão social (sobre como encaixar melhor na sociedade e demonstrar ser bem sucedido) instigam-se as pessoas a consumir determinador produtos. Catastrófico e muito pouco amoroso, Love Star surpreendeu por ser tão corrosível;

121 – Afirma Pereira – Pierre-Henry Gomont – Não li o livro de Tabucchi. Infelizmente. Mas a adaptação permite absorver a história sem maiores introduções (apesar de deixar a curiosidade por ler o livro). A história passa-se durante o Estado Novo, em torno de um jornalista que se deixa corromper pelo ajudante revolucionário. Inicialmente preso nos seus hábitos, por desgosto e comodidade, o jornalista revolta-se e faz o pouco que pode pela revolução;

122 – Espero por ti na próxima tempestade – Robert Yves O género romance não é o meu tipo de leitura, mesmo quando possui alguns detalhes de surrealidade. Ainda assim, já conhecia o autor de outras andanças e gostei da história que teceu – uma história de encontros e desencontros, de simulações e dissimulações;

123 – One-punch man vol.3 – No terceiro volume este herói anti cliché regista-se oficialmente como herói. A componente interessante deste volume encontra-se na forma como contrasta com os restantes heróis, de posturas dramáticas e carregados de uma suposta importância, mas de capacidades que não se comparam às no One-Punch que dá cabo de qualquer monstro só com um murro.

The Gods Themselves – Isaac Asimov

A grande novidade em The Gods Themselves é conseguir apresentar personagens alienígenas, provenientes de outro Universo, com preocupações, raciocínios e perspectivas muito próprias mas, ainda assim, fazer-nos sentir mais empatia e reconhecimento por estas personagens do que por algumas das personagens humanos que acompanhamos.

O livro decorre em três componente diferentes, partindo da perspectiva humana e passando à de outro Universo, para retornar aos humanos numa última componente. O livro começa quando um cientista se questiona sobre a presença de Tungsténio na sua secretária. O incidente não é de todo inocente e com este tungsténio obtêm-se instruções para a construção de uma máquina que irá fornecer energia ilimitada ao ser capaz de agir como condutor entre os dois Universos.

O ter-se questionado foi o que provocou a descoberta das instruções para a máquina, mas o cientista,  mediano, não se fica por receber estes louros e tenta captar para si a capacidade de inventar a máquina, obscurendo as circunstâncias que levaram à sua construção. A partir daqui usa o poder obtido para evitar questões e estragar a carreira de todos aqueles que ousam esclarecer a origem da máquina, ou, até, duvidar da sua estabilidade e segurança.

Pois é. É que um cientista do seu instituito percebeu que a conclusão de que, dada a troca de massa e energia, o sol só explodiria daí a largos milhares de anos, poderia ter partido de premissas erradas. E corrigindo as premissas todo o sistema solar estará em perigo eminente. Embatendo frontalmente com o seu chefe percebe que os egos e o conforto da energia a custo 0 são mais importantes do que a segurança de todo planeta, e assim acaba na lista negra e impedido de publicar em ciência.

No outro Universo temos uma diferente realidade. A história começa por nos apresentar um trio de seres que constituirá uma unidade familiar capaz de produzir novos bebés. O trio é composto por três seres de diferentes capacidades: Dua, central e emocional, Odeen, esquerda e científica, Tritt, direita e parental. Os elementos dos trios são denomiados por Os Moles em contraste com os Duros, uma outra espécie que habita o mesmo mundo, mais muduros e intelectualmente mais desenvolvidos.

Dua é uma central estranha – ao contrário dos outros elementos do seu género não tem prazer na conversa oca e nas longas horas ao sol em grupo. Ao invés disso questiona-se como se fosse um intelectual. É, também, uma central excessissivamente etérea, o que contrabalança em termos sociais a sua inesperada racionalidade. É pelas suas características especiais que estabelece um relacionamento mais forte com Odeen, que tem um intelecto desenvolvido até para os do seu género.

Odeen vai ensinando Dua o suficiente para ela perceber a construção da nova bomba de energia e das implicações que poderá ter para o mundo (a Terra) que se encontra no outro lado. A partir daí aproveita-se da capacidade de se evaporar para fazer passar mensagens de perigo para o outro mundo.

A terceira parte decorre na Lua mostrando as diferenças entre os seres humanos que cresceram nos dois planetas. As diferenças de gravidade comprometem a fisionomia e seres humanos que tenham nascido na Lua nunca poderão pisar o solo terrestre. Já o contrário é possível e é assim que um cientista terrestre, ostracizado por questionar a nova fonte de energia, encontra, na Lua, uma comunidade pronta a recebê-lo e e deixar trabalhar.

Para além de tentar provar as teorias sobre a nova fonte de energia, este cientista encontra uma Intuitiva, uma mulher geneticamente modificada com fortes capacidades de intuição que consegue encaminhá-lo no sentido de uma grande descoberta científica.

Com esta disposição, Isaac Asimov consegue explorar e apresentar problemas diferentes. Na componente humana assistimos ao problema dos egos nas carreiras científicas, problema que impede muitas vezes grandes progressos por mentes medianas incapazes de progredir e de cooperar, captando para si o trabalho dos outros. Para além disso percebemos que, face a grandes benefícios e conforto, a maioria dos seres humanos prefere ignorar as consequências.

Na componente central encontramos os alienígenas que, com as suas características próprias conseguem captar a nossa empatia e atenção, apresentando problemas de género que aqui se encontram no contexto diferente. A diferença pode trazer algo positivo e neste caso mostra-se como pode conferir capacidade evolutiva à espécie.

Na última componente, de volta aos seres humanos, voltamos a encontrar problemas títpicos das civilizações humanas, com descriminação entre pessoas de origem diferente ou a necessidade de singrar por meios ilícitos. Por outro lado quem detém poder nem sempre tem os interesses do conjunto em mente, dando mais importância às suas motivações do que ao destino dos restantes.

Low – Vol.4 – Remender, Tocchini e McCaig

Low continua a ser uma das minhas séries favoritas do ponto de vista visual, mas pela perspectiva narrativa tem perdido algum interesse. Comecei esta série na mesma altura que Descender, e se a última tem crescido (apesar de alguns momentos mais parados), Low parte de uma premissa interessante para não ter, até agora, grandes pontos de inovação.

Alternando entre as várias cidades submersas e concedendo a cada uma, um visual diferente que torna o volume fascinante, Low apresenta um mundo em apocalipse onde o fim da humanidade parece tão próximo que acaba com o positivismo de qualquer pessoa  e mesmo quando surgem notícias de um outro mundo passível de colonização parece preferível ceder à tragicidade do fim.

Neste volume exploram-se rivalidades numa sucessão de episódios de acção, sem o tom introspectivo ou filosófico dos volumes anteriores. Algumas das personagens principais não sobreviveram até aqui, resultando na tensão acumulada que justifica o ritmo frenético e explosivo.

Centrando-se no que de pior a espécie humana tem para oferecer, este quarto volume afasta-se bastante do espírito que encontrei nas primeiras páginas, onde me sentia irritada pelo excessivo optimismo de uma das personagens – optimismo que impeliu uma série de eventos carregados de esperança que tem sido esmagada a cada volume.

Oscilante em tom e equilíbrio, até ao momento é uma série estranha e inconstante, que vai deixando linhas narrativas em aberto que espero que sejam recuperadas nos próximos volume. Reitero que um dos aspectos positivos é o visual que cruza cenários conhecidos (o fundo do mar) com tecnologia futurista criando uma série de imagens improváveis mas fascinantes.