As minhas primeiras leituras fantásticas não terão sido livros com animais falantes ou fadas esvoaçantes. Longe disso. Terão sido antes as histórias que fazem parte das mitologias grega e romana, e até nórdica e indiana – histórias em que os Deuses passariam por humanos, não fossem os seus poderes e a sua imortalidade.
Os Deuses são implacáveis, mas também cedem aos sentimentos mais mundanos, como a inveja ou a luxúria, a avareza ou a raiva. Fazem-se ouvir através de oráculos, pelo voar dos pássaros ou as entranhas de um pombo, depositando rimas dúbias cuja interpretação poderá trazer a sorte ou a desgraça sobre um homem ou uma cidade inteira – e não há sorte que mais tarde não traga uma desgraça.
Das muitas histórias que constituem a mitologia grega, o conto de Psique é dos que me terá captado menos a atenção. Psique era uma bela jovem mortal e como qualquer jovem bela terá atraído a atenção dos Deuses, mais especificamente, a inveja de Vénus, que envia o seu filho, Cúpido, para a fazer apaixonar pela mais vil criatura da terra. Mas Cúpido apaixona-se por Psique e por um oráculo é sabido que Psique não irá desposar um ser mortal.
Psique é acorrentada e oferecida aos deuses numa Montanha. Com a ajuda do vento do Oeste, Psique é transportada para um palácio de Cúpido. Cúpido desposa Psique mas esta não poderá ver a sua cara, tendo para isso que apagar a luz, quando ele retorna durante a noite. Alguns dias depois Psique recebe a visita das irmãs que, face à estranha história, a instigam a ver o rosto do marido que se tratará de um monstro. Durante a noite Psique vê o rosto de Cúpido mas acorda-o e este foge. Com raiva e desesperada, Psique retorna à cidade, e conta a cada uma das irmãs como Cúpido a terá trocado por eles, bastando que elas se atirem do alto do penhasco para irem ao seu encontro. Assim Psique se vinga, à vez, das suas irmãs e parte em busca do marido.
Este mito é recontado por C.S. Lewis em No Reino de Glome pelo ponto de vista da irmã mais velha, Orual. As três irmãs, órfãs de mãe, são filhas de um pequeno Rei, mesquinho e violento. Orual é não só a mais inteligente, como a mais feia e sensível, acabando por tomar conta da irmã mais nova e bela, Psique. Mas não estão sozinhas – Orual, um escravo grego, acompanha-as e ensina-as a ler e a escrever, o cálculo, a filosofia e a poesia.
Após um ano de más colheitas e vários dissabores, é anunciado que Psique deve ser oferecida à Besta. Doente, Orual é incapaz de assistir à cerimónia, mas após a recuperação instiga um fiel oficial do castelo a subir à montanha para enterrar os ossos da irmã.
No local da cerimónia não encontra os restos mortais de Psique, mas a sua irmã, viva e de saúde, que a recebe no faustoso palácio onde vive e lhe descreve o marido que esconde o rosto. Mas ao invés de um palácio Orual vê uma gruta, e no lugar de um vestido encontra trapos. Temendo pela sanidade de Psique, Orual instiga-a a descobrir se o marido não será antes um vagabundo ou um monstro que se terá aproveitado da loucura de Psique. Nessa noite o Mundo abate-se na montanha e Psique cai em desgraça, não tornando a ser vista na cidade. Orual quebra-se de remorsos, recordando sempre que terá sido a causadora do destino de Psique.
Uma perspectiva diferente de um mito grego, No Reino de Glome perde bastante interesse após o desaparecimento de Psique. Não que esta seja uma personagem importante, apesar de ser a impulsionadora da história, Orual é a personagem forte. No entanto, sem Psique, as restantes páginas são um lamuriar de Orual e do velho escravo grego que, apesar de retornarem às suas tarefas, se abatem com a constante recordação da mais jovem princesa da casa.
Agora já estou velha e não temo a fúria dos deuses… irei escrever neste livro tudo aquilo que uma pessoa que é feliz não se atreveria a escrever. Vou acusar os deuses, especialmente o deus da Montanha cinzenta. Vou contar tudo o que ele me fez, como se estivesse a apresentar a minha acusação perante um juíz. Eu sou Orual, a filha mais velha de Trom, rei de Glome
No final, No Reino de Glome deixa-me duas imagens distintigas: a primeira parte constitui uma história sem verdadeiros vilões ou heróis, em que as crianças crescem sem amor, perante um pai tempestuoso que levanta tanto a mão como a voz; a segunda parte, esquecível, possui reviravoltas importantes mas às quais não se dá grande importância perante o ambiente.