Do ponto de vista narrativo esta foi uma das bandas desenhadas nacionais que mais apreciei nos últimos tempos. Se já comentei, noutros tópicos e outros locais que a banda desenhada nacional costuma pecar por aspirar a altos voos filosóficos descurando a história, esta, tendo como primeiro plano a história de um homem que se corrompe lentamente no desespero, consegue, assim, manter-se mais coesa e constante.
Um homem analfabeto procura, na cidade, uma forma de, através de empregos honestos, ajudar a família que deixou na terra. Confiando a sua correspondência à dúbia estalajadeira, entra em desespero pela situação que lhe é reportada – a doença e a fome sufoca os familiares, e o dinheiro que ganha é insuficiente para os ajudar.
Outro dos pontos que se destaca neste livro é o desenho, que já me tinha impressionado na Exposição de Pranchas Originais presente na Leituria – sem necessidade de recorrer à cor, consegue apresentar detalhe e profundidade, captando expressões e criando aproximação com as personagens.
A história é interessante e apresenta uma pequena reviravolta que não é de todo inesperada. Em primeiro plano temos a história de um homem que cai em desgraça fácil, mas temos, também, detalhes e acontecimentos com outras personagens que conferem dinamismo e densidade.
Por tudo isto, apesar da inevitabilidade que rodeia a sequência narrativa, este álbum passou a ocupar logo lugar entre os favoritos.



