Os números que venceram os nomes – Samuel Pimenta

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A premissa deste livro levantou-me logo algumas questões de teor mais prático. Tudo começa quando a existência de Deus é comprovada por uma fórmula matemática. Mas que Deus? É que, com tantas religiões, que Deus teria a fórmula provado a existência? Seria um Deus independente de todos os outros, uma entidade divina inquestionável que poria de parte todas as restantes crenças?

Ainda, tendo a noção que a fé difere da verdade científica por não necessitar de provas, de que forma poderiam os governos implementar a obrigatoriedade de tão diferente religião? Já vários governos e conquistadores tentaram, sem grande sucesso, impor diferentes crenças – perseguem-se uns e outros, mas o resultado é a proliferação de crenças escondida, paralelas e ocultas.

Então, e nos países em que não existe dissociação entre a Igreja e o Estado, sendo que o sistema legal se baseia em livros sagrados? Porque iriam os governadores reformular toda a autoridade que possuem para implementar uma nova religião que vai contra toda a estrutura existente? A fé é bastante diferente da compreensão exigida pela ciência. Mesmo existindo provas científicas de algo, não significa que seja aceite como verdade – basta ver-se o questionamento em torno da teoria da evolução ou do aquecimento global. Principalmente quando a maioria da população não tem bases para compreender o princípio científico – neste caso uma fórmula.

Mas voltemos ao livro. No seguimento da prova matemática é criado um novo sistema de crença envolvendo a fórmula – até a reza é uma declaração repetida desta. Consequentemente (e por vantagem dos governos) é imposto um sistema de números, criando-se uma sociedade organizada e catalogada ao extremo. Desaparecem os nomes e cada indivíduo passa a ser designado por um número único que o identifica. Mas ainda que um único número identifique um único indivíduo e o sistema exista há algum tempo, todos os indivíduos que encontramos possuem numeração bastante pequena.

Ultrapassando a improbabilidade de tal realidade, o autor é bem sucedido na criação de familiaridade para com o leitor, gerando empatia com as personagens. Claro que o leitor estranha esse mundo que, não tão diferente do nosso, é descrito desta forma – e o autor aproveita esta estranheza para nos apresentar uma personagem que não encaixa, gerando empatia e envolvendo-nos com os seus sentimentos e pensamentos. Ao mesmo tempo, cria um paralelismo entre o distanciamento que esta personagem sente, e o sentimento alienado do modernismo urbano. Na prática, o ambiente gerado nada é mais do que uma desculpa para esta apresentação exacerbada de pensamentos e sentimentos:

Distanciamo-nos do outro porque andamos demasiado ocupados com outras coisas, ora porque estamos atrasados para chegar ao trabalho e não temos tempo de pedir desculpa à pessoa a quem demos um encontrão na rua, ora porque é tão importante chegarmos ao topo da carreira profissional que nem nos importamos de cometer uma ou outra transgressão e afastar todas as pessoas que nos querem bem, ora porque estamos tão irritados com o nosso chefe que nem temos pudor em tratar mal a pessoa que nos atende num balcão qualquer, ora porque nos achamos donos da verdade e desconsideramos quem não pensa da mesma forma que nós. Estamos sempre ocupados, sempre ocupados, sempre ocupados. Estamos sós. E fazemos por continuar sós.

Ainda que mais extrema, a realidade descrita não é assim tão diferente da que conhecemos. Focados em números, percentagens e resultados numéricos, os elementos daquela sociedade dividem-se entre uma forte obsessão pela ordenação, e uma alienação doentia que os leva a ter ataques psicóticos, resultantes de memórias e pensamentos recalcados – separação que não é, na prática, muito diferente daquilo que nos rodeia.

O homem em que se centra a história é uma personagem comum, um homem que, reduzido ao seu papel produtivo na empresa, deixa pouco espaço na sua vida para outras actividades. Até que o encontro com um gato vadio desperta um cenário psicótico – a ordem extrema que cria a estabilidade foi quebrada e recordações antigas reavivam-se, originando a crise emocional e psicológica.

2 pensamentos sobre “Os números que venceram os nomes – Samuel Pimenta

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