Grandville – Bryan Talbot

Eis mais uma das séries de banda desenhada de que já tinha ouvido falar, mas que ainda não tinha tido oportunidade de ler. Neste caso trata-se do volume integral, que possui todas as histórias, com introdução de Ian Rankin.

A história

Este volume é composto por várias histórias que decorrem num mesmo Universo ficcional. Neste Universo os animais são seres conscientes e civilizados, enquanto a humanidade é vista como menos inteligente e tem um papel restrito aos papéis mais servis, sem grande acesso a edução.

As histórias decorrem sobretudo em França ou Inglaterra, nações semelhantes às existentes no nosso mundo, mas onde uma divergência história provocou profundas diferenças – Napoleão manteve-se no poder e conseguiu impor um Império Francês, do qual a Inglaterra fez parte durante muito tempo. A independência inglesa ocorreu cerca de 20 anos da história, existindo ainda fortes sentimentos entre as duas nações.

A história centra-se num texugo inglês que é detective da Scotland Yard, LeBrock. Apesar das suas origens humildes, conseguiu provar o seu valor e é um dos mais reconhecidos investigadores criminais, ainda que as suas chefias estejam mais preocupadas com jogos políticos do que nas capacidades comprovadas.

Cada história apresenta um novo caso onde LeBrock tem um papel determinante, misturando questões políticas com evolução social, investigação criminal e espionagem. Os casos vão-se relacionando e as personagens vão evoluindo, começando com um LeBrock solitário, e progredindo para um LeBrock com um passado e uma paixão.

Crítica

Grandville começa por apresentar vários elementos clichés do detective solitário. Mas se olharmos para a globalidade das histórias, percebemos que estes clichés são apenas o ponto de arranque, sendo que as personagens progridem para além deste padrão inicial conforme vamos conhecendo alguns elementos sobre o seu passado ou conforme vamos percebendo as suas motivações e paixões.

Esta progressão das personagens sente-se, sobretudo, de história para história, ultrapassando o padrão do género de histórias de detective, em que cada crime é resolvido por uma personagem constante, quase sem evolução. De história para história, vamos conhecendo mais detalhes sobre a vida de LeBrock, como se tornou detective e porque se apresenta inicialmente como um homem solitário.

Para além do detective, também o contexto social vai mudando. A independência dos Ingleses em relação ao Império Francês ainda é um ponto diplomaticamente frágil (decorreram cerca de 20 anos) e entre atentados e escândalos políticos, desenvolvem-se novas redes criminosas e novos heróis.

Mas se nos focarmos em cada história, percebemos que existe uma fórmula padrão entre elas. Cada caso começa por nos apresentar o crime e momentos mais pessoais do detective, intercalando-os. Momentos depois o detective é envolvido na pesquisa do crime, iniciando-se a investigação. Em quase todos os casos, LeBrock dá com um ninho de vespas e é obrigado a usar meios mais físicos para confrontar os criminosos.

Em termos de temática, Grandville não explora apenas casos de difícil resolução, mas também o contexto político e social. Os heróis de guerra nem sempre são o que parecem, revelando-se por vezes aproveitadores políticos ou psicopatas que dão asas à sua vocação nos confrontos bélicos. Os movimentos sociais de igualdade e libertação são mais para uns do que para os outros, existindo uma parcela da sociedade que está excluída. A religião é usada para manter uma determinada ordem social.

Já em termos visuais, a fusão é curiosa. Temos os animais em posturas humanas, capazes de proferir raciocínios e fundadores de uma sociedade tão civilizada quanto a nossa. Mas o desenho não é dos mais fenomenais, apresenta ora momentos toscos, ora desenhos fabulosos nos bons momentos de acção. É impossível não comparar com Blacksad que se apresenta excelente por comparação visual. Para além das personagens, encontramos engenhocas e mecanismos que recordam ficções Steampunk, elementos que se destacam de forma bastante positiva.

De realçar, também, os Easter Eggs. A narrativa está carregada de personagens conhecidas que aparecem por breves momentos como secundárias (exemplo: Astérix e Obélix protestando por melhores condições sociais) e de referências através dos nomes das personagens e dos animais com que se apresentam fisicamente.

Conclusão

Entre a resolução dos casos e a instabilidade social, Grandville é uma leitura movimentada que desenvolve bem as personagens, mas que também explora outros níveis narrativos, quer o contexto social e histórico daquele Universo (e por comparação o nosso) quer as associações culturais com o que conhecemos.

Não é a melhor leitura deste ano (tenho lido obras fabulosas) mas encontra-se no nível de excelente, ainda que o desenho possa causar algumas reservas em alguns leitores.

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