Becky Chambers é a autora do famoso The Long Way to s Small Angry Planet, um livro de ficção científica publicado inicialmente como edição de autor, mas que ganhou tal notoriedade, que foi republicado por uma editora. Este livro acabou nomeado para vários prémios do género da ficção especulativa.

Para além desta trilogia (iniciada com The long Way to a Small Angry Planet), a autora já tem publicado várias coisas, entre elas, este A Psalm For the Wild Built que para além de nomeado para Nebula e Locus, acabou vencedor do prémio Hugo. Este livro já se encontrava na minha lista de leituras para realizar, mas por algum motivo, a combinação entre o título e a capa não me atraíram. Foi necessário uma viagem de avião em que este livro era das poucas coisas disponíveis para me levar a lê-lo – e acabei fascinada!

A história

Dex, a personagem principal, decide mudar bruscamente de profissão e tornar-se num monge do chá – uma profissão ambulante que distribui chá nas vilas por onde passa. Na realidade, o chá é mais um pretexto, uma bebida quente para aconchegar o corpo e a mente, misturando-se ervas diferentes consoante o apoio que a pessoa precisa. A par com o bebida quente, os monges do chá ouvem os problemas de cada cliente e aconselham-no.

Mas Dex sempre teve um espírito irrequieto, procurando aventura e desconhecido. Se, nos primeiros anos da sua profissão, a deambulação de vila em vila cumpria com essa necessidade, após alguns anos, volta a sentir-se vazio e com necessidade de algo mais. Teve assim a ideia (ou necessidade) de sair do caminho desconhecido e enveredar por uma estrada que o leva para fora da civilização, rumo às florestas selvagens. Aqui conhece Splendid Speckled Mosscap, um robot curioso que o irá acompanhar.

Crítica

A história com formato de novela, é o primeiro de um duo, mas pode ser lido isoladamente. Este primeiro centra-se em Dex, apresentando Mosscap como uma personagem secundária. Neste caso, e dada a natureza aventureira de Dex, não se sente necessidade de uma outra perspectiva. Dex é apresentado e caracterizado ao longo de toda a história, mostrando-se como age e reage quando enfrenta (ou provoca) o inesperado.

Neste sentido, a caracterização cria empatia, mostrando uma personagem caricata, pouco usual, com particularidades que lhe conferem personalidade e unicidade. Dex escolhe o seu próprio caminho, uma existência em que sente dificuldade em se sentir conectado, até com os pais. Entenda-se que Dex não é uma personagem desagradável. Muito pelo contrário. É empático, atrapalhado, mas decidido e orgulhoso.

O encontro com o robot é peculiar, deixando perceber que, naquele mundo, há dois grupos de entidades racionais e conscientes, sendo que os robots compõem um dos grupos. Percebe-se que, tendo os robots ganho consciência, foram separados, como forma de se tornarem autónomos e prosseguirem o seu próprio caminho.

A história decorre, portando, sobre os escombros de uma outra civilização, talvez mais avançada do que a nossa. Mas não é propriamente uma história apocalíptica, tendo a sociedade seguido um caminho de reaproveitamento e maior contacto com a natureza – um género de Solarpunk, numa construção original mas de desenvolvimento contido e controlado.

O resultado é sublime. Dex e Mosscap conversam, curiosos mas respeitosos, tendo cada um os seus próprios objectivos, não totalmente alinhados. O robot demonstra uma necessidade de obter conhecimento sem limites que se traduz numa curiosidade quase infantil ou naive. Por sua vez, Dex precisa de explorar o desconhecido, de se isolar e de se encontrar.

A oposição mental das duas personagens cria espaço para alguns questionamentos existenciais, componente que é explorada nas duas perspectivas com peso e medida. Os robots também possuem gerações e existências findáveis, desenvolvendo a sua própria forma de encarar este fim -uma forma que contrasta com a de Dex, levando a algumas conversas sobre diferenças e necessidades.

Todo o texto é necessário e funcional, ainda que não estruturalmente rígido. Existe uma suavidade na forma de apresentar as personagens e de as desenvolver que consegue explicar tudo o que é necessário, mas contendo ligeiramente mais do que este necessário, o que lhe proporciona elegância e calma. A evolução da história é entregue com suavidade e ritmo, de forma a que o leitor se envolva, sem necessidade de criar falsas urgências, nem empurrões.

Conclusão

Gostei tanto da história que corri a adquirir o segundo volume. A escrita de Becky Chambers nesta novela está mais aprumada do que o livro anterior que tinha lido, mais contida e elegante. O resultado é fabuloso, inteligente e envolvente. A história apresenta o necessário optimismo de uma história solarpunk (que seria o objectivo dado à autora) através de um equilíbrio com a tecnologia e a natureza, mas sem se exceder com a construção de um mundo tão fabuloso que se torna inverosímil.