The long way to a small angry planet – Becky Chambers

Lançado em 2014, The long way to a small angry planet tem uma história curiosa. O livro foi publicado como edição de autor no seguimento de uma angariação de fundos pela própria autora e viria a ser um daqueles raros casos em que o sucesso levou a nova publicação por uma editora conceituada no meio editorial.

Seguir-se-iam nomeações para o prémio Arthur C. Clarke e para o BSFA e referências sucessivas ao livro como uma Space Opera bem humorada, mas nem por isso menos séria ou interessante, com momentos de tensão e de elevado entendimento da condição humana – por vezes, da condição alienígena – mas acima de tudo do entendimento de diferentes entidades inteligentes com questões culturais próprias.

A história apresenta-nos a tripulação de uma nave mercante que realiza diversas missões por um valor que é distribuído pelos membros. Encontramos a nave no momento em que se preparam para aceitar mais um membro, uma jovem que terá como missão ajudar a lidar com as burocracias e colmatar o entendimento entre diferentes espécies alienígenas.

Desde logo percebemos que esta jovem assume uma identidade falsa, não sob pretextos criminosos, mas como forma de esconder a ligação familiar a outros humanos de índole duvidosa. Claro que não é a única a esconder um segredo. A A.I. da nave desenvolveu uma personalidade muito própria e prepara-se para passar a um corpo humano (algo ilegal) e um dos membros da tripulação tem um caso altamente secreto com uma bela alienígena. Um a um, vamos percebendo a diversidade de personalidades que se encontram a bordo.

Depois de estabelecer o ambiente a bordo, de companheirismo bem humorado e respeitoso, com excepção para alguns membros incapazes de grande socialização, Becky Chambers aproveita a diversidade de espécies alienígenas para confrontar hábitos e costumes, diferentes formas de pensar e de agir, justificando-os à luz de cada cultura sem dissertações exaustivas, mas conferindo uma unicidade a cada elemento que o torna mais compreensível e, consequentemente, possível alvo da empatia do leitor.

Assim se exploram algumas questões de descriminação realçando os hábitos que foram sendo progressivamente assumidos pelos viajantes de vários mundos (como não olhar durante demasiado tempo ou tentar conhecer antecipadamente gestos ou expressões que possam ser ofensivas) ou questões de género.

Cada espécie alienígena possui formas bastante próprias de sociedade e serve como modelo para a exploração de diferentes sexualidades e comunidades, ultrapassando a noção estanque de uma sociedade homogénea e estereotipada – cada um dos elementos carrega a sua própria história para além da sua espécie.

The long way to a small angry planet é um livro divertido. Apesar de não levar o leitor a grandes gargalhadas estabelece um ambiente agradável entre os vários elementos (que são, quase todos, boas pessoas) colocando-os em situações difíceis de confronto moral e ético, nos quais se vão safando de forma oscilante. Não esperem acções heróicas ou respostas lineares. Tratam-se de personagens complexas que apresentam as suas próprias limitações e que irão responder de forma diferente conforme a ocasião.

Sem chegar ao patamar de extraordinário (por vezes alonga-se demasiado em episódios de pouca importância e possui algumas arestas a limar na apresentação de personagens) The long way to a small angry planet é uma excelente leitura que recomendaria, mesmo a quem não costuma ler o género da Space Opera.

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