Este volume faz parte da mais recente colecção Novela Gráfica, publicada pela Levoir em parceria com o jornal Público. É o segundo volume que li nesta colecção e tal como a primeira remete para o Irão e para a realidade política, social e religiosa do país. Neste caso, é um retrato, em primeira pessoa, de uma artista iraniana que se muda para o Canadá.
No Irão, a publicação de livros de banda desenhada está proibida desde 1979 e é só após a mudança para o Canadá que começa a trabalhar como cartoonista profissional. Mas se a mudança não foi fácil, sobreviver como mulher depois das ideias com que foi criada, também não será fácil. A autora não se mudou, claro, sozinha. Para tal teve de casar com um amigo que, tal como ela, queria mudar de país.



Entre os restos de um casamento desfeito, a autora é constantemente confrontada com a sombra dos costumes e dizeres do seu país, que lhe recordam ser proibido andar de bicicleta ou usar determinadas roupas. Esta sombra é representada por uma mulher de trajes negros que sussurra constantemente a desaprovação de forma bruta ou rude, sendo a imagem de uma antiga professora de Moazzami.
A autora pode ter saído do seu país e ter-se afastado da sua família e costumes, mas estes ainda a prendem de forma consciente e inconsciente, amarras que deverá aprender a largar com o tempo, mas que, por enquanto, transporta consigo.



Entre os desenhos algo crus, bidimensionais ou simplistas, encontramos tiradas simultaneamente cómicas e deprimentes, uma perspectiva da autora sobre si própria e das suas circunstâncias, em que a sombra dos costumes (sobre a forma de mulher em traje tradicional) permite destacar algo que faz parte dela. É uma leitura peculiar com confrontação de costumes, onde se destaca a realidade do Irão e as restrições sobre as mulheres.


