O primeiro livro da série Wayward Children, Every heart a doorway, tinha-nos apresentado uma realidade em que as crianças retornaram de mundos fantásticos (e nalguns casos, muito pouco alegres, até tenebrosos) e têm dificuldades em se adaptar ao nosso mundo. Neste caso, as crianças são colocadas num colégio interno, onde convivem com outras crianças (ou adolescentes) com dificuldades semelhantes. Este primeiro assume uma abordagem ainda mais negra quando alguns dos alunos começam a aparecer mortos de forma macabra.

Este segundo volume (nomeado para o Locus e para o Hugo) leva-nos a conhecer em detalhe a história das duas gêmeas que tiveram um papel central no primeiro volume. Começa por nos apresentar os pais, um casal modelo que optou por crianças com objectivos mais sociais do que paternais, moldando o duo às suas ideias de perfeição. Jacqueline foi levada a ser uma dama modelo, vestida como princesa, educada e calada, enquanto que Jillian foi incentivada a ser aventureira, um género de maria-rapaz que compensava a ausência de um filho.

O equilíbrio desta educação tinha sido mantida pela avó, mas quando esta é obrigada a deixar a família, as diferenças entre as gêmeas fazem que se afastem ao invés de cooperarem. Atravessam juntas a porta que encontram, mas no mundo assustador com que se deparam, o destino leva-as a percorrer percursos bastante diferentes e opostos. Uma torna-se a ajudante do que poderia ser descrito como um cientista louco. A outra a futura amante de um Lorde Vampiro que pede lealdade, mas confere todos os desejos.

Finalmente libertas das expectativas dos adultos, e capazes de fazer as suas próprias escolhas, as gêmeas evoluem no sentido oposto ao das suas vidas anteriores. Uma torna-se empática e respeitosa. A outra mimada e caprichosa. Ambas pretendem agradar aos seus respectivos mestres, num mundo cruel onde as regras se vão revelando peculiares.

A história vai apresentando contornos macabros e dementes, uma aura sombria onde até os momentos que poderiam ser mais alegres se transformam em taciturnos, sugadores de luz. Alguns elementos da história, como os vampiros e o médico / cientista louco (e os seus métodos) recordam histórias mais clássicas do género gótico, existindo uma melancolia que envolve a história, conferindo uma espécie de inevitabilidade no que vai ocorrendo. O autor vai deixando pistas para a proximidade de uma desgraça, pelo que esta expectativa é constante por parte do leitor.

Apesar de ser uma história relativamente curta (os livros desta série são-no quase todos) e de poder ser lida isoladamente, ganha uma nova dimensão (e tragicidade) quando lida na sequência do primeiro volume – quando já conhecemos as gêmeas após retornarem deste mundo sombrio e sabemos como irão progredir psicologicamente. O resultado é, simultaneamente, macabro, desencorajador e deprimente – mas uma excelente leitura.