Eis uma das novas séries da Tor que me despertou algum interesse – não só pelo tamanho (o livro tem menos de 200 páginas), como pela premissa, que envolve memória e identidade com tecnologia, e por algumas críticas dispersas.

A narrativa leva-nos a um futuro distante onde a humanidade colonizou vários planetas e viaja pelo espaço em naves. Alguns, como é o caso da personagem principal, subsistem vasculhando restos tecnológicos pela galáxia e vendendo os pedaços que encontram. Até aqui, a ideia é comum a várias outras histórias que cruzam avanço tecnológico com degradação das possibilidades humanas.

A história apresenta factores originais com as máscaras – pedaços de tecnologia que permitem ao seu usuário desenvolver determinadas capacidades, mas também interagirem com a tecnologia envolvente. Estas máscaras funcionam como um cartão de identidade, permitindo o acesso aos saldos da pessoa. No caso da personagem principal, esta possui uma máscara barata, de um coelho – uma máscara que a instiga a fugir ao sinal de perigo.

Mas quando encontra a máscara de um predador, a sua existência vai sofrer uma reviravolta furiosa – não só porque a nova máscara induz outro tipo de respostas em situações de perigo, mas porque é um protótipo tecnológico que alberga a mente de uma jovem mulher que terá sido abusada de várias formas ainda em vida – traficada, violada, vendida para uma experimentação.

Neste seguimento, a história explora vários temas, alguns de forma mais directa. O primeiro, mais óbvio, é, sem dúvida, o tema da memória e da identidade. Neste caso, a personalidade de uma pessoa foi retida num pedaço tecnológico, uma máscara. Mas quem usa esta máscara pode ser possuído por esta personalidade, oscilando o resultado entre fusão de mentes e controlo total por uma entidade estranha. Ainda que o conceito seja assustador, poderão existir circunstâncias extremas, em que tal é preferível pela personagem. Esta sobreposição de mentes leva, também, a que a memória se sobreponha ao presente, existindo momentos de indefinição.

Paralelamente, voltamos a sentir, nesta narrativa, o poder das corporações, em detrimento dos direitos individuais – aliás, premissa que parece estar muito em voga nas publicações mais recentes demonstrando alguma insegurança no futuro dos governos e na forma como as grandes empresas podem ter acesso a manipular e a reduzir os direitos, o acesso a bens e a trabalho. Também aqui as empresas se revelam monstros sem escrúpulos, em que tudo vale para fazer vingar os seus próprios interesses.

De uma forma mais indirecta, mas também central na narrativa, encontramos a vulnerabilidade feminina, ainda presente num mundo altamente tecnológico e teoricamente avançado. A personagem principal sente esta diferença nas interacções com os seus colegas, em que o relacionamento, apesar de abusivo, é comparativamente melhor que outras interacções, sendo subestimada em diversas interacções. Já a pessoa que foi transformada em máscara foi traficada e comprada pelo marido, abusada e diminuída à função reprodutora – e finalmente, cedida para experimentação. O valor do ser humano é anulado.

Apesar de abordar todas estas vertentes, Volatile memory é uma narrativa tensa e acelerada, onde seguimos a perspectiva de alguém que sobrevive pelo medo e pela fuga. É, portanto, uma perspectiva fechada, claustrofóbica, quase deprimente, onde sentimos que a personagem está sempre entre a espada e a parede, com poucas rotas de fuga. Neste sentido, é uma narrativa muito focada na primeira personagem, mas que, neste caso, tratando-se de uma história curta, directa e rápida, permite que tenha mais impacto.

O resultado é uma pequena leitura com uma marca psicológica muito distinta, que transmite esta sensação de aperto e falta de perspectiva, ao mesmo tempo que explora inovações tecnológicas originais e decisivas para o desenvolvimento da história. É uma história carregada de tensão e acção, por vezes violência inevitável, que tem, no entanto, dois ou três elementos naive ou ligeiramente inconsistentes. Apesar destes detalhes, estará entre as leituras do ano.