Eis um dos livros recomendados pelo Artur Coelho na sessão de Escolhas do ano, sendo um dos que mais me interessou pela premissa irónica. Imaginem que todas as religiões são falsas excepto uma (Zoroastrianismo). Todos os milhares, milhões de praticantes de outras religiões são remetidos para o Inferno.

A história é contada na perspectiva de Soren, um mormon, geólogo, que morreu de cancro. Tendo levado uma vida exemplar, é surpreendido quando é recebido por um demónio que o informa da falha de fé no Deus certo. Tratando-se de um leitor, o Inferno que calha a Soren é uma biblioteca – mais concretamente, uma espécie de biblioteca infinita como a imaginada por Borges, a Biblioteca de Babel, onde existem todos os livros que podem resultar da combinação aleatória de letras. Como sair deste Inferno? Descobrindo o único livro que conta a sua vida.

Apesar do objectivo longínquo (entre vários livros inintelíveis, existe, raramente, algum que tem alguma frase compreensível, quanto mais a totalidade da história de alguém), a descrição do lugar não parece, à primeira vista, propriamente um inferno. Pela manhã inicia-se um novo dia. Todos podem pedir o que quiserem para comer, em qualquer momento. Há camas limpas e lavadas. Há duches e roupas. Se a pessoa se magoar ou morrer, voltará a estar saudável na manhã seguinte. O que fazer? Procurar nos livros por algo que possa ser a vida de alguém. 

Na realidade, diria que esta falta de objectivo é o verdadeiro inferno – ninguém parece atingir o objectivo, a biblioteca parece ser infinita, e nenhum dos conhecidos anteriores se encontra neste local. Adicionalmente, há quem pense tratar-se de uma simulação, mas serão os que os rodeiam projecções ou outros humanos? Tudo indica que serão outros seres humanos.

Mas se a inexistência de um objectivo palpável pode ser infernal, na realidade, o verdadeiro inferno são os outros. E se, inicialmente a existência parece ser pacífica e de cooperação, percebemos, a dado momento, que até aqui se cria uma Seita que irá perturbar a existência infinita, quebrando ligações e impondo torturas infinitas. Se todos os dias os torturados acordam saudáveis, significa que a prática pode ser perpétua – se a existência já era perturbadora, aqui atinge um outro nível de desespero.

A narrativa começa por ironizar a religião, mostrando a lógica de algumas em que, após todos os actos positivos imagináveis e o cumprimento de um conjunto de regras à letra, ficam de fora os que não acreditaram na ramificação certa. A explicação é curta e brusca, deixando as almas perdidas no que lhes vai suceder. Ao mesmo tempo, é-lhes dada uma saída longínqua, estatisticamente impossível.

Ainda que o Inferno seja escolhido à imagem dos hobbies das almas, neste caso, Soren, que gostava de ler, vê-se na tal Biblioteca de Babel. Mas esta será, mesmo do ponto de vista de Soren, um Inferno real – é que os livros que lá se encontram não são, na sua maioria, legíveis, sendo que a aleatoriedade das letras raramente origina algo que seja interessante. Ainda assim, os poucos livros que apresentam algumas, poucas, palavras perceptíveis são objectos de culto, transmitindo-se rapidamente a palavra entre os habitantes da Biblioteca que correm a admirar o resultando.

A existência é, aqui, praticamente eterna, e cada pessoa vai desenvolver a sua nova realidade, estabelecendo novas ligações, novos jogos e novos hobbies para ultrapassar o tédio do quotidiano das páginas vazias. Simplificando, a existência é absurda, e cada pessoa terá de se ancorar em algo, apesar de não existir uma possibilidade de redenção. Mas se é possível formar novos laços afectivos, perder o contacto com a pessoa querida é, em si, um Inferno – onde estará no meio da infinitude?

Um dos aspectos que é referido pela personagem, mas que acaba por não ser explicado, é a reduzida diversidade dos habitantes deste Inferno literário. Todos os habitantes são brancos e norte-americanos, falam o mesmo idioma, possuem uma cultura semelhante e parecem ter vindo de um período limitado da história. Porquê? Não se chega a perceber – mas será mais um aspecto a considerar na monotonia de existência ilimitada neste Inferno.

“This hell is filled with all white people. All Americans from 1939 to 2043. No blacks. No Asians. No diversity.”

A short stay in hell (título também ele irónico, dado que de curta a estadia tem pouco) coloca uma hipótese simples para se desenvolver. E se quem não seguir a religião certa fica num limbo quase eterno? O resultado, apesar de ter poucas páginas e apresentar a perspectiva de um só homem, é intelectualmente interessante, demonstrando uma ansiedade palpável numa eternidade que é, em demasiadas formas um Inferno – mas não naquela que é popularizada. Sem fogos nem torturas às mãos de demónios, a monotonia da eternidade onde o conforto é uma realidade e os desafios são limitados, torna-se, ela própria o maior pesadelo imaginável.