
Eis outro daqueles clássicos indispensáveis que ainda não tinha lido. Tanto que me recorde, deste autor li apenas o 2001 Odisseia no Espaço, e ainda que tenha registado o Songs of Distant Earth como lido, o título e a sinopse não me despertam a memória. Outro livro que tenho como objectivo ler do autor é o famoso Childhood’s End, já adaptado para série televisiva.
A história começa por nos apresentar um futuro onde a humanidade já povoou outros planetas do Sistema Solar. A população de cada planeta apresenta características associadas à sobrevivência em diferentes condições, não só físicas, mas mentais. O modelo de família é nitidamente mais alargado, com várias esposas ou maridos, e filhos produzidos de forma menos tradicional.



É neste contexto que se avista um cometa a caminho do Sistema Solar, denominado Rama, mas cuja constituição e conteúdo parece divergir do esperado. A proximidade revela uma bola de enormes dimensões, que poderá ser uma espécie de nave, iniciando-se esforços para criar uma expedição que explore o enorme objecto estranho, sobretudo no seu interior. O que se revela é, simultaneamente surpreendente e frustrante.
Rendez-vous com Rama é um livro de encontro com tecnologia extraterrestre, mas que segue um percurso diferente do tradicional. E se o avanço tecnológico levar a um não reconhecimento? Serão os seres humanos perceptíveis para outras formas de vida como seres inteligentes? A questão vai sendo explorada ao longo do romance, ainda que não seja propriamente respondida ou analisada friamente. O interior de Rama parece ter vida própria, mas as características de tudo o que vai acontecendo foge ao padrão da expectativa humana.
Nesta vertente, de forma bastante diferente, Rendez-vous com rama recorda-me o recentemente lido Solaris. Ainda que o tipo de interacção alienígena seja diferente, existe uma falha em reconhecer padrões de comportamento e interacção, levando a que exista alguma frustração e incompreensão. Em ambos se denota uma abordagem científica perante o alienígena, com explorações e observações, que levam a conclusões bastante diferentes do que seria esperado.



Também em Rendez-vous com rama se apresenta o conhecimento como objectivo. A expedição visa explorar Rama, tentando interferir, de forma controlada nalguns fenómenos, com o objectivo de se perceber o que acontece. A progressão não permite que exista necessariamente uma explicação para a visita ao Sistema Solar, levando a alguma frustração, ironia e até questionamento sobre a existência de interacções futuras – final que o autor deixa em aberto neste volume, piscando o olho a uma constância alienígena.
Em termos de expedição, esta é composta por homens de origens e crenças diferentes, aspecto que é pouco explorado mas que permite explicar algumas interacções entre a tripulação. A história debruça-se mais na observação do que nas personagens e no seu desenvolvimento psicológico, excepto quando tal faz sentido para o desenvolvimento de algum episódio. Mesmo entre os membros da nave de exploração não existe propriamente um conflito. Destaca-se, no entanto, a descrição de um episódio de heroísmo mais datado, uma vertente que apresenta a figura masculina que tenta exceder-se para atingir a grandiosidade, apesar do contexto social que se crê mais avançado.
Para que a expedição ocorra, envolvem-se os mais diferentes académicos, desde arqueólogos a astrónomos, havendo nesta componente várias tiradas críticas sobre o meio académico. Para além da politiquice (e de alguns jogos de influências e popularidades) existe o foco utilitário de alguns académicos, demasiado focados naquilo que os fascina, ou demasiado apegados às teorias que defenderam uma vida inteira (e que se podem provar erradas pela observação de Rama).



Rendez-vous com Rama é uma história de exploração que, apesar de alguns episódios mais tensos, se desenvolve de forma calma e pausada. Existe um constante fascínio pelo objecto em exploração, um confronto com algo que a humanidade julgava impossível (sobretudo a nível tecnológico), um sentido de descoberta e, até, de humildade perante a vastidão da tecnologia alienígena. É uma excelente leitura, mas que se afasta de alguns padrões literários, sendo que o final pouco conclusivo pode ser pouco envolvente para alguns leitores.
