
Maria Roque Martins venceu, com Um Mundo Às Escuras, o prémio António de Macedo, livro que foi publicado pela Editorial Divergência. Ainda não o li (apesar de o ter cá na estante) mas a sinopse parece indicar um mundo apocalíptico em que a electricidade se desvanece e a civilização entra em colapso. Este Libertem os Velhos promete algo diferente, antes uma distopia futurística.
A história leva-nos ao ano de 2114, apresentando-nos uma Lisboa renovada, onde a tecnologia tomou conta da população. Todos possuem uns dispositivos que lhes permitem estar ligados constantemente, usando-o para pagamentos, comunicações, matchs e votações. Tudo, ou quase tudo, depende deste dispositivo, pelo menos em sociedade. É neste contexto que conhecemos Ícaro João Mendes, um jovem publicitário que pensa ter nas mãos a grande oportunidade para ganhar uma promoção. A campanha parece perfeita. A par com isso, apesar das elevadas horas que tem mantido no trabalho, o seu relacionamento também parece estável e promissor. Até ao grande dia do lançamento.
Conforme esperado, a campanha é um sucesso. Mas apenas nas primeiras horas. Uma influencer faz uma comunicação expondo o João Mendes como um homem racista que, na Universidade teria defendido as causas erradas. Ainda que não se trate do mesmo João Mendes, em pouco tempo o jovem vê-se afundar rapidamente. A namorada deixa-o, é despedido e quase todos os amigos deixam de lhe responder. Todos os que tenta comunicar percebem pelo dispositivo que ele foi cancelado e, como tal afastam-se. Entrando num estado de depressão, Ícaro João Mendes percebe as implicâncias da sua situação e que é quase impossível limpar o nome. Sendo contacto pelo seu homónimo João Mendes percebe que existe uma forma de sobreviver fora do padrão – ainda que demora a aceitar tal existência.
Já a mudança para casa da mãe leva-o a confrontar o seu suicídio – mas também a descobrir uma carta onde lhe é revelado que a avó terá sido obrigada a congelar-se, por supostamente ter sido diagnosticada com demência. Mas se ela nunca foi ao médico, como tal poderia ter acontecido? Ícaro decide-se a lutar pela sua avó.
A narrativa vai apresentando a perspectiva de outras personagens. Acompanhamos, a par com Ícaro, Camila, uma detective ambiciosa que vive numa época moderna. Tendo sido congelada por conta de uma doença e descongelada quase 20 anos depois, teve de se adaptar à nova realidade, encontrando uma irmã bastante mais velha, e passando a ganhar familiaridade com a sobrinha, de idade mais próxima. Acompanhamos, também, numa época anterior, Anita que vê parte da transição do mundo actual para este futuro, e, por vezes, aproximamo-nos de outras personagens.
Neste futuro onde todos estão interligados por um dispositivo, a informação é fragmentada e subjectiva. A validação dos factos também é relativa e as ideias propagadas por influencers podem ter efeito determinante na reputação de alguém. Na realidade, não existe direito de resposta e a partir do momento em que alguém é cancelado, mesmo que com insinuações que não sejam verdadeiras, é praticamente impossível retornar a uma existência normal.
Neste mundo de opiniões altamente voláteis e de rápida formulação, a história mostra como os algoritmos e as automatizações se tornaram verdades absolutas, havendo diminuto discernimento crítico por parte dos humanos. Estes habituam-se simplesmente a seguir, sem questionar, sem tentar tomar decisões por si próprio. As ligações digitais regem, também, a forma como as pessoas se relacionam, principalmente do ponto de vista amoroso. Não é feita nenhuma aproximação física sem que haja um consentimento explícito anterior. Assim, não se correm riscos de uma rejeição, mas também não há margem para assédios ou mal entendidos.
A opinião pública é, portanto, flutuante, dada a rápidos julgamentos, baseados no sentimentalismo e no choque rápido provocado pela forma como a informação é disponibilizada. E é desta forma que as pessoas votam em inúmeros referendos para decidir os mais diversos detalhes na sociedade que os rodeia, como por exemplo a utilização de lápis de carvão. O cancelamento não se faz apenas para pessoas reais, mas também com toda a produção cultural, eliminando-se qualquer produto que tenha tido origem num artista que, segundo os padrões de 2114, não seja considerado correcto. Na prática, é o mesmo que dizer que qualquer livro, obra de arte ou quadro, anteriores a esta época, desapareceram de circulação e de propagação, havendo até um certo asco a que alguém possa contactar com tais produtos.
Do ponto de vista narrativo, a autora consegue desenvolver várias personagens, com características distintas, utilizando as diferentes vivências para apresentar perspectivas diferentes dos acontecimentos ou daquela sociedade. Anita vem de outro século pelo que poderá ter uma abordagem mais semelhante à do leitor. Já os restantes acreditam no sistema, até que as evidências se acumulam para além do acreditável.
No seguimento do cancelamento do João Mendes, a descrença no sistema leva-o a agir, consistindo essa acção o principal motor narrativo que vai levar ao envolvimento de mais personagens e levar à movimentação do texto – até porque todas as personagens acabam por se relacionar de alguma forma, sendo fundamentais para o desenvolvimento da história.
O principal ponto menos positivo do texto estará na extensão de episódios mais secundários que, ainda que ajudem na caracterização de algumas personagens, não são fundamentais para o desenvolvimento do enredo, podendo, na minha opinião ser cortados e originar uma história mais focada na linha narrativa principal.
Ultrapassando-se facilmente este elemento, Libertem os Velhos é uma agradável leitura de ficção científica, que nos leva a um futuro provável, ao mesmo tempo que exagera alguns elementos que já existem actualmente, para criticar quer este futuro, quer a sociedade que conhecemos. Mas mais do que desenhar um futuro, cria personagens e desenvolve um enredo que se torna interessante e envolvente.
