
Eis um clássico de ficção científica lançado em 1937 que recebeu, à data, aprovação de grandes nomes como H. G. Wells, Jorge Luis Borges, Brian Aldiss, Doris Lessing ou Stanislaw Lem. Mais recentemente, o livro ganhou finalmente uma edição em português (não encontrei a existência de uma edição anterior) pela VS, que lançou, também, do mesmo autor, Últimos e primeiros homens. O que encontrei é mais um exercício de possibilidades civilizacionais (com elevado paralelismo em relação aos humanos) do que uma narrativa com personagens e acção.
A história apresenta-nos um homem que, num momento de contemplação nocturna, expande a consciência para além do corpo que o sustem. Esta expansão, ou viagem, permite-lhe vislumbrar para além do planeta Terra e deslocar-se pelo cosmos, encontrando outros planetas onde outras espécies se desenvolveram, criando civilizações diversas com semelhanças e diferenças em relação aos seres humanos. Conforme avança na sua exploração outras mentes se unem, fazendo com que a sua capacidade de percepção aumente. Em grupo a sua inteligência eleva-se e consegue percepcionar outras presenças que antes lhe estavam vedadas.



Enquanto que as primeiras espécies apresentam algumas semelhanças com a humanidade, outras distanciam-se no seu desenvolvimento e princípios, criando diferentes formas de organização social e espiritual. Existem, assim, seres colectivos, entidades vegetais conscientes e mentes compostas por diversos organismos. A evolução, o ciclo de desenvolvimento e os detalhes do planeta irão levar a diferentes perspectivas e colaborações (ou competições).
A maioria das civilizações atinge a estagnação e o declínio. Tal pode acontecer mais do que uma vez, no ciclo que vai oscilando ligeiramente, mas que ora eleva a espécie, ora a faz mergulhar num caos. Por vezes na sequência de um consumo exacerbado ou da ganância, noutras por diferenças de religião ou mentalidade (que origina a usual percepção de superioridade moral de alguns). Algumas, poucas, civilizações, progridem para a exploração galáctica, mas mesmo assim, a criação de impérios conquistadores gera caos – tanto no próprio Império como nas civilizações que conquistam e eliminam.



A descrição das várias diferentes civilizações por vezes cria um paralelo com a civilização humana, criticando-a e antevendo um colapso criado pelas diferenças que se agudizam, pelos conflitos desnecessários e pela colocação de interesses individuais acima dos interesses do grupo – característica em comum com algumas civilizações alienígenas, mas que parece mais facilmente ultrapassado por aquelas que naturalmente funcionam em comunidade.
Começando com uma abordagem muito individual (com a personagem que centraliza a experiência de viagem pelo espaço e pelo tempo) a perspectiva vai-se expandindo, reduzindo à insignificância o indivíduo e a humanidade – principalmente quando comparados com a imensidão de todas as outras existências e civilizações. A individualidade reduz-se, mas não só pela comparação, também pela integração. A mente que acompanhamos une-se a outras e é, assim, capaz de percepcionar outras consciências e outros níveis da realidade que acompanha. No caso da personagem, esta fusão de mentes vai acontecendo com o encontrar de maior complexidade, ainda que existam, também, civilizações onde a fusão de mentes é biológica e originária das características da espécie.



O desenvolvimento vai misturando conceitos científicos (como a expansão do Universo e a possibilidade de existir vida noutros planetas) ao mesmo tempo que desenvolve conceitos mais exotéricos como conexão mental e leitura de mentes. Aliás, o próprio princípio que origina a narrativa é peculiar, com a personagem a ganhar existência menos física e a mente a abandonar o próprio corpo para explorar o cosmos. Para além destes conceitos, o fundamental da narrativa é o desenvolvimento de ideias que se transformam em hipóteses, civilizações ficcionais com uma base lógica e uma explicação para o seu desenvolvimento e queda. Esta abordagem permite desenvolver vários exercícios curiosos sobre o desenvolvimento das sociedades e sobre as diversas mentalidades alienígenas.
Apresentando uma imensidão de ideias e de conceitos, Criador de estrelas é uma jornada de ideias e de conceitos, alguns mais científicos e filosóficos, outros mais exploratórios. Algumas das possibilidades desenvolvidas são fascinantes e originais, mas a sucessão (cada vez mais rápida) de sociedades e espécies leva a que o interesse, enquanto leitora, se desloque mais para o conceito abstracto e menos para a narrativa. É, portanto, uma leitura pausada, com elevados contornos experimentais, que cativou mais pela exploração de ideias do que pela história (que é quase inexistente).
