Esta autora tem ganho bastante notoriedade no mercado internacional com diversos livros. Destaca-se Tender is the Flesh (no original Cadáver Exquisito e em português Cadáver Requintado) e The Unworthy (no original, Las Indignas). Apesar de ambos os livros já andarem no meu radar há algum tempo, havendo uma edição em português, a decisão de adquiri-lo foi rápida. Trata-se de um livro de horror, uma distopia pesada onde a violência é de tal forma normalizada que um grupo de seres humanos não é visto como tal.

Nesta realidade alternativa, todos os animais passaram a estar infectados com um vírus mortal, fazendo com que os humanos não os possam consumir. Mesmo sem provas concretas de outro tipo de transmissão, o afastamento dos animais é mais alargado, deixando de existir animais domésticos, usando guarda-chuvas para proteger dos dejectos dos pombos e descontinuando-se os zoológicos. Sem dúvida que estas medidas trouxeram grande felicidade aos animais, na sua ignorância para com os seres humanos.

Ainda que o consumo de animais tenha sido suspenso, a fome de carne vai levar a sociedade a arranjar formas de desculpar o consumo de carne humana. Diminuem-se ao grau de animal alguns grupos, e alguns seres humanos passam a ser criados como tal, tratados como porcos ou vacas, com as cordas vocais retiradas e em cativeiro. Nesta sequência, a criação, abate e comercialização de seres humanos para alimentação passa a ser legal, com a sociedade a adaptar-se gradualmente a esta norma. A desumanização dos seres humanos consumidos passa pela alteração dos nomes usados para referir as partes da carne, com a substituição do termo pessoa por cabeça, ou produto; ou pela marcação das cabeças de forma a ser reconhecíveis como animais, existências. Através da alteração de referências o inconcebível torna-se tolerável e, até, aceitável.

A história foca-se em Marcos, um homem que trabalha num matadouro especializado no processamento de carne humana. Ainda que não pareça ser especialmente apologista desta indústria e ainda que pareça demonstrar algum asco perante alguns detalhes que o rodeiam, percebemos que os conhecimentos que tinha da anterior indústria da carne de animal são necessários agora para lidar com a carne de ser humano (e com os outros produtos que são gerados a partir daí como o negócio das peles). A sua ligação à indústria permite-lhe garantir o sustento e, dessa forma, manter o pai num dos lares mais caros da cidade.

É através de Marcos que vamos tomando conhecimento dos detalhes mais crus e cruéis desta sociedade, não bastando o consumo dos novos “animais”, mas também mostrando-se pormenores quanto à procriação e selecção dos melhores espécimes. A desumanização de outros seres humanos não passa só pela indústria alimentar. Existem referências à caça clandestina (com espécimes noutros continentes), e a uma carne especial de origem obscura. Na realidade, mesmo os seres humanos que se encontram foram do circuito oficial de procriação parecem não estar a salvo – seja por dívidas monetárias, seja por estarem no local errado à hora errada.

Ainda que pareça, por vezes, que Marcos apresenta algum asco em relação à nova normalidade, a expressão de sentimentos ou de pensamentos é reduzida e dúbia. O horror tornou-se comum, e Marco parece perceber que inútil expressar-se. Digo inútil porque, na verdade, nunca chegamos a perceber verdadeiramente a sua posição e se não estaremos a percepcionar as suas reacções à luz das reacções das nossas expectativas. No entanto, mesmo que alguém possa ser fundamentalmente contra a indústria de seres humanos, até que ponto não poderá tentar usar as circunstâncias a seu favor, sobretudo para atingir objectivos pessoais? O reconhecer o horror não significa necessariamente afastamento, acção e revolta explícita.

Ultrapassando a perspectiva pessoal de Marcos, a distopia apresentada expressa uma normalização da desumanização e, consequentemente, uma crueldade institucional para com outros seres humanos. A barbárie não pontual e perpetuada por indivíduos marginalizados, mas baseada numa estrutura que a legaliza e normaliza, existindo todos os mecanismos de controlo, como inspecções, certificações e auditorias, que mostram a prática como algo sério, validado e recorrente. É nitidamente algo que se torna fundamental naquela sociedade.

Cadáver Requintado apresenta ainda outras nuances, referindo-se à necessidade de consumo que leva a contornos morais e éticos, numa sociedade extremamente capitalista. Por outro lado, o tratamento dos seres humanos consumidos pode ser usado para tecer paralelismos com o tratamento que damos aos animais que se consomem na nossa sociedade, ainda que a maioria das pessoas não tenha de se confrontar com esses detalhes.

Em suma, Cadáver Requintado proporciona uma leitura pesada, não aconselhável a leitores impressionáveis. É brutal e desconfortante – tanto pela realidade que descreve, como pela forma neutra, quase apática com que aborda as várias vertentes do consumo de produtos de origem humana. Adicionalmente, é de realçar os mecanismos de neutralização do enquadramento dos outros seres humanos como humanos, baseando-se numa política de higienização de vocabulário e de conceitos abstractos que permitem justificar que sejam tratados de forma diferente. E claro que outros paralelismos poderiam ser tecidos em relação à história das civilizações humanas, onde outros foram escravizados e tratados como menos do que humanos.