Tungsténio – Marcello Quintanilha

Sempre que um livro se centra em personagens que cresceram em zonas urbanas degradadas, sobrecarregadas pela corrupção, parece que me repito um pouco. Mas não é difícil perceber porquê. Tanto Tungsténio como Histórias do Bairro ou outras histórias que acompanham personagens que cresceram em locais tão distantes uns dos outros, mas, simultaneamente tão próximos em aura, possuem características em comum – personagens que foram forçadas a adaptar-se, algumas afastando-se, outras aceitando a corrupção que as rodeia, mas nem por isso sendo totalmente corrompidas por ela.

De qualquer meliante que pratique um crime, por mais pequeno que pareça, pode esperar-se um rápido escalar de violência. Não é assim de se estranhar que um jovem traficante tente olhar para o lado enquanto um par de homens pesca recorrendo a explosões. Já o ex-sargento que o acompanha, um homem mais velho e com modos de intervencionista, decide-se agir, ou a fazer agir alguma autoridade, ainda que sem grande sucesso.

Forçado a ajudar, o jovem traficante telefona, então, para um polícia violento e sem escrúpulos na hora de agir, que corre para o local sem pensar duas vezes. O que se sucede é uma cena de violência, com o polícia a disparar sobre o par de pescadores indevidos e a ser forçado, posteriormente, a uma luta corpo a corpo com ambos.

Enquanto decorre esta cena acompanhamos a esposa do polícia que confessa à amiga, pela milionésima vez, a vontade de sair de casa e deixar o marido. Se ao menos tivesse um emprego que a sustentasse, por forma a fugir daquela vida de abuso contínuo! Uma confissão demasiada vezes proferida em que já ninguém acredita.

Tungsténio revela a corrupção pela violência por ambos os lados da barricada, com um polícia desumanizado pelas sucessivas intervenções e que procura nos pequenos momentos de lazer uma diversão extra-conjugal, e um pequeno traficante que vê, na sua actividade, uma forma de sobrevivência com a qual se corrompeu parcial, mas não totalmente.

Tungsténio foi publicado em Portugal pela Polvo.

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