Eis o vencedor do prémio Eisner para as categorias melhor série e melhor capa. Os comentários positivos são diversos, criando uma elevada expectativa que foi cumprida visualmente, ainda que a história não faça nada de muito novo. É, em suma, uma banda desenhada de desenho fabuloso, mas com uma componente narrativa mais simples que, apesar de ter gostado de ler, não caracterizaria como excepcional.
A história transporta-nos para uma pequena comunidade puritana, no tempo em que julgamentos a bruxas são comuns, e as mulheres são facilmente consideradas como tal, e queimadas em público. Seguindo a ideologia de que as mulheres são as pecadoras, o seu comportamento é mais austeramente vigiado, usando as mais diversas evidências (aos olhos actuais, idiotas) para acusar e queimar as mulheres, não fosse o diabo tecê-las. Ingrid é a personagem principal. Casada com o homem recto que investiga estes casos, vê-se cada vez mais afastada do marido, pelos difíceis casos que julga. Este afastamento leva-a a sonhos eróticos, considerados pecaminosos.



Mas a história não se centra apenas neste relacionamento disfuncional, mas também nas dinâmicas entre as pessoas daquela comunidade. Não é só Ingrid que está insatisfeita no seu casamento, nem é só Ingrid que é vigiada. O receio de que o diabo interfira com algumas pessoas leva a um controlo religioso constante, mas são nitidamente as mulheres as mais visadas pelas desconfianças e, claro, pelas consequências na fogueira.
Desde o início que percebemos que esta associação ao Diabo assume contornos sexuais, sendo a luxúria reflexo de bruxaria. Ingrid, apesar de ser uma mulher casa, tem pouca ou nenhuma intimidade com o marido, abrindo-se assim os sonhos a explorações mais eróticas que a levam a deambular, sonâmbula, a horas impróprias. A narrativa foca-se bastante nesta vertente, explorando a sedução do Diabo que aproveitaria, em sonhos, esta fragilidade da personagem.



A história é relativamente directa e simples. Ingrid sente o afastamento do marido, fruto das responsabilidades a que tem a cargo. Tenta aproximar-se, mas com pouco sucesso. Já durante o dia, encontra-se frequentemente com uma amiga de infância, mais desinibida e frontal nas suas abordagens. De tal forma que, durante as suas deambulações nocturnas, Ingrid a verá em situação comprometedora. O foco encontra-se em Ingrid durante toda a história, existindo poucos segundos sentidos ou outras interpretações para os acontecimentos.
Já no visual, oscilam-se dois estilos, um mais real e despido de subtilezas, que acompanha a acção do quotidiano de quando Ingrid está acordada; e outro mais suave, sonhador e tentador que corresponde aos sonhos, onde predomina o vermelho, cor do diabo e da sedução. A alternância cria uma maior atracção pelo lado diabólico, o mundo dos desejos carnais onde Ingrid é livre e desejada.



Apesar dos prémios e das várias referências positivas, Somna cativou-me mais pelo desenho do que pela narrativa. As imagens destacam-se pela sua atractividade e a oscilação entre estilos funciona bem para destacar os momentos distintos da narrativa. Já a história pareceu-me demasiado simplista e ainda que os clichés sejam usados porque funcionam, a verdade é que, neste caso, não são combinados com elementos inovadores. A par com esta simplicidade narrativa, as personagens possuem pouco desenvolvimento, contribuindo para que a história em si não se tenha destacado.
