Cenários para histórias fabulosas ou aventuras sem fim, as cidades podem transformar-se elas próprias em personagens. Mais do que meros palcos para a acção, quase apresentam personalidades próprias, com auras que contribuem para a caracterização do ambiente. Deixam de ser meros espaços, e passam a ser peculiares, tão típicas que, mesmo sem as personagens, seriam reconhecíveis e perceptíveis pelo leitor noutras páginas.

Não é por acaso que Ferreira Gullar cria um livro só com Cidades Inventadas, onde algumas são sátiras a políticas e realidades, outras são representativas da evolução e da decadência humana, enquanto outras há que parecem relatos históricos ou explorações, contrapondo com os retratos mais actuais e modernos. Já o Dicionário de Lugares Imaginários prefere referir vários lugares ficcionais, destacando, por vezes, algumas cidades – ainda assim, uma referência de destaque para quem gosta de localizações fantásticas, tratadas como reais.

Há quem prefira a mistura. Pegar num local real, e conceder-lhe contornos fantásticos e surreais, que alteram a realidade para criar uma nova cidade, de carisma estranho e contornos alienígenas. É o caso de Dormir com Lisboa, de Fausta Cardoso Pereira, onde a cidade de Lisboa se transforma na personagem principal, exercendo a sua vontade sobre os habitantes e visitantes, expressando-se, por vezes de forma imperceptível. A cidade assume a sua pluralidade, reflectindo a diversidade dos habitantes e dos locais, as suas raízes, construídas e desenvolvidas ao longo dos tempos, uma composição de retalhes diversos que resultam numa autenticidade urbana.

Apesar de ser mais tratada num circulo mais caseiro, ou seja, por escritores nacionais, Lisboa volta a ser palco de transformações fantásticas em Lisboa no Ano 2000 e em Lisboa Oculta, ambas antologias. Lisboa no ano 2000 (organizada pelo João Barreiros) é uma uma antologia de contos retrofuturistas que decorrem numa cidade que nunca existiu, a cidade de Lisboa como era imaginada há cem anos por escritores, jornalistas, cientistas e pensadores – com zepelins e torres tesla que distribuem a alectricidade. Já em Lisboa Oculta se apresenta um guia da cidade, concedendo contornos fantásticos a locais históricos.

Passando para as publicações em língua inglesa, não é de estranhar que Londres seja visada em várias obras, por diversos autores. Em Neverwhere, de Neil Gaiman, existem várias cidades fantásticas paralelas que se escondem sob a cidade real que conhecemos. É uma leitura que nos leva por um espelho dos elementos londrinos onde encontramos mercados flutuantes, estações abandonadas e labirintos. Recentemente, foi lançado em Portugal Rios de Londres de Ben Aaronovitch, livro que ainda não tive oportunidade de ler, mas que teoricamente apresenta rios personificados como divindades.

Neverwhere

China Miéville é outro dos autores que resolve brincar com Londres, com o livro Un Lun Dun, onde uma cidade paralela fantástica se liga a Londres, formada por objectos descartados, estruturas alteradas e fenómenos estranhos, e onde a lógica da nossa realidade não se aplica. Não é o único livro em que o autor explora as cidades. Em The City & The City desenvolve Beszel e Ul Qoma, duas cidades que coexistam espacialmente mas com idiomas, costumes e economias distintas, separadas por um fenómeno difícil de explicar designado como “The Breach” – uma entidade que supervisiona e garante a separação das duas cidades (excepto em pontos chave, neutros), castigando aqueles que quebram as regras e por mais do que segundos, interajam com algo que pertença à outra cidade sobreposta.

Já Michal Ajavaz sobrepõe a cidade de Praga, em The Other City, com uma cidade imaginária. Na cidade real descobrem-se livros repletos de outro dialecto, os monstros da infância são encontrados nos fundos dos nossos quartos e pessoas são raptadas para só voltarem a ser vistas através de reflexos. A cidade oculta esconde maravilhas mas também feitos perversos e horripilantes.

Perdido Street Station – arte de Jiri Horacek

Passando os limites da realidade e entrando na construção de cidades hipotéticas, encontramos New Crobuzon, a cidade-estado da série com o mesmo nome, construída por China Miéville, onde se destaca Perdido Street Station, que dá título a um dos volumes. Trata-se de uma cidade decadente, onde várias espécies se misturam (entre elas humanos, pessoas-cacto ou pessoas-sapo). O autor não constrói apenas uma cidade, mas uma história, um passado que justifica a sua evolução e a sua organização actual, onde se destacam a Guerra com os piratas. Existe até uma página dedicada a explicar o governo, a história e a demografia de New Crobuzon.

Outro exemplo clássico nas cidades fantásticas emblemáticas pode ser encontrado na série Viriconium de M. John Harrison, que recebe, também, o nome da cidade onde decorre a história. A cidade encontrar-se-à numa Terra futura, onde a cidade apresenta restos milenares de tecnologias passadas. A série desenvolve-se com contornos de ficção científica e fantasia.

OldQuarter
City of Stairs pelo artista John Peterson

Ambergris é outra das cidades fantásticas memoráveis, palco dos livros City of Saints and Madmen, Shriek e Finch de Jeff Vandermeer (sendo que parte do primeiro livro foi lançado há alguns anos pela Livros de Areia como A transformação de Martin Lake & Outras histórias). A cidade terá sido abandonada pelos seus habitantes originais que desapareceram de forma misteriosa, uma espécie de humanóides cogumelos, e populada posteriormente por humanos. Mas os habitantes originais não desapareceram totalmente e estranhos fenómenos envolvendo hifas e esporos assombram a cidade.

Em City of Stairs, de Robert Jackson Bennett encontramos duas civilizações, uma que se desenvolveu pela tecnologia e outra pelo poder dos deuses. Mas quando os Deuses morrem, as suas construções desaparecem com eles, deixando a cidade de Bulikov parcialmente destruída. Os edifícios que restam encontram-se incompletos, quebrados ou deformados, existindo escadarias que levam a lado nenhum, portas suspensas e estruturas de acesso impossível.

E é impossível não falar de cidades fantásticas sem falar de Ankh-Morpork, a cidade mais caótica imaginável, onde decorre alguma da acção da série Discworld de Terry Pratchett. Aqui encontramos uma cidade multicultural de capitalismo agressivo, multiculturalismo pragmático e guildas legalizadas de ladrões. Claro, uma forma de exagerar a realidade e de a tornar cómica.

Para terminar, recomendo o livro Cities, focado nas cidades de China Miéville, Jeff Vandermeer ou Michael Morcock, entre outros.