Suburbicon

Um filme sossegado. Pensava eu, levada, ao engano, pelo trailler a auspiciar um leve tom de comédia negra. Entenda-se. O tom é de comédia negra mas, no geral, não se trata de um filme leve. O cenário é idílico, quase jocoso na forma como reflecte a perfeição americana, com famílias bem bestidas e arranjadas, aparentemente no auge da educação e do bem estar, de penteados imóveis e sorrisos estampados.

Em tal comunidade não é de estranhar que os novos vizinhos sejam recebidos com tartes caseiras. Mas nem todos. Quando se apercebem que os novos moradores da cidade são afro-americanos instala-se o caos, as mulheres cochicham e os homens organizam-se. Todas as noites dezenas de moradores juntam-se em redor da casa e manifestam o seu desagrado para com os novos moradores.

Na rádio e na televisão passam discursos que instigam à segregação racial, apelidando as pessoas de raça negra como selvagens incapazes de se adaptarem ao mundo civilizado. E, no entanto, sem que quase ninguém da comunidade consiga aperceber-se, a família afro-americana reúne as pessoas mais estáveis e bem educadas.

Esta é, apenas, a história secundária, mas que marca o contraste com a da família vizinha, a quase perfeita família americana – uma perfeição prestes a estalar. A revolta na família idílica começa quando são assaltados durante a noite. Os assaltantes amarram e aplicam soporífero em todos os moradores, aplicação que corre mal com a mãe, uma pessoa mais frágil que se encontra na cadeira de rodas.

Após o funeral, a mãe é substituída pela irmã, de forma demasiado suave – tão suave que levanta suspeitas. E não só em que vê o filme. O agente dos seguros pensa que o caso se pode tratar de um embuste e ronda os habitantes da casa. Paralelamente, os assaltantes visitam o pai de família. A tensão acumula-se e as pessoas descontrolam-se, numa sucessão de episódios cada vez mais violentos e, por isso, absurdos.

Tocando no tema do racismo que permanece, anos após o fim da escravidão, Suburbicon é um filme que contrasta as duas famílias, mostrando a forma como a comunidade se revolta contra uma pacífica família afro-americana, ignorando os membros preversos da sua comunidade que considera perfeitos por terem a aparência que aprenderam a considerar dentro dos parâmetros da normalidade.

Não sendo um mau filme, é longe de ser um filme perfeito. O contraste que possibilita o exacerbar da imagem das duas famílias é, também, o elemento que provoca dois tons distintos no filme e leva a algumas incoerências narrativas que, não sendo excessivas, provocam algum afastamento do filme.

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