O Último Europeu – Miguel Real

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Entre os Baldios chefiados por clãs guerreiros, subsiste na Europa um pequeno território isolado onde se vive numa espécie de Paraíso. Até Quando?

Assim nos é apresentada Nova Europa, um pequeno território europeu, isolado à custa de tecnologia bastante avançada, invejados pela Grande Ásia, império de crescimento exponencial que procura espaço para se alargar. Contrastando com os grupos de bárbaros com origem nas empresas multinacionais de governo familiar, a Nova Europeu resultou da organização de vários cidadãos mais iluminados, estudados e evoluídos tanto tecnológica como ideologicamente.

Libertando-se das condicionantes orgânicas do nosso corpo, como o parto ou a alimentação sólida, os seres humanos da Nova Europa encontram-se ligados ao Grande Cérebro Electrónico, que com todos comunica. A palavra chave é liberdade. A palavra trabalho foi abolida e substituída por ocupações que cada um escolhe a seu belo prazer, intercalando-as com intuito de realização pessoal. Distracções e experiências perigosas – tudo permitido, nem que seja na realidade virtual a que têm acesso, e que lhes grava as memórias da experiência como sendo reais.

Mas será esta realmente a descrição de uma Utopia? Os seres humanos da Nova Europa deixaram a sua individualidade para se tornarem colectivos – sem nome e sem data de nascimento, todos festejam os aniversários no mesmo dia, uma união que tem como propósito a criação de um colectivo de objectivo comum, o atingir de uma perfeição etérea em que todos participam, sem vaidades ou arrogâncias. Estabilidade, realização pessoal e conjunta, evolução e investigação.

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Centrando-se na divisão igualitária e utilitária dos recursos, bem como na liberdade de agregação que origina os mais diversos modelos familiares, a vida na Nova Europa decorre, prolongada e despreocupada, em isolamento quase total das restantes civilizações. Até ao ataque da Grande Ásia. Apesar de se encontrar em território vantajoso, esta civilização é inocente no que diz respeito a técnicas de defesa pessoal ou a planos militares, centrando a sua protecção nos escudos protectores alimentados por uma fonte inesgotável de energia. Quando a Grande Ásia consegue desligar o acesso à energia a Nova Europa fica totalmente indefesa.

Quem conta a história é o Reitor, epíteto pelo qual é reconhecido, em prol dos conhecimentos que tem de história e linguística. Escolhido por esse motivo para escrever um livro que retrate toda a magnificência da sua civilização, isola-se num edifício que, embora estanque, lhe permite assistir aos saques dos povos bárbaros europeus que chegam antes da invasão asiática propriamente dita. Tendo eliminado quaisquer instintos de luta e sobrevivência, os habitantes da Nova Europa não se organizam para fazer frente aos Bárbaros, antes se escondem ou fogem.

Utopia ou Distopia? A forma como é descrita uma sociedade resume-se ao ponto de vista de quem a descreve, bastando que alguém se sinta oprimido para que se possa designar como distopia. Neste sentido, a Nova Europa é, para os seus habitantes, uma clara Utopia. Mas do ponto de vista de quem a lê, pode ser considerada uma distopia. Percebe-se a forma como se contornam os ímpetos animais e se diminuem as desavenças, mas nesta sociedade não há lugar a paixões desenfreadas, origem de desacatos mas também de evolução artística e intelectual. As pessoas de Nova Europa são estáveis, inteligentes e racionais, de uma forma tão completa e superior que nos é estranha e talvez, até, aversiva.

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E não se assustem com o índice. Apesar de se alongar nalguns detalhes sobre a evolução social e história das várias sociedades (Nova Europa, Grande Ásia e Império Americano) estes detalhes seguem-se logicamente, sem separação estanque entre eles, no seguimento do êxodo que leva os homens de Nova Europa aos Açores, constituindo uma dissertação hipotética interessante, mesmo não concordando com algumas das relações causa-efeito, ou com a inocência de alguns episódios (que o autor justifica).

Apesar das grandes utopias / distopias constituírem um tema bastante explorado na literatura internacional, não me recordo da existência de muitos livros portugueses onde tal temática seja explorada de forma tão completa e detalhada, constituindo, por esse motivo, uma leitura surpreendente e aconselhável para quem gosta do tema. Não esperem, no entanto, uma leitura rápida e carregada de acção, pois a exploração das várias vertentes desta civilização vai sendo explorada e reiterada num tom lento, mas de fácil compreensão.

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