Paracuellos – Vol. 7 – Carlos Giménez

Esta edição, dedicada apenas ao sétimo volume (por oposição do volume que li anteriormente que reúne num formato reduzido os primeiros números de Paracuellos), reconta de forma mais longa alguns dos episódios anteriores – mostrando, agora, uma versão mais próxima das crianças e demonstrando como se relacionavam.

Para quem não conhece, em Paracuellos, o autor conta história que decorreram nos colégios internos públicos, algumas das quais são auto-biográficas. Outras centram-se em episódios contados por amigos, em instituições semelhantes àquelas em que o autor passou a infância. A maioria das histórias são pesadas, tanto pelas circunstâncias familiares que levam as crianças às instituições, como pela forma como são tratados – intensos castigos corporais, desumanidade e idiotice.

Este volume começa com o episódio em que duas crianças poupam dinheiro para comprar uma colecção de banda desenhada, muito popular entre elas. Saltando lanches, vendendo objectivos e trocando favores, a dupla reúne lentamente o necessário para comprar os livros. Enquanto que, num volume anterior, sabemos o que vai acontecer à colecção, aqui explora-se o relacionamento entre os dois amigos quando, finalmente, chegam os livros.

Pelo meio, ficamos a saber como era racionada a água entre as crianças (facto já explorado de outra forma, em que se demonstra como os meninos tentavam obter água), como era passada a sesta, e alguns dos castigos sem sentido que eram impostos (a par com uma intensa religiosidade que se traduz em usar rezas como forma de ultrapassar qualquer coisa sem solução).

A segunda história deste volume centra-se na comunicação entre diferentes instituições, sobretudo quando irmãos de idades muito diferentes acabavam distantes – através das idas aos centros de saúde (ou equivalentes) onde se passavam cartas e recados. Anualmente, existia, também, um evento de ginástica que permitia algum curto convívio.

A terceira apresenta a infindável hora da sesta, após o almoço em que as crianças eram mantidas quietas, e os adultos que vigiam arranjavam formas de se entreterem – como atirarem bolas contras os miúdos. Quando uma destas bolas sai disparada pela janela, um dos meninos é obrigado a ir buscá-la, embrenhando-se na floresta para a encontrar. O seu caminho só parará no mar.

Na última história deste conjunto, os rapazes resolvem fazer uma revista, angariando produtores de conteúdo pela escola. Escolhem-se os que melhor desenham e os que melhor pintam – mas no meio deste conjunto um rapaz descobrirá algo que o irá marcar.

Comparando com as primeiras histórias, denota-se uma grande evolução. As primeiras, mais cruas e mais pesadas na forma como se apresentam, retratam uma dura realidade onde a pancada e a desilusão é constante. Existe pouco espaço para a interacção entre as personagens. Alguns dos elementos existentes neste volume já tinham sido referidos noutras histórias – mas aqui são explorados de forma diferente, dando-se destaque à interacção entre as crianças, e, adicionalmente, entre escolas.

Paracuellos é o retrato de uma época e a visão das crianças é apenas uma consequência. Passa-se fome e a tuberculose atira vários adultos para os sanatórios deixando as crianças desamparadas. Estas, as crianças, são tratadas quase como adultos, espancadas por tudo e por nada, obrigadas a passar fome e sede e sem acesso a cuidados básicos de saúde. Ou melhor, até têm acesso a uma enfermeira, mas o cargo por cunha que lhe é dado significa, na prática, que mais valia não terem acesso.

Persiste uma religiosidade cega que se pretende manter como resposta para a miséria. Esta é visível na forma como os rapazes são obrigados a rezar a todas as horas, sobretudo quando enfrentam alguma adversidade. Não se pretende, realmente, educar ou formar. Existem aulas, mas as leituras estão proibidas. Estes rapazes são vistos como a classe mais baixa da sociedade e não são minimamente incentivados a evoluir para além das suas origens.

A existência destas crianças é, portanto, o reflexo da sua época, mas também, da ditadura franquista que existia, na época, em Espanha. O nacionalismo e a religiosidade fazem parte do crescimento destes rapazes, bem como a opressão e a pobreza.

Este volume, numa edição bastante melhor do que a do album que tinha lido anteriormente (apesar de ter uma boa relação custo / benefício) é um retrato mais próximo das crianças e, nesse sentido, mais envolvente.

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