New York Cannibals – Boucq e Charyn

Para mim, o nome de Boucq está sempre associado a Bouncer (em parceria com Jodorowsky) mas o autor também é reconhecido por outras obras como Boca do Diabo. Neste caso, New York Cannibals será um livro no mesmo Universo ficcional de Little Tulip, decorrendo 20 anos depois das ocorrências relatadas neste último. Apesar desta relação narrativa, este volume pode ser lido independentemente, sem falha na compreensão da história – até porque, pelo que percebi, o foco narrativo é outro.

New York Cannibals começa por nos mostrar uma jovem polícia, Azami, com um cabedal impressionante! As suas capacidades musculares, demonstradas no ginásio impressionam qualquer um. Mas este desenvolvimento muscular não se deve apenas a causas naturais e os esteróides que toma estarão a afectar as funções reprodutoras e a afastar Azami do sonho de ser mãe.

Paralelamente, conhecemos um velho tatuador que, para além de ter cuidado de Azami gere um pequeno negócio onde pinta, na pele, as suas obras primas. De origem russa, este homem será assombrado pelos pesadelos que pensava ter deixado para trás – uma amante desaparecida, canibais insaciáveis e uma implacável rede mafiosa.

Apesar de ter sido impedida de ter filhos por causas naturais, as circunstâncias parecem estar a favor de Azami quando encontra, num beco, um bebé abandonado. Com este bebé desenrola-se uma luta de interesses, em que diferentes redes mafiosas cruzam objectivos. O resultado é, como seria de esperar, violento.

A história é violenta e cortante. De episódio em episódio revela-se o pior lado dos seres humanos, com tráfico de seres humanos, assassinatos, máfias e, claro, canibais. Nova Iorque é uma selva urbana retratada de forma dura e intensa, onde alguns (muito poucos) se apresentam como uma réstia de esperança na humanidade – lutando não só pelo que é justo, mas também para proteger os seus.

Para além desta componente, a história tem outros pontos interessantes do ponto de vista narrativo. Azami é uma personagem dúbia, apresentando características que estamos habituados a considerar como femininas ou como masculinas. O culto do corpo (e dos músculos) levam-na à fronteira do que socialmente é reconhecido como feminino, deixando de ser fértil.

Estas características são contrastantes com as restantes mulheres da história, em sentidos opostos: uma mãe adoptiva que cuida de vários bebés, uma femme fatale venenosa, uma mulher que apresenta características fisicamente semelhantes às de Azami mas que possui princípios opostos. Na prática, várias formas de ser mulher, nenhuma correspondendo ao estereotipo da perfeição mas que, por contraste, ajudam a definir Azami e demonstram que há muito mais para além da aparência. Aliás, perfeição é algo de que esta história se afasta.

No sentido oposto, Azami é, também, contrastada com um homem que deambula pelas ruas, graças ao esforço dos braços dado que não possui pernas. O duo interage com pequenos comentários provocatórios de uma longa amizade, espelhando alguma rivalidade saudável e companheirismo – um confronto de duas personagens que podem ser consideradas metade homem, pelo menos à vista de quem considere que o culturismo é masculino. O que não deixa de ser um ponto de vista peculiar.

Outro dos temas em destaque é a migração. Pavel, o pai adoptivo de Azami vem da Rússia e há muito que adoptou os costumes locais, esquecendo (ou tentando esquecer) um passado doentio: um amor perdido e os horrores do Gulag. Infelizmente, o passado apanha-o, sob a forma de vários fantasmas que já não deviam existir, e Pavel é forçado a fazer uma escolha entre a da memória (e da imaginação do que poderia ter sido uma vida perfeita) e a tentativa de tornar realidade alguns dos seus sonhos.

Entre máfias e passados, toca-se na realidade do tráfico de pessoas, mais propriamente de mulheres, tornadas parideiras de crianças para adopção. Trata-se de um ciclo vicioso, associado a outros negócios ilegais, que torna as mulheres escravas, mas que serve para responder a uma necessidade do mercado – e há quem pague muito dinheiro por uma criança.

O resultado é excelente. Tanto do ponto de vista narrativo como visual. A história é forte e emotiva, envolvendo alguns detalhes esotéricos que dão a impressão de uma mitologia – nada que seja necessário explicar em detalhe, mas que fornece uma aura de maldade e de bondade. Sem dúvida uma grande leitura que fortalece a minha vontade de ver editado o volume anterior (Little Tulip) e porque não o volume seguinte, dado que o autor falou da possibilidade de construir uma terceira história a decorrer 15 anos mais tarde? (em dBD, Setembro 2020).

New York Cannibals foi publicado em Portugal pela Ala dos Livros.

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