Dead AStronauts – Jeff Vandermeer

Dead Astronauts é o segundo volume que decorre num planeta Terra em vias de se tornar pós-humano. No primeiro, Borne, é-nos apresentado um mundo onde uma poderosa Companhia introduziu, consciente ou acidentalmente, uma série de bioconstructos capazes de mimetizar o que é natural, mas, também, capazes de pensamentos, sem que estes estejam alinhados a uma consciência ou empatia.

Depreendemos que esta Companhia desenvolveria novos seres, recorrendo a nanotecnologia ou a modificações genéticas, numa série de experiências frankensteinianas, sem ética, e tendo apenas como intuito ganhar poder sobre tudo o que os rodeia. Mas um dia as criações ultrapassam os seus criadores e o Mundo que resulta é uma imitação do que já foi, uma camuflagem de ingenuidade que, rapidamente, se transforma num monstro capazes de engolir outras consciências.

Neste volume a narrativa centra-se em três figuras que terão aparecido no primeiro volume, descrevendo as suas existências e as suas origens – mas como os próprios se recordariam, utilizando memórias soltas, pensamentos e saltos temporais. Estas três figuras, talvez outrora humanas, já ultrapassaram há muito os limites da humanidade e trabalham agora sob o jugo da Companhia. Mesmo se esta deixar de existir.

Imagem da edição limitada da Subterranean Press

Personagem a personagem, vamos encontrando traços humanos nestas figuras – seja porque assim foram construídos, seja porque já foram humanos. As memórias, perdidas e desenquadradas, por vezes repetidas com leves alterações, levam-nos a construir uma ideia do mundo que os originou e uma ideia daquilo em que se tornou. Da mesma forma, estas três entidades existem e não existem, simultaneamente, em vários tempos e espaços. A sua perceção é-nos, assim, transmitida num formato confuso e difuso, por vezes, demente. 

Para além das três entidades que são, na prática, os Dead Astronauts, a narrativa explora, também, outras figuras que foram apresentadas em Borne, demonstrando como foram construídos e desenvolvidos. Cada componente é exposta sem explicações, apenas com exposições, levando cada leitor a construir a sua própria ideia daquele mundo.

Art by Kayla Harren
https://weirdfictionreview.com/2017/05/borne-artwork/kaylaharren-desertastronaut/

Esta é, portanto, uma leitura difícil. Bastante mais difícil que Borne. Mas também é uma experiência singular, que nos disseca a mente de uma série de bioconstructos. Dead Astronauts encontra-se, portanto, num dos expoentes do New Weird, tanto pelos elementos estranhos, como pela forma como estes são introduzidos na narrativa, ou pela peculiar perspectiva e exposição que nos levam a experimentar a estranheza daquelas criaturas.

No final, até gostei de Dead Astronauts. Seja por conta da empatia que senti de Borne, seja pela experiência de leitura que proporciona. É, no entanto, uma leitura que deve ser explorada com calma. Para quem gostou do primeiro volume, este apresenta elementos interessantes sobre o mundo e sobre as personagens, justificando alguns detalhes. É, sem dúvida, uma grande leitura, mas que não será para todos os leitores – quer pela estrutura narrativa, quer pelo conteúdo. 

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