Nomeado para o prémio Nebula e vencedor dos prémios Nommo e Ignyte, tinha grandes expectativas para esta novela de ficção científica. Ainda que o início tenha agradado, achei que a progressão descarrilou, quer do ponto de vista temático, quer no desenvolvimento de personagens.
A história começa por nos apresentar um futuro onde o nível das águas subiu de tal forma que a humanidade sobrevive em enormes torres, sendo que a parte inferior está submersa. As torres foram inicialmente construídas para albergar os mais abastados, mas com a adaptação às novas condições, acabaram por acolher várias pessoas, havendo uma divisão de classes conforme os níveis ocupados. Claro que os níveis que não estão submersos correspondem às classes mais elevadas, e os níveis submersos são populados pelos mais pobres.
A diferença de condições económicas resulta, também, em diferenças na organização, havendo, ao invés de polícia, um género de milícia popular que garante a ordem, nos níveis inferiores. A acção decorre perto da costa africana, havendo referências a gerações anteriores, antes da subida das águas e da forma como os territórios estariam a ser geridos entre os ricos e pobres. Estas diferenças, antes e depois irão ser uma constante na história.
Yekini é uma das personagens principais. Analista ligada à administração da torre, descendente de alguém que foi sorteado com a subida para um nível superior, é seleccionada para uma missão no terreno, tendo de se dirigir a um dos níveis inferiores para endereçar um alerta que deveria ser simples. Mas já no piso, com o suporte de outros dois responsáveis mais experientes, percebem que a realidade está longe de ser simples, e que foram invadidos por uma entidade de uma espécie submarina que recordará os humanóides. A partir daqui gera-se uma missão de sobrevivência, tanto pela busca da entidade, como pela comunicação com os pisos superiores da devida urgência em curso.
O que se iniciou como uma história de ficção científica apocalíptica com elementos interessantes e uma linha temporal fascinante, transforma-se, muito rapidamente, numa história de contornos sobrenaturais místicos que, a meu ver eram desnecessários. A primeira parte do livro apresenta contornos políticos onde a vida humana tem diferente valor de acordo com o nível onde reside, explorando a subida das águas e as decisões governamentais que foram tomadas. Noutro nível, explora, também, o aparecimento de criaturas marinhas humanóides que parecem estar em guerra com os humanos das torres.
Sem querer estragar com detalhes desnecessários, depois deste belíssimo enquadramento, a história resvala para uma sucessão de episódios de acção e tensão algo disconexos e incoerentes, onde é dado um significado místico e sobrenatural a vários dos acontecimentos, mudando o tom inicial. Do ponto de vista das personagens, estas parecem, também, simplesmente arrastada para uma demanda, sem que tenha existido caracterização que justificasse algumas das decisões e reacções.
Em suma, Lost Ark Dreaming apresenta um conceito fascinante num mundo transformado pelas alterações climáticas, e larga o centralismo em populações de origem ocidental, passando-se na costa africana e apresentando, portanto, diferenças na abordagem histórica e política. Infelizmente, a solução que encontrou para resolver o conflito é demasiado fantástica para o meu gosto, entrando num campo bastante diferente da ficção científica, padrão inicial da história.
