O Jardim, Paris é um dos mais recentes lançamentos da editora Arte de Autor, tendo-o lido assim que o recebi, mas sem grandes expectativas ou ideias do que seria.

A história leva-nos aos anos 20, ao cabaret Jardim, um espaço gerido por uma mulher e onde todas as artistas usam nomes de flores. Rose é um jovem que cresceu neste cabaret, vestindo-se, por vezes, de mulher, e sonhando em subir ao palco e, tal como as restantes habitantes de Jardim, dançar A história inicia-se com a primeira noite em que sobe ao palco, sendo que não só assistimos ao seu sucesso, como à captação do seu primeiro fã.

Tendo crescido em Jardim, Rose aparece liberto de preconceitos de género, e apesar de ser confrontado com o julgamento social, consegue manter-se liberto do seu peso. Em paralelo, experiencia, nalgumas das suas saídas, o assédio que sofrem algumas mulheres, que se torna mais uma forma de exercer poder e controlo do que exactamente sedução. Mas ainda assim, Rose mantém-se, fiel a si mesmo, crescendo e captando novos públicos, sobretudo quando se torna famoso no seguimento de uma entrevista jornalística – episódio que o fará duvidar das motivações da dança, mas que, a seu tempo, serão as sementes para novo crescimento.

Apesar do preconceito que existe para as dançarinas de cabaret, o Jardim funciona como um espaço seguro. Ainda que dancem para o público, sobretudo masculino, protegem-se de atenções indevidas fora do palco. A sua actividade desafia o papel tradicional da mulher, mas em Jardim parecem encontrar um espaço onde podem expressar a sua criatividade, obtendo reconhecimento e, até, sentimento de pertença entre as restantes bailarinas.

O espaço de Jardim contrasta com a sociedade, onde os papéis de género se encontram bem demarcados, havendo expectativas na forma de vestir e de agir, sendo que quem foge deste padrão é rapidamente rejeitado. A oposição dos dois mundos, e as consequências (boas e más) do seu confronto são, claro, o que motivam o desenvolvimento da narrativa. Apesar deste confronto, a história é relativamente linear, desenvolvendo-se com relativa pouca tensão.

O Jardim, Paris destaca-se sobretudo pela beleza do visual que usa o tema a seu proveito, e pela personagens que desenvolve. Em termos visuais, a beleza expressa-se pelas performances das bailarinas e pelo espaço do cabaret que é mais restrito, onde um belíssimo jardim foi criado e mantido. Já as personagens, sobretudo as principais, são sobretudo bem formadas, estabelecendo relacionamentos construtivos que permitem criar o tal ambiente amigável e protegido que existe no cabaret.

O resultado é uma leitura agradável com a qual se simpatiza, havendo sempre o receio de resvalar para um conflito mais intenso pela quebra de padrões sociais, mas consegue desenvolver-se sem chegar ao cliché expectável. Jardim, Paris é, assim, uma leitura que pode ser considerada como aconchegante, dentro do sub-género que tem conquistado vários géneros literários.