A Enciclopédia da Estória Universal iniciou-se com um pequeno volume publicado pela Quetzal há uns 12 anos. Este pequeno volume isolado haveria de ser referido em listas internacionais de melhores livros de ficção especulativa do ano e diria que tornou o autor conhecido. A partir deste pequeno volume, surgiu uma colecção inteira de Enciclopédia da Estória Universal, com um lançamento recorrente de livros, uns melhores do que outros, uns mais fiéis ao original do que outros. Confesso que, nalguns, parecia até que as histórias eram atiradas, mais soltas e com menos conteúdo do que as originais, parecendo estar lá antes para encher algum do espaço.

Bem, após algum tempo sem publicar novos volumes da Enciclopédia da Estória Universal, eis que o autor regressa com dois novos volumes. Este é um deles, denominado Deuses e Afins, e eis que começa muito bem com um episódio de meta ficção em que as personagens se apercebem, elas mesmas, que fazem parte da um enredo criminal literário. A este episódio segue-se outro, uma conversa entre Gunnar Helveg (uma personagem de Para Onde vão os Guarda-chuvas) e Theóphile Morel (que não deixa de me recordar o livro Invenção de Morel) em que se fala de inteligência artificial e tradução, sendo que a inteligência artificial, ao invés de produzir resultados certos, erra sempre e precisa de ser interpretada.

Seguem-se textos que falam da relação da comida com a divindade, numa série de analogias e metáforas:

«Por isso, há inúmeros opiniões sobre Deus, bem como religiões, porque se baseiam na comida e em quem a serve e não em quem a cria»

Entre actores que se esqueceram da sua condição anterior, dissertações sobre transformação de energia emocional em energia eléctrica, encontramos um museu com objectos peculiares. Por detrás de cada objecto está uma história curiosa, que o autor explora.

Neste livro, denominado de Deuses e afins, fala-se de Deus, mas também de consciência (seja ela artificial ou biológica), de memória e, claro, de crença – essa coisa que, nos momentos de aflição, faz diminuir o número de ateus. Como outros volumes, é um livro de textos que se vão interligando, entre eles, e com outros textos do autor noutros dos seus livros. Sem ser o meu preferido do conjunto, gostei de rever o estilo de Afonso Cruz na Enciclopédia.