Eis algo que tem um aspecto bastante lamechas, com alusão a princesas e capas cor-de-rosa. E sim, posso comprovar que o conteúdo combina. Parcialmente. A história tem princesas e reinos encantados. Mas também ironiza os tradicionais contos de princesas, com episódios de humor negro, uma comicidade estranha e por vezes desajeitada, que surpreende e cria interesse para além da história simples que nos é contada.

O rei tem quatro filhos: três princesas e um príncipe. As duas princesas mais velhas são lindíssimas. Já a mais nova, Gwendolyn, tem um aspecto menos interessante, até encarquilhada. O filho, apreciador gastronómico de aspecto andrógeno, apresenta, também, uma beleza despreocupada. A rainha não aparece. Desconhecemos o que lhe aconteceu. Talvez por isso o rei seja extra protector das suas meninas, e apesar do relacionamento amigável todas estão proibidas de sair do castelo e mesmo os soldados estão proibidos de olhar para as suas caras.

Quando o rei do reino vizinho se aproxima com três filhos pretendentes parece a oportunidade perfeita para as casar e melhorar a estabilidade e o relacionamento entre os dois reinos. Os príncipes correspondem aos ideais de beleza e quando aparecem apreciam as respectivas princesas. Excepto o mais novo. Levado ao engano por um retrato onde aparecia também o filho do rei, assusta-se com o aspecto de Gwendolyn. No entanto a educação reina, e Gwen há-de saber deste desinteresse apenas ao escutar por engano uma conversa. Este conhecimento leva-a a fugir do palácio, acabando por se refugir numa mansão de aspecto assustador onde decorre o clube das princesas amaldiçoadas.

Apesar do cliché das princesas prometidas aos príncipes do reino vizinho, a história afasta-se desta perfeição com Gwen, uma óptima cozinheira, mas de aspecto estranho, que é adorada pelos familiares e pelas novas amigas caricatas. O clube das princesas amaldiçoadas tem, como o nome indica, princesas, mas os seus comportamentos e aspectos são muito pouco tradicionais. São sobretudo princesas a quem os respectivos contos se desviaram do percurso feliz, e as maldições a que foram submetidas permanecem, mesmo que parcialmente. Não correspondendo, portanto, aos ideais, encontram no clube um espaço seguro de partilha e diversão.

A narrativa está carregada de pequenas tiradas cómicas. O rei é ultra protector em relação às suas filhas, e mesmo quando combina os possíveis casamentos, começa a apresentar reticências quando vê a normal interacção com os príncipes. As princesas possuem as mais variadas mazelas, que lhes conferem características dignas até de um episódio de horror, aqui aligeirados em tiradas irónicas e inteligentes. Ainda que as duas princesas mais velhas correspondam ao cliché esperado de adolescentes com as hormonas aos saltos, as suas características são exageradas, e não fazendo parte do foco narrativo, acabam por constituir mais um dos elementos cómicos.

Clube das princesas amaldiçoadas acaba por ser uma leitura surpreendentemente leve e divertida que usa os clichés dos contos de princesas felizes para lhes dar uma nova abordagem. Apesar do expectável aspecto cor-de-rosa, apresenta também episódios mais sombrios e inteligentes, que são um agradável contraste com as histórias mais tradicionais.