
Eis uma série de banda desenhada fantástica que está na minha lista de desejos há muito tempo. Estava, inclusivé, a equacionar adquirir a versão espanhola. Felizmente, foi, entretanto, lançada em Português, a versão integral pela Arte de Autor. Este volume possui dois arcos narrativos e deverá ser lançado um segundo volume este ano.
A história leva-nos a um mundo fantástico, focando-se numa jovem rapariga, órfã de pai. A mãe, numa posição política fragilizada, é acolhida pelo irmão do pai, havendo uma solução óbvia que é casar-se com o tio. Rapidamente suspeitamos que o tio não tem as melhores intenções – não só pela forma misteriosa como age em relação ao seu sangue, mas pela fisionomia que encaixa no estereótipo de maléficos. Este casamento irá dar espaço à rapariga para cumprir os seus desígnios, levantando um exército, e provando ser a sucessora do seu pai. Esta não será o único arco narrativo neste volume, mostrando-se posteriormente como a jovem se deixará enfeitiçar e deverá ultrapassar novamente as forças maléficas que existem no território.



Fabulas das Terras Perdidas tem desenvolvimento e execução clássicos no género fantástico de espaças e bruxarias, principalmente na primeira história. Sioban, a princesa que se eleva, cumpre o papel de escolhida, encontrando o caminho do que é correcto, entre as pressões familiares e as manipulações que a rodeiam. Esta componente, de contornos mais tradicionais, possuem elementos mágicos pouco explicados, mas aceites, principalmente por estarem associados à sua herança e ligação à entidade paternal desaparecida.
Em contrapartida, a figura masculina que iria substituir o pai, uma espécie de Rainha da Branca de Neve, estará aliado aos mais perigosos inimigos da família. Ainda que tente transmitir uma imagem complacente, em privacidade, envolverá a mãe de Sioban em estranhos rituais, pouco detalhados na história.



O segundo ciclo adquiri contornos menos clássicos em tema e desenvolvimento, ainda que consiga, de alguma forma, transmitir detalhes mais negros. Fioban está mais crescida e agora é ela, e não a mãe, que se vê enfeitiçada e envolvida num esquema para posse do poder através de bruxarias. Menos tradicional, esta história quebra a inocência de Fioban, e fá-la confrontar-se com a sua própria corrupção.
A par com os contornos mais negros das forças maléficas, encontramos alguns elementos cómicos, encarnados, sobretudo, sob a forma de um animal de estimação que está sempre envolvido em peripécias, sobretudo na cozinha. Não é de estranhar, portanto, que o cozinheiro pareça odiar o animal, perseguindo-o em vários episódios engraçados que servem para aligeirar o ambiente narrativo.



O desenho, a cargo de Rosinski é, tal como o que realizou em Thorgal, de excelente qualidade, carregado de detalhes quer nas personagens, quer nas paisagens, destacando-se aqui nos ambientes mais bélicos. As cores vão oscilando, apresentando tons pastel sobretudo na visualização das paisagens abertas, mas assumindo progressivamente tons mais negros e pesados, sobretudo com a revelação dos vilões a Fioban. Neste sentido, a segunda história apresenta-se bastante mais carregada.
Fábulas das terras perdidas é um volume clássico de banda desenhada fantástica que se revela, como esperado, uma leitura extraordinária. A primeira história apresenta contornos mais clássicos, o que significa que corresponde mais às expectativas e deixa um maior sentido de completude. Ainda assim, a segunda história surpreende pelos detalhes mais negros que a tornam menos fechada em si, mas que proporcionam perspectivas mais maduras.



