O nome de João Ventura é dos mais conhecidos no meio da ficção especulativa portuguesa. Autor presente em várias antologias, sobretudo nacionais, mas também internacionais (como brasileiras), tem uma primeira colectânea de contos com o título Tudo isto existe, lançada por volta de 2018 que se destaca por conter histórias de composição elegante que usam o mínimo de palavras. Não é por acaso que João Ventura é conhecido pelo formato micro conto (vários dos quais podem ser lidos na sua página Das Palavras o Espaço).
O Cidadão sem sombra entra assim, anos depois, como uma nova colectânea sobre a qual já existem elevadas expectativas. E cumpre-as. É uma fabulosa compilação de contos e micro contos com histórias diversas em temas e conteúdos. Algumas das histórias são absurdas, outras alusões a outras ficções, outras curiosos exercícios de ideias e palavras.
Cidadão sem sombra começa com uma série de histórias mais restritas no espaço, incidindo sobre acontecimentos em diferentes bairros. As histórias pegam em situações banais, extrapolando-as e exagerando-as para construírem cenários mais mirabolantes e, até, absurdos. Segue-se “É a economia, estúpido”, secção que pega em conceitos económicos que costumamos ver associados ao estado do país, aplicados ao quotidiano de pessoas comuns, resultando, novamente, em situações absurdas, mas que aqui podem adquirir, também, um tom mais crítico.
Num tom mais especulativo, a secção “Histórias do tempo e da atmosfera” apresenta, sobretudo, pequenas narrativas envolvendo a meteorologia – divertidas e curtas, tal como a secção económica com exercícios de ideias e conceitos que surpreendem e denotam o humor peculiar de João Ventura, mas que aqui podem assumir uma vertente mais próxima do realismo mágico.
Em “Comprimidos Científicos” exploram-se conceitos científicos e em “A Elevação das coisas” constroem-se histórias em torno de inovações tecnológicas. Segue-se uma das minhas secções favoritas (previsivelmente), “Guardadores de Livros”, onde se apresentam cursos de escrita criativa, se referenciam obras conhecidas sobre livros e as palavras se revoltam. O volume termina com “A Espuma dos Dias”, secção dedicada aos micro-contos.
Tal como Tudo isto existe, O Cidadão sem sombra é uma colectânea diversa de diferentes histórias compostas por João Ventura, com formatos e dimensões diferentes. São sobretudo jogos inteligentes com conceitos e palavras, com pouco foco no desenvolvimento de personagens, mas construindo situações absurdas que são desconstruídas ao longo do conto. Algumas, poucas, apresenta pitadas contidas de elementos fantásticos, mas quase sempre com o objectivo de sustentar a tal situação absurda. O conjunto final é excelente e recomendável, sobretudo para quem aprecia o tipo de humor do autor.

