The River has roots, de Amal El-Mohtar tornou-se rapidamente um dos melhores livros que li em 2025. Tendo procurado, logo de seguida, se a autora teria outros livros publicados, deparei-me com este, escrito com Max Gladstone, que já tinha passado pela minha wishlist. Foi uma aquisição óbvia que se tornou, também, num dos melhores livros que li em 2025, mas na secção de ficção científica.

Em This is how you lose the time war duas entidades, de facções opostas, tentam manipular várias linhas temporais numa guerra que ultrapassa os limites do espaço e do tempo. Mas quando estas duas entidades começam a corresponder-se, reconhecem-se como semelhantes, criando algo diferente do esperado. Ao sabor da traição às respectivas facções junta-se uma correspondência que começa como reconhecimento mútuo e se vai tornando cada vez mais íntima.

A história prossegue focando-se, à vez, em cada uma das entidades, e demonstrando como incorporam um humano numa determinada época, influenciando o resultado de guerras e sucessões. Cada capítulo apresenta uma nova existência, mas também uma nova carta trocada entre as duas entidades – cartas que vão sendo passadas de forma elegante e original, ultrapassando os normais circuitos de vigilância. O que começa como um jogo fascinante e perigoso transforma-se numa partilha de memórias, dúvidas e desejos, onde ambos os agentes se corrompem e encontram algo mais estimulante do que as suas sucessivas missões – uma partilha que deve permanecer em segredo.

Tal como The River has roots, This is how you lose the time war distingue-se pela beleza das palavras, onde o seu uso é certeiro, conciso e quase poético. As cartas trocadas são, sem dúvida um dos pontos altos, não só pela exposição, mas pelo que é possível inferir sobre as facções, fazendo com que a alternância de formatos e de vozes funcione bem durante a leitura – os capítulos vão alternando as visões das duas entidades, com um tom distintivo, e dentro de cada capítulo apresenta-se a carta recebida por essa entidade.

O conceito ficção científica, com viagens no espaço e no tempo, explorando diferentes realidades paralelas é relativamente complexo e é desenvolvido sem grandes introduções e explicações. Na verdade, o conceito serve mais como cenário, não havendo um desenvolvimento científico do conflito ou da forma como as entidades viajam. É algo que vai sendo percebido e assumido pelo leitor, ainda que existam detalhes que fiquem por explicar.

This is how you lose the time war não é um livro para todos os leitores. Quem procura acção e intensidade narrativa não a vai encontrar aqui. Quem procura a exploração de conceitos de hard sci-fi, também poderá ficar defraudado nas suas expectativas. Ainda assim, é uma história que se destaca pelo formato original (e a co-autoria que possibilita a alternância de tom) e pela composição das palavras. Sendo uma leitora que normalmente procura objectividade no desenvolvimento narrativo, fiquei rendida à aura poética dos textos.