Durante 2025, T. Kingfisher, autora obrigatória com presença permanente na minha lista de compras, lançou três livros, What Stalks the Deep, Hemlock & Silver (que ainda não li) e este Snake Eater, que, teoricamente pertence ao género de horror, ainda que possua toques de fantástico. Não sendo o melhor livro da autora é uma história peculiar, com elementos originais, que surpreende e cativa pelas particularidades da personagem principal.
A história centra-se em Selena, uma mulher que, com a morte da mãe, decide fugir da casa que partilha com o seu companheiro de longa data. A única alternativa é procurar a tia que vive no deserto. Mas quando chega à pequena cidade, descobre que a tia faleceu. Ainda assim, a comunidade local dá-lhe acesso à casa, dado ser a mais próxima familiar. Sem grandes perspectivas de ficar, Selena acaba por se habituar à proximidade com a vizinha idosa, e vai criando um quotidiano de partilha, longo dos abusos psicológicos do marido e da confusão da cidade que deixou para trás.
Tudo parece perfeito. Não fossem existir pequenos deuses que se vão manifestando, de forma mais ou menos intrusiva. Há entidades que ajudam a cuidar do jardim, mas também há entidades possessivas que acham que Selena deve assumir o lugar da tia, manifestando ciúmes, e introduzindo-se nos sonhos seus sonhos mais íntimos.
A narrativa trata, numa primeira instância, de relacionamentos abusivos. Selena tinha sido criada por uma mãe obcecada com Deus e a Igreja, mas que transformava qualquer aspecto do quotidiano como uma quebra com essa religiosidade, usando chantagem psicológica para forçar Selena a determinadas escolhas. Mas se a junção com o companheiro lhe parecia ir quebrar esse ciclo e libertá-la, Selena acaba por se ver noutro tipo de prisão – um relacionamento onde a sua auto-estima e confiança são permanentemente destruídas.
A narrativa foca-se bastante na caracterização psicológica da personagem – não propriamente definindo, mas mostrando como pensa, ao preparar e antecipar cada interacção, de forma a não se sentir ridícula. Este receio, instalado e alimentado pelo companheiro, causa uma constante insegurança e defesa, que, inicialmente, se traduz em quase desespero. Selena reagiu finalmente ao impulso de se afastar, mas é tão insegura que julga-se incapaz de sobreviver sozinha.


Enquadrada numa nova realidade e comunidade, vai interagindo lentamente com os que a rodeiam, e, progressivamente ganhando confiança. A narrativa vai demonstrando como as ansiedades diminuem, as interacções se tornam mais naturais e, até, de confiança. Selena vai recebendo ajuda que não consegue negar, mas vai também contribuindo – e assim encontra um espaço onde se sente confortável, uma espécie de família não biológica onde as ansiedades diminuem e se sente aceite.
A história não é muito movimentada, ainda que, também não se arraste. A escrita apresenta-se sucinta, sem grandes deambulações, debruçando-se bastante sobre o processo psicológico de cura com o afastamento das personalidades tóxicas. O desenvolvimento é subtil. Mas isto não quer dizer que não existam, também elementos fantásticos.
Este são apresentados pela exploração de elementos do folclore nativo americano, com entidades peculiares associadas aos animais e às plantas locais, sendo que estas entidades podem surgir como influenciadores menores de pequenos detalhes quotidianos, ou como entidades poderosas, perigosas pela forma como interpretação as acções dos humanos, à luz de uma lógica muito próprio e deturpada.
Ainda que exista alguma tensão, não achei que a história seja propriamente de terror. Existem outras narrativas da autora, como The Hollow Places, com elementos (e efeitos) mais evidentes de terror. Há quem descreva esta história como sendo um terror confortável (Cozy) à semelhança da mais recente tendência de fantasias (como Café das Lendas) e ficção científica (como Automatic Noodle) confortáveis. A história de Snake Eater tem, efectivamente, algum crescer de expectativa, com o confronto das entidades sobrenaturais, mas estes são mais estranhos do que propriamente assustadores (pelo menos para o leitor, já que a personagem apresenta-se bastante alarmada).
Menos épico do que outras histórias da autora, Snake Eater apresenta alguns elementos usuais, como foco em personagens pouco habituais para este tipo de narrativos. São personagens mais comuns, o que distingue das histórias mais tradicionais onde existe um escolhido. Para além das particularidades de Selena, outras figuras que a rodeiam são insuspeitas para um confronto com o sobrenatural. Selena é, sobretudo, ajudada por uma vizinha idosa mas destemida, e um padre com uma visão peculiar sobre as crenças locais.
Snake Eater é uma história mais discreta do que outras da autora, mas uma narrativa sólida com pontos inovadores que proporciona uma boa leitura. Não esperem uma leitura de tirar o fôlego, mas uma história onde a empatia tem um papel fundamental, com episódios ligeiramente humorísticos que contrapõem os elementos mais assustadores. Não sendo uma das melhores leituras de sempre, é uma leitura recomendável para quem procura uma história acolhedora e simpática, com elementos pouco usuais, mas também não demasiado experimental.
