
Eis um livro sobre o qual não tinha a certeza de querer falar depois de o ler. Trata-se da sucessão de Silver in the wood, livro que adorei de tal forma, que fui procurar o que mais a autora teria publicado. Já cá tenho, claro, o The Incandescance, livro que fez bastante furor em 2025. No entanto, este Drowned Country desiludiu-me, não propriamente pela história apresentada – que tem contornos bastante originais apesar da premissa, mas por causa das expectativas criadas com o título anterior.
Silver in the wood tinha criado uma história que, usando elementos fantásticos tradicionais (com entidades féericas), se centra num homem que se converteu no protector da floresta, convivendo com entidades e garantindo que o balanço se mantém. Toda a história tem uma aura intemporal, apesar de alguns detalhes mais modernos, com um ritmo relativamente pausado apesar da situação urgente que provoca a acção.
Drowned Country centra-se na mesma personagem, que possui uma relação tempestuosa com a mãe, mas desenvolve-se mais focado na acção e no confronto de entidades sobrenaturais, largando a aura que tanto me tinha agradado no primeiro volume. Neste volume, Henry, a personagem principal do volume anterior, recebe um pedido de ajuda, aliando-se a Tobias, o antigo amante que agora serve a mãe, para caçar um monstro que se encontrará nas ruínas submersas. Este monstro poderá ser um vampiro, existindo uma jovem que estará desaparecida.
Mas quando finalmente encontram a jovem, a situação que encontram afasta-se bastante do inesperado. O caçado transformou-se o caçador, e a jovem vive obcecada em recuperar o favor das entidades feéricas, procurando o caminho que a levará a vivenciar, novamente, uma memória do passado.
Tal como no anterior volume, existem momentos em que se instaura uma aura de conto, com uma linguagem que transparece a mágica do ambiente e cria envolvência. Ainda assim, na totalidade, é um volume com mais acção, com um desenvolvimento mais terreno e palpável, afastando-se um pouco do estilo de conto que me tinha fascinando antes. Também as personagens e o seu relacionamento é explorado de forma diferente, com menos mistério.
E julgo que foram exactamente estas as diferenças que me desiludiram, ainda que, em retrospectiva seja uma boa história. Aproveita o folclore féerico de forma competente, e consegue surpreender pelas reviravoltas apresentadas e pelas prespectivas das personagens que possuem um humor peculiar e expressam uma intensa vontade de explorar e de conhecer.
Neste seguimento, explora, também, a condição feminina, onde não é esperado que as mulheres sigam este tipo de interesses, sendo catalogadas como loucas quando o fazem, ou, numa abordagem mais restritiva, internadas e contidas. É uma abordagem inesperada mas que acaba por ser um dos elementos centrais da narrativa.
Em suma, Drowned Country de Emily Tesh é uma boa leitura. Ainda que fique aquém em relação ao anterior volume apresenta uma história com elementos feéricos que consegue ser original, com personagens e desenvolvimentos insuspeitos.
