Eis uma autora que me tinha passado despercebida, até lançar, recentemente, o livro The Incandescent, mas cujas obras já venceram ou foram nomeadas para alguns prémios relevantes na ficção especulativa. Some Desperate Glory (provavelmente uma das minhas próximas aquisições) venceu o prémio Hugo, foi nomeado para o Locus e esteve na shortlist para o Ursula K. Le Guin e o Arthur C. Clarke. Este, Silver in the Wood, é o primeiro de uma duologia, venceu o Astounding e o World Fantasy Award.

A história centra-se em Tobias, um homem que vai perdendo a sua humanidade, conforme o passar dos séculos na floresta que protege. Ele não só protege as entidades feéricas que aí residem, mas também protege os humanos das suas vinganças e planos maléficos, ainda que este episódio seja muito menos heróico do que parece. As entidades também se corrompem e degradam, afastando-se do seu auge, e apresentando-se dementes e obcecadas.

A longa existência de Tobias é perturbada quando um homem, Silver, adquire aquelas florestas e se envolve com ele, procurando saber demasiado sobre as entidades que ali residem e que são conhecidas no folklore da região como maldições – lendas que ganham corpo anualmente e que irão pedir um preço aos humanos com os quais se cruzam.

O mundo onde decorre a história não é explicado, nem introduzido. O que é necessário perceber vai sendo demonstrado episódio a episódio, conforme necessário. Existem nítidos detalhes de folklore feérico, ainda que tal não seja afirmado, confrontando-se estes detalhes com as lendas antigas do pequeno povo que age sob uma lógica muito própria.

Não esperem uma leitura alegre e descontraída. A floresta está carregada de perigos e mesmo as entidades que não são destrutivas devem ser endereçadas com cuidado. Em torno de Tobias existe uma aura de cautela e sombra, percebendo-se ser uma figura que vive em isolamento, assombrado pelos seus fantasmas – existência que irá ser desbloqueada pelas circunstâncias em Silver se envolve.

A história curta, apesar de fazer parte de uma duologia, pode ser lida isoladamente, possuindo um final que não pede uma continuação – ainda que vá, decerto, lê-la assim que possível, por ter gostado do mundo retratado. Apesar de ser uma obra curta, a autora consegue construir uma realidade e um sistema muito próprios, quase naturais, expostos com calma e consistência. É, sobretudo, uma história de disrupção e transformação.

Silver in the Woods é uma leitura cativante, mas sombria onde se cruzam elementos tradicionais de histórias fantásticas, com um estar mais actual e moderno. O cruzamento terá consequências imprevisíveis, e não é propriamente uma história de final feliz, resultando numa leitura diferente, mas excelente.