O Gigante Enterrado – Kazuo Ishiguro

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Surpreendentemente, eis uma excelente leitura! Se pertence ao género fantástico? Não sei, mas usa elementos fantásticos para contar a longa viagem (e aventura) de um casal de velhotes por territórios inóspitos e em transformação.

O casal sofre de esquecimento – todos os acontecimentos do passado se encontram por detrás de uma névoa densa, através da qual apenas recordam sombras de acções e palavras que justificam a sua situação naquela aldeia. Ainda que tais maleitas sejam normais em pessoas idosas, o que não é normal é que pessoas mais novas sofram do mesmo mal e em maior gravidade. Assim é, naquela aldeia, em que uma criança pode andar perdida alguns dias, e retornar sem ser notada pelos pais.

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Com a visita de uma viajante que a velhota auxilia, recordam-se da leve existência de um filho e apercebem-se da névoa mental que afecta todos, apagando recordações, afectos e acções. Face ao esquecimento generalizado mas por poucos reconhecido conscientemente, a população defende-se criando sistemas de crença baseados na superstição e na ignorância e seguindo a palavra do padre à letra.

A memória de um filho, e a retirada da vela ao casal que lhes permitiria ver de noite por parte dos aldeões, são os elementos catalizadores que irão fazer com que deixem a aldeia e iniciem viagem para o visitarem – mesmo sem recordarem exactamente onde mora, ou porque motivo se separaram.

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Pelo caminho encontram outras povoações onde o mesmo mal afecta de forma semelhante os habitantes – o esquecimento generalizado cria medo e crendices gerando uma onda de nervosismo e quase pânico. Na aldeia onde decidem pernoitar assistem à organização de um grupo de homens que visa resgatar um rapaz, raptado por ogres. De mente obscurecida pelo semi-esquecimento, o guerreiro de terras distantes é o único que permanece firme nessa missão. O nervosismo inquietante resultante da incerteza torna o clima instável na povoação, mas felizmente o casal de velhotes refugia-se junto de um ancião que também tinha conhecimento da névoa que todos atingia.

Quando finalmente deixam a aldeia, o casal é acompanhado pelo cavaleiro e pelo rapaz que, tendo sido mordido, facilmente será linchado por conta de superstições vazias. Ainda que o caminho inicial seja comum a todos, são os diferentes objectivos que farão convergir estas personagens em diferentes etapas – o guerreiro pretende caçar o dragão responsável pelo esquecimento e, verdade seja dita, sem recordar o passado, o casal desconhece factos que irão tornar o seu caminho mais difícil e real.

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Ilustração de Robert Frank Hunter

As adversidades sucedem-se – no mosteiro onde se refugiam, procurando remédios encontram monges de propósitos mais obscuros e, pelo caminho, encontram um idoso cavaleiro de Artur que tem uma missão bem diferente daquela que anuncia. Nem sequer faltam barqueiros astuciosos, bruxas mentirosas ou estranhos monstros para atrapalharem a caminhada. Mas, fruto da névoa e da incerteza, os pequenos episódios acabam por ser mais simples do que tudo o que os envolve, como um episódio de fuga amedrontada por longos túneis, temendo um monstro que se revela afinal pouco interessado neles.

Aproveitando o cenário de estranha paz que se terá estabelecido entre os diferentes povos partilhando o mesmo território, Kazuo Ishiguro apresenta-nos uma história que é, sobretudo sobre a longa vivência de um casal que, apesar de desconhecer o passado, vive numa relação de mútua confiança e protecção. E é exactamente por se centrar nos relacionamentos e nos defeitos de cada personagem, por mais heróica que pareça, que consigo compreender que haja quem negue o enquadramento no género fantástico, apesar de todos os elementos sobrenaturais da história – felizmente, o género não tem só histórias de guerreiros desnudos e espada na mão, e comporta bem a inclusão desta história.

Apesar de ter achado os elementos fantásticos deliciosos (com toda a sua carga metafórica) a história captou-me particularmente pela exploração humana das personagens e dos diversos relacionamentos entre eles, apresentando o ódio entre povos que partilham a mesma terra, a cumplicidade de um longo relacionamento, ou a dualidade de um herói que se vê numa missão ingrata.

Em Portugal este livro foi lançado pela Gradiva.

6 pensamentos sobre “O Gigante Enterrado – Kazuo Ishiguro

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