O título recorda-me um filme português passado no interior do país, Coisa Ruim, que usa o ambiente de uma aldeia para tecer uma história de horror que me surpreendeu pela positiva. Apesar das semelhanças do título existem bastantes diferenças, e ainda que o livro também me tenha agradado, tem, também, alguns pontos a limiar.
A história começa por apresentar uma família burguesa de elevadas posses, alternando entre os vários membros da família. Acontecimentos recentes colmataram na morte de alguns, inclusive do criador do império financeiro, Henrique Viaforte, um homem duro a quem nunca ninguém consegue fazer a folha, e que parecia ter uma sorte interminável.
De elemento a elemento da família, alguns detalhes começam a parecer sombrios. Há histórias de uma rigidez doentia de Henrique, que submetia os seus descendentes a castigos impensáveis e alguns dos que sobreviveram ao role de desgraçadas parecem padecer de uma espécie de doença mental, onde vêem figuras de cara branca que as assombram. As várias perspectivas da história permitem ir preenchendo os peças do puzzle e perceber que algo de horrível terá acontecido – este algo ecoa no presente da história e irá originar vários episódios de tensão, de horror e, até de morte.
Coisas Ruins usa vários elementos do imaginário tradicional português para criar uma história de terror sobrenatural. Destacam-se as criaturas que assombram a família Viaforte, mas também a abordagem para com a figura da bruxa, presença habitual em qualquer vilarejo, onde as mezinhas e as rezas são usadas para pedir favores às almas penadas, ou para afastar o mal olhado. Referem-se, também, as queimadas, comuns na Galiza e no Norte de Portugal.
Ultrapassando estes detalhes do folclore português, a história oscila entre cenários mais urbanos e rurais, entre o equivalente ao tempo actual e há poucas décadas, saltitando de episódio em episódio enquanto conta vai contando a história. O mosaico vai-se compondo e vamos percebendo o que se passa. Neste sentido, a história está bem conseguida e coesa, o que não deve ter sido um exercício fácil de tecer, até porque as personagens são muitas.
Para além da exploração do imaginário português, e da portugalidade do interior aqui explorada, também se reconhece o padrão da família Viaforte – um género de nobreza local, uma família de riqueza que parece estar acima das restantes, e a cujos membros é exigida descrição, mesmo quando colapsam sob o peso das expectativas.
Existem, no entanto, alguns episódios que se alongam excessivamente, pretendendo criar envolvência (e conseguindo) mas que se tornam exaustivos e quebram um pouco o desenvolvimento da história. A par com este elemento que prejudica o ritmo de leitura, existem episódios passados que poderiam ter sido intercalados mais cedo, sem desvendar elementos essenciais, mas fazendo com que a quebra temporal não fosse tão grande.
Ultrapassando estes dois aspectos, Coisas Ruins é uma leitura aconselhável para quem gosta do género horror, fornecendo uma leitura coesa e bem construída. O desenvolvimento das personagens é forte e lógico, e mesmo as personagens que assombram a narrativa conseguem ter uma forte presença, competindo com o horror das criaturas sobrenaturais. A história está carregada de tensão e antecipação, que vai sendo construída de forma competente.

