
Depois de ler o fabuloso The Butcher of the Forest (que ganhou o Aurora Award, e foi nomeado para o World Fantasy Award, o Locus, o Hugo, o Nebula e o Ignyte) fui procurar outras obras da autora, tendo encontrado a trilogia que começa com The Annual Migration of Clouds. Este volume apresenta-nos um mundo pós-apocalíptico, em que o declínio da civilização humana foi abrupto e recente. A história centra-se em Reid, uma jovem que sobrevive numa pequena comunidade onde todos devem fazer a sua parte pela bem comum, infectada com o estranho fungo que parece consciente e ditar algumas acções nos seus hospedeiros.
Este segundo volume volta a pegar em Reid, mostrando como, após aceitar o convite para ingressar uma faculdade de localização incerta (e que, segundo alguns, não passará de um mito glorificado para alimentar a esperança em algo) inicia a viagem na direcção indicada. A viagem levará à visualização de outras realidades humanas (mais no sentido habitual de grupos armados e conflituosos) mas leva-a, finalmente, à idílica faculdade.
Ao chegar, a Universidade é, simultaneamente, tudo o que desejava mas também algo estranho e que se opõe ao anterior estilo de vida. Aqui, parece que o apocalipse nunca existiu. Um conjunto limitado de seres humanos vive numa espécie de domo tecnológico com todas as mordomias possíveis. Reid, pouco habituada a desperdício, sente o peso dos anos em modo sobrevivência tendo desenvolvido hábitos que são difíceis de deixar para trás, sem se sentir culpada.
Mas a Universidade é mais do que isso. Reid apercebe-se que nem todas as perguntas e abordagens são bem vindas, sendo que o paraíso tem contornos mais negros do que espera. Contrastando a vivência idílica no domo com a dura vida lá fora (e descartando a mentalidade merecedora de quem lá cresceu) Reid começa a desafiar o sistema desde muito cedo. Este segundo volume é, portanto, mais focado na oposição de Reid ao sistema, uma revolta que percebemos quando opomos as duas existências, tão diferentes entres os dois volumes.
Ao contrário de outros estudantes que foram acolhidos e que cresceram do lado de fora do domo, Reid não consegue ultrapassar as diferenças das duas realidades, acreditando que seria possível levar os avanços tecnológicos à restante humanidade, e proporcionar-lhes uma existência mais facilitada. Já a Universidade que existe dentro do domo parece ter escolhido o quase existência de outra realidade, expiando-se pelo acolhimento de alunos ocasionais – mas mesmo estes acolhimentos parecem ter um objectivo pouco altruísta.
Nesta realidade, a Universidade não funciona como um possível elevador social, mas como um mecanismo de poder e de desigualdade, proporcionando conhecimento tecnológico e protecção a um grupo de privilegiados que se acreditam mais inteligentes e consequentemente mais merecedores do que os restantes – uma perspectiva que será abertamente desafiada por Reid, que, não se calando, cria momentos desconfortáveis para os alunos habituados a este vivência diferenciadora. Esta escolha de Reid em tentar desafiar o status quo terá, claro, consequências.
No entanto, também percebemos que o crescimento neste meio protegido faz com que os jovens sejam mais dependentes da tecnologia e menos capazes de sobreviver ou de se orientarem na natureza. Outro aspecto que vamos percebendo é que, apesar do maior acesso dos recursos, as capacidades intelectuais não vão ser assim tão diferentes, sendo que Reid vai sendo capaz de realizar o mesmo tipo de exercícios. O grande diferenciador estará na habituação a lidar com tablets ou equivalentes.
Em redor de Reid vamos percebendo que existem outras vivências para além da Universidade e da comunidade em que cresceu. No entanto, estas percepções são limitadas, resultado de observações da própria Reid ou de conversas com outras personagens. Apesar de ter existido um evento global que afectou o planeta (resultado das acções do homem), a abordagem é muito limitada à percepção e ao conhecimento de Reid.
Em paralelo com os desafios éticos que se apresentam a Reid e com a realidade pós-apocalíptica, percebemos que existe uma doença que afecta vários humanos, um género de fungo simbiótico que parece influenciar as decisões e a existência dos infectados de várias formas. Também este fungo carrega o seu próprio mistério, existindo contornos que parecem fazê-lo ultrapassar a normal condição de fungo. E também na exploração deste elemento percebemos que existe uma discrepância na acessibilidade de meios, com a Universidade a ter um género de tratamento, indisponível para os restantes.
Comparando os dois volumes, enquanto o primeiro era mais calmo e, até, esperançoso, com Reid a demonstrar a vivência em comunidade, aspirando a algo mais, neste segundo este algo mais leva-a a questionar as diferentes realidades e a entrar em conflito com a aceitação de uma vivência mais capaz. Uma espécie de culpa do sobrevivente. Mas como aceitar deixar para trás todos aqueles com quem viveu e sobreviveu em comunidade, incapazes de aceder às mesmas regalias, apesar de todos os seus feitos e capacidades?
Em suma, We Speak Through the Mountain continua a história do primeiro mas desenvolve-se de forma muito menos calma e introspectiva, desenvolve o conflito e apresentando a revolta da personagem. O confronto das duas existências é difícil de combinar. Apesar de bastante diferente (e por isso não estar muito alinhado com as expectactivas criadas no primeiro volume) gostei bastante da leitura deste segundo.
