A autora tornou-se conhecida com Station Eleven, um livro de história apocalíptica que se centra na tentativa de manter a humanidade após o declínio tecnológico. A mensagem fundamental da história pode ser reduzida a “não basta sobreviver”, havendo um destaque para os esforços de manter a memória sobre peças e livros, elementos culturais que serviriam de âncora ao verdadeiro sentimento de humanidade. Station Eleven foi bastante nomeado e premiado, aparecendo várias vezes em listas de melhores livros de ficção científica, ou, até, em listas mais genéricas. Mar da Tranquilidade, lançado em Portugal pela Editorial Presença, ganhou também alguma notariedade, tendo sido nomeado para os prémios Aurora e Locus.
A história começa por nos apresentar um jovem britânico de famílias nobres no início do século XIX. Não sendo o filho mais velho, não é esperado que herde o título ou os terrenos, ainda que vá adquirir uma pensão de valor substancial que lhe permite viver desafogadamente. Esta perspectiva é adiantada no seguimento de um jantar onde expressa opiniões políticas pouco aceites, sobre colonização e a pouca vontade dos colonizados em aceitarem uma civilização ocidental imposta. O jovem parte assim para os Estados Unidos América, acompanhando-se de outros que, como ele, se afastam do país natal. É numa destas pequenas cidades, ainda envolta em elementos nativos, desde índios a pedaços de floresta selvagem, que o jovem vivencia um estranho episódio, uma espécie de viagem no tempo momentânea onde presencia algo que, a seus olhos, é impossível.
A narrativa salta então para acompanhar outras pessoas que irão vivenciar episódios estranhos, equivalentes, na sua vida, percebendo-se que existe alguma interligação entre eles. Existem, também, coincidências bizarras, encontros impossíveis e nomes improváveis que remetem para algo que só vai ser explorado mais tarde. Chegamos assim ao século XXV, época em que a humanidade já construiu colónias na lua, e se fundou o Instituto do Tempo, época onde finalmente vamos perceber o que relaciona as várias histórias e como vão ser usadas para testar uma hipótese aterradora para a humanidade.



A história cruza os eventos separados por séculos, mas que parecem apresentar um padrão de repetição. De alguma forma estes momentos tão distantes no tempo parecem reflectir-se uns nos outros, influenciando-se e causando quebras na continuidade. Estes momentos não são explorados de forma equivalente, havendo um ligeiro desbalanceamento entre eles na forma como impactam a totalidade da linha – há alguns que parecem ter um papel principal, e outros que parecem ser acessórios construídos para apresentar um mínimo de relacionamentos temporais.
Tal como em Station Eleven a narrativa apresenta-se saltitante, mas destacando o papel da literatura e da música. Neste caso, ambas estarão ajudam a relacionar os vários momentos, influenciando (ou assombrando) pessoas de épocas distintas. Apesar desta referência à cultura estar em todos os episódios, o seu papel parece mais secundário do que em Station Eleven, onde manter a humanidade significava preservar a cultura. No seguimento do título Mar de Tranquilidade, apesar da hipótese explorada e testada pelos viajantes do tempo poder ser considerada perturbadora, a narrativa apresenta uma abordagem calma e introspectiva, que se relaciona com a que pudemos ver em Station Eleven.
Ainda que a narrativa apresente um futuro tecnologicamente avançado, com colónias na Lua e em planetas distantes, e viagens no tempo, as bases científicas para tais avanços não são exploradas. Estes são mais elementos de suporte que permitem o desenvolvimento da história, mas esta centra-se sobretudo nos seres humanos e nos seus relacionamentos. Cada personagem vai apresentando momentos de conexão e disconexão, seja pela existência num local distante de onde cresceu, seja pelo afastamento familiar ou por uma pandemia que obrigada ao distanciamento.



Comparando com outras narrativas que exploram as viagens no tempo, apresentam-se, também, questões éticas e morais associadas às linhas temporais. Como evitar as interferências? Como não influenciar os próximos passos de alguém com quem simpatizamos e sabemos que irá morrer por mero acaso? A narrativa aborda estas questões ainda que não sejam fundamentais para a premissa mais global.
De forma mais tangencial, em pano de fundo, percebemos que o avanço tecnológico não impede que a humanidade continue a existir nos mesmos padrões reconhecíveis, sendo que a tecnologia não previne a miséria ou a degradação da condição humana. Continuam a existir pessoas em situações precárias, e a degradação do ambiente acarreta custos que raramente os governos se decidem a avançar, fazendo com que uma parte viva em contornos impensáveis.
Apesar de todas as referências positivas sobre Mar da Tranquilidade, não apreciei na mesma medida que Station Eleven. Achei-o menos coeso e balanceado, apresentando episódios que poderiam facilmente ser retirados sem conceder impacto à narrativa global. É, no entanto, uma leitura agradável, com bons momentos, principalmente na exploração de uma pandemia que influencia não só planeta Terra, mas as colónias da Lua.

