Eis um daqueles clássicos distópicos que me tem despertado bastante interesse ao longo dos anos, mas que nunca tinha me decidido a pegar. Até ver esta edição que reúne os quatro volumes e portanto é estrategicamente interessante (quer pelo preço, quer pelo tamanho). É, efectivamente, um livro poderoso, que tem mais impacto do que acreditava nas primeiras páginas, mas que prossegue numa premissa que recorda The Ones Who Walk Away from Omelas de Ursula Le Guin.

A história centra-se num jovem rapaz, Jonas, prestes a fazer os doze anos, idade em que irá saber que ocupação será escolhida para ele. Tal como todos os restantes elementos, as profissões de cada um são escolhidas conforme as capacidades e interesses que vão sendo revelados ao longo do crescimento e catalogadas pelos membros mais velhos da comunidade. Aliás, esta é uma de muitas escolhas que são feitas por cada um, numa comunidade que afasta a individualidade, mas também a emotividade, o relacionamento, ou verdadeiro envolvimento entre indivíduos. Trata-se de uma espécie de existência cinzenta, onde também não há lugar para quezílias e guerras, e a harmonia se faz à custa de qualquer emoção mais profunda.

Mas, claro, na perspectiva de Jonas, esta existência é a normal, mostrando-se um rapaz empático e bem adaptado. Tudo irá mudar quando é escolhida a sua profissão futura – ele será o próximo The Giver, sucedendo a um dos anciãos que tem, como missão, guardar a memória de outras existências e de outras realidades, passando a Jonas experiências tão diferentes como a dor de uma perna partida ou a sensação da chuva sobre a pele, a visualização das diferentes cores ou o amor. É com esta recepção de sentimentos e experiências que Jonas percebe que a existência daquela comunidade é apática, insuficiente, medíocre. E assim aspira à rebelião e à mudança.

A história começa por nos apresentar a visão inocente e simplista de Jonas – mas claro que, aos olhos de um adulto que já leu várias distopias, há elementos que parecem mais sombrios do que o descrito. É-nos dito que os que não se encaixam naquela comunidade a podem deixar, desde idosos a bebés que não progridem conforme esperado. Mas facilmente se percebe que todos devem ser produtivos, de forma a garantir o balanço das tarefas e do consumo.

As diferenças são inibidas. São evitadas referências a elementos diferenciadores e ainda que se aceite que os indivíduos tenham capacidades diferentes, todos são iguais e devem seguir um determinado padrão de comportamento que garante que os conflitos são mínimos. A partilha mental deve, também, ser absoluta. Impulsionada no agregado familiar desde cedo, todos são chamados a falar dos seus sonhos e dos momentos de interacção na escola, como forma de corrigirem os seus comportamentos.

As famílias são fabricadas. Na verdade, os filhos são gerados por adultos específicos, mulheres escolhidas para serem parideiras. Estes bebés são depois acompanhados num centro durante os primeiros meses e distribuídos por pares de adultos (definidos pelos anciões de acordo com as suas capacidades e fragilidades). Os laços de sangue são esmorecidos, e o par de adultos age não só como educadores, mas também como garantias de que os comportamentos das crianças se desenvolvem de acordo com o esperado.

A comunidade é comandada pelos anciões que gerem a maioria das decisões sempre da mesma forma. Teoricamente existe uma forma de efectuar mudanças às regras, mas as discussões que se geram são tão longas e infrutíferas que, na realidade, pouco ou praticamente nada muda. As escolhas estão feitas, como uma forma de garantir a continuidade do que existe, de forma previsível, deixando de parte a possibilidade de guerras e escolhendo-se a segurança sobre o livre arbítrio. Mas tão importante como esta falta de escolhas é a falta de memória. Sem acesso a livros, sem memória de outros tempos, esta comunidade prossegue sem saber o que perdeu.

Mais do que uma distopia, o mundo retratado até poderia ser considerado uma utopia – é tudo uma questão de perspectiva. Inicialmente o mundo retratado parece idílico, equalitário e perfeito. Não há fome nem doença. Não há dor nem sentimentos negativos. Não há escolhas nem erros. Mas também não há amor, decisão e autonomia.

The Giver destaca-se pela forma inocente e neutra como nos apresenta esta comunidade. Sem juízos de valor nem avaliações morais. Descobrimos a realidade pela visão de um jovem que, também ele, vai percebendo o que rodeia, fruto da ocupação que lhe é destinada. E é esta perspectiva que vai criar o choque para com a realidade que depois se percepciona, levando ao corte para com tal existência idílica.