Eis o segundo volume da tetralogia The Giver Quarter. Se o primeiro volume, que dá nome à série, nos tinha apresentado o que parecia uma sociedade relativamente futurista, com algumas tecnologia, mas completamente alienada no que diz respeito a sentimentos humanos e a conceitos como identidade e passado (elementos que aquela sociedade teria abdicado para poder deixar de ter sofrimento, resultando numa existência cinzenta), neste segundo parece que estamos perante uma sociedade pós-apocalíptica, onde a humanidade regrediu para a caça e a agriculta de pequena escala ainda que existam pequenos detalhes que recordam o primeiro livro.
Gathering Blue centra-se numa jovem, Kira, que acabou de perder a mãe. Com um problema numa perna que dificulta a sua deslocação, Kira permanece ao lado do corpo os três usuais dias. Quando regressa à vila percebe que já existe um grupo de mulheres que prevê apropriar-se dos seus bens, lideradas por uma em concreto que leva a questão aos anciãos, justificando que Kira devia ter sido exposta à nascença e, como tal, não tem lugar naquela sociedade. O debate é difícil e moroso, mas a resolução surpreende ambos os lados. Dadas as suas capacidades de tecelã, Kira será mantida como artesã, levada para a casa central onde lhe explicam como funciona a canalização e outros detalhes mais evoluídos.



O novo quotidiano contrasta com a existência anterior de Kira. Destacando-se pelas suas competências manuais, deve aprender a tingir tecidos, deslocando-se lentamente às imediações da vila onde uma anciã a ensina nessa arte. A acompanhar Kira encontra-se um jovem rapaz, um miúdo que habitava na parte mais pobre da vila (e como tal fala de forma mais básica) mas que revela boas intenções, apesar de existir naquele mundo em que o que conta é a força individual. Na casa, não estará sozinha. Outro artesão, neste caso que trabalha madeira, vai partilhar o seu quotidiano e explicar-lhe o que é esperado dela nesta nova posição.
O mundo apresentado em Gathering blue tem algumas semelhanças em relação a The Giver, ainda que a sensação seja bastante diferente. Em ambos existe um grupo de pessoas que controla a informação e o acesso a informações passadas. Este grupo de pessoas também criou uma imagem do exterior que visa controlar a população e mantê-la no local, ainda que os mecanismos pelos quais isto se faz sejam diferentes.
Em Gathering Blue os anciãos têm acesso a artefactos que estão interligados à memória do passado e que devem ser recuperados por pessoas com capacidades específicas, neste caso, pessoas com capacidades manuais e criativas. Em The Giver, o passado estava apenas acessível a uma pessoa, que devia carregar o peso desse conhecimento, sendo considerado uma pessoa de destaque na comunidade. Aqui também existe destaque a quem trabalha com os artefactos, mas percebemos que a sua existência tem algo de cativeiro, apesar de lhes ser facilitado o acesso a comida e conforto.



Em The Giver, a comunidade acreditava que pertencer àquela sociedade era o que todos desejavam, fazendo com que todos tentassem eliminar diferenças e conter-se ao lugar que lhes era esperado para o funcionamento da globalidade. Neste, a contenção dos habitantes faz-se pelo medo, com a criação de monstros imaginários que poderão eliminar qualquer habitante que se aventure para além das fronteiras.
Ambas as sociedades são opressivas. A primeira pela eliminação de individualidade e vontade, de emoções e de sentimentos. Aqui a opressão é mais física e crua, pelo medo, pelo lugar social ocupado por cada um, pela força de um colectivo que segue a lei do mais forte e, até, mais maléfico. É possível retirar algo ao outro só porque se tem mais força. Talvez por estas diferenças, as revelações em Gathering Blue irão ter menos força – em The Giver, a narrativa centrava-se numa personagem mais infantil e inocente.
Tal como The Giver, este volume desenvolve uma distopia de contornos pós-apocalípticos (ou pelo menos depois da civilização humana como a conhecemos), mas consegue apresentar duas realidades bastante diferentes e envolventes. O arco global tem algumas semelhanças, ainda que este segundo tenha maior complexidade no desenvolvimento e um final que me pareceu menos equilibrado (apesar do final do The Giver poder ser algo traumático).
