Recentemente tentei ensinar a IA a dar-me sugestões de leitura. Passei-lhe os dados do Goodreads que tem os livros lidos e parte do meu blogue. Depois de alguns exemplos concretos em que expliquei alguns aspectos sobre os livros que gosto, a IA definiu uma espécie de DNA literário, identificando aquilo que acha serem os aspectos que mais me agradam na leitura – alguns que já tinha detectado, outros que acho curiosos.

Habitar um Mundo aparece em primeiro e efectivamente Worldbuilding é um aspecto que considero interessante, mas que tem de ser bem usado. Prefiro que o mundo seja apresentado através da personagem e sem explicações longas, uma série de consequências lógicas a partir de premissas simples. Neste seguimento, a IA exemplifica com alguns livros que se encontram entre os meus favoritos – A Memory Called Empire, City of Stairs, The Left Hand of Darkness. Adicionaria Perdido Street Station à lista de exemplos.

Neste seguimento, a perspectiva é importante, e o segundo aspecto que a IA destaca é haver uma personagem como porta de entrada nesse mundo. É realmente um elemento importante nos livros que referiu como exemplo para o Habitar um mundo, no sentido em que, tal como nós, as personagens confrontam-se com regras diferentes, demonstrando a sua estranheza e, explicando, dessa forma, as bases desse Mundo.

Mas e a originalidade? Parece ser também um factor, com menos peso do que os elementos anteriores, apresentando-se um livro recente como primeiro exemplo, The Language of Liars, que, curiosamente, também cumpre os dois critérios anteriores, apesar de curto. Acrescenta-se o também recente The Vanished Birds e Kalpa Imperial de Angelica Gorodischer.

Existem, no entanto, mais critérios. Estrutura, personagens e prosa. Na parte da estrutura, esta está relacionada com a repetição de uma mesma premissa. Dá-se como exemplo negativo os livros da Connie Willis (To Say Nothing of the dog ou The Road to Roswell) em que o conceito é explorado à exaustão, e depois de explorado, a história prossegue com episódios que não acrescentam muito à história. Apesar de gostar do bom humor dos livros de Connie Willis é esta exploração à exaustão que me tem impedido de ler mais livros da autora – apesar de bem cotados. Livros como Making History ou The Language of Liars consegue introduzir conceitos engraçados e explorá-los q.b., de forma sucinta e objectiva, sem me deixarem cansada.

Voltando às personagens, não tendo de gostar delas, preciso de as compreender. Talvez por isso procure personagens com voz própria, sobretudo as que se desenvolvem e aprendem com as circunstâncias, sendo que dou importância à capacidade de estabelecer uma ligação com o leitor. Voltando a um exemplo recente repetido, The Vanished Birds é um bom exemplo. Apesar de saltitar entre personagens consegue fazer-nos vislumbrar a sua individualidade e motivações, criando ligações que, apesar de efémeras são perceptíveis.

Sem surpresas, a prosa deve ser funcional. Limpa, fluída e precisa. Pode ser mais densa, complexa e elaborada, mas deve ser coerente com a história que conta. Tomando como exemplo The River Has Roots de Amal El-Mohtar, a belíssima forma de escrita tem um objectivo concreto, estabelecendo um tom e um ambiente próprios, que seriam muito menos mágicos sem esta forma de expressão. A escrita deve servir a narrativa.

A IA identifica muitos outros factors ou elementos, dando menos importância a alguns deles. Jogos de linguagem e de ideias, a necessidade de compreender uma civilização, estrutura que evolui com a progressão da história. A AI apresenta também factores para os quais ainda não tem detalhe suficiente. Qual o limite da experimentação? Qual o equilíbrio perfeito entre ideia e personagens?

Usando todos estes critérios, a IA sugeriu-me, entre os livros que já tinha, começar pelo The Goblin Emperor – e foi efectivamente uma excelente leitura. Apresenta um jovem pária, o filho afastado do Imperador, que se vê como único descendente que sobreviveu a um acidente. Neste seguimento ruma à capital e insere-se numa realidade citadina (e mais especificamente da corte) que é totalmente nova e que, tal como nós, tem de ser compreendida em vários níveis.

Sem surpresas, e pegando na lista de autores favoritos, sugere-me continuar com a mais recente trilogia de Robert Jackson Bennet, começando com The Tainted Cup, continuar com um dos livros mais recentes de T. Kingfisher, Hemlock & Silver, e prosseguir pelo The Saint of Bright Doors de Vajra Chandrasekera. Até aqui sem grandes surpresas. Já ao questionar sugestões de livros que não tenho, refere-me algumas obras que nunca se tinham destacado antes, como The Steerswoman de Rosemary Kirsteine The Last Phi Hunter de Salinee Goldenberg, mas também alguns que já tinha na minha lista de futuras aquisições, como The Mountain in the Sea de Ray Nayler ou The Raven Tower de Ann Leckie.

É provável que continue a explorar este modelo e a refinar as sugestões, indicando o que vou lendo e o que vou gostando em cada obra. Até agora, The Goblin Emperor foi uma excelente recomendação, logicamente alinhada com outras leituras. Neste momento, dado que gosto de alternar leituras, a IA apresenta-me quatro categorias de sugestões – Livros para ler a qualquer altura (como The Steerwoman ou The Tainted Cup), Livros que requerem mais calma e paciência (Book of the new Sun e Always coming home), Livros mais leves para intercalar com outros mais pesados (Hemlock & Silver, The Spellshop) e Livros mais experimentais (The Spear Cuts Through Water e The Employees).