Vencedor do prémio Pulitzer para ficção e do prémio PEN / Faulkner, Michael Cunningham é o autor de The Hours e Specimen Days. Specimen Days é a primeira obra que leio do autor, e é composto por três histórias de género distinto, mas com vários componentes em comum que se centram sempre nas mesmas três personagens, que parecem encarnar ao longo dos tempos, na mesma cidade, Nova Iorque.
A primeira história é um conto de fantasmas, a segunda um thriller e a terceira enquadra-se dentro da Ficção Científica. As três componentes complementam-se e centram-se, à vez, em cada uma das três personagens: a primeira num rapaz desfigurado de nome Lucas; a segunda na psicóloga, Catherine; e a terceira num homem “sintético”, Simon.
Em todas as histórias a obra de Walt Whitman, Leaves of Grass, tem um papel importante. Colectânea de poemas, Leaves of Grass ter-se-á destacado pela utilização, pouco usual na altura, do verso livre, e por se encontrarem, nos seus versos, referências a assuntos como a morte e a prostituição.
A primeira história de Specimen Days, In the Machine, inicia-se com o funeral de Simon, um jovem que terá sido engolido pela máquina na fábrica onde trabalha, deixando a família e a jovem noiva, Catherine, desamparadas. Os pais deixam-se consumir pela depressão e é Lucas, uma criança desfigurada, que terá de sustentar a família, substituindo Simon na fábrica. Numa caixa de música a mãe deprimida pensa ouvir a voz do filho mais velho, e não tarda para que Lucas pense que o irmão assombra todas as máquinas que o rodeiam.
Obcecado em salvar Catherine de ser engolida por uma máquina, Lucas tem vários diálogos perturbadores e obscuros, onde intercala frequentemente os versos de Wal Whitam:
A child said, What is the grass? fetching it to me with full hands;
How could I answer the child?. . . .I do not know what it is any more than he.
Enquanto que a primeira história decorre no início da Revolução Industrial, a segunda história The Children’s Crusade, ocorre no século XXI: as mesmas personagens, diferente aspecto e disposição. Catherine é uma psicóloga ligada à investigação criminal, divorciada que terá perdido o filho, ainda uma criança. Responsável por atender as chamadas dos malucos da cidade que declaram as suas pretenções homicidas ou terroristas, Catherine cria alguma empatia pelo grupo de crianças que se explode. Simon é o amante jovem e rico de Catherine, que vê nela uma mulher exótica de profissão excitante.
As chamadas das crianças intercalam poemas de Whitman com frases como “ninguém está a salvo” – e, assim parece ser. Uma criança abraça um austero empresário, noutro dia uma criança abraça um jovem de ascendência africana nos subúrbios. Quer se seja rico ou pobre, qualquer que seja a cor da pele, poderá surgir das sombras uma criança que abraça e explode. A esse grupo de crianças pertence Lucas.
A última história decorre no futuro – um futuro com espécimes alienígenas na Terra e humanos fabricados. Catherine é agora um lagarto humanóide inteligente e Simon é um humano “sintético” com acções controladas por chips que cita Whitman. O emprego de Simon consiste em simular assaltos aos turistas na cidade de Nova Iorque e Catherine é babysitter. Juntos fogem da cidade e atravessam o país devastado, onde conhecem Lucas que resolve, também, partir em viagem.
Das três, a minha história favorita terá sido a última: a primeira torna-se algo paranóica, com uma criança desfigurada que qual áugure deposita frases de interpretação dúbia; e na segunda temos a mítica figura de mulher implacável que leva uma vida desprovida de sentido até conhecer alguém por quem virar o tabuleiro.
No total, é um conjunto engraçado, de leitura fácil, que cruza, de forma original, vários géneros literários. Não é um dos melhores livros do ano, nem sequer do mês, mas deixa uma ténue memória agradável.
