Cara de Luna – Alejandro Jodorowsky e François Boucq

Cara de Luna é uma obra peculiar da dupla Jodorowsky / Boucq. Por um lado apresenta elementos místicos e religiosos (mais decadentes) que são típicos a Jodorwsky. Mas por outro, possui uma personagem principal pouco típica. Como Jodorowsky típico é uma obra carregada de simbolismo e de duplos significados.

A história

Numa ilha isolada da restante civilização, uma dura ditadura garante a ordem de tudo. O cenário é futurista, mas também decadente em valores. Vemos grandes construções, de linhas futuristas e tecnologias avançadas, mas também construções que se degradaram. Tal como as construções, também a população reflecte esta dualidade, existindo aqueles que vivem em mordomia e os outros que tentam persistir apesar do valor da sua vida ser, naquela sociedade, zero.

Neste futuro indeterminado, as águas subiram e os tsunamis são frequentes. Tão frequentes que toda a Ilha tem já um sistema de alerta e de fecho dos canais para poder persistir a cada onda. É perante uma onda que nos apercebemos da ditadura – um homem ordena a libertação de presos sob a desculpa de perdão, mas na realidade liberta-os para fora de qualquer protecção da onda, livrando-se assim de mais umas bocas para alimentar nas prisões. Este gesto é tido como banal e o ditador continua centrado nas suas necessidades – sendo-lhe apresentada uma refeição com ovos, elimina mais outro cozinheiro.

Mas é também, neste contexto, que surge algo impensável – um homem que persiste sob a onda, dançando e acolhendo a sua chegada. Este gesto de aparente loucura é, também, uma forma de revolta e resistência em relação ao regime que vê a ordem do medo abanada. Este mesmo homem será o catalisador de uma série de mudanças impensáveis naquela sociedade.

Opinião

Cara de Luna é, como outras obras de Jodorowsky, um cruzamento entre ficção científica e fantasia. A sociedade que apresenta é futurista, mostrando uma ilha carregada de tecnologia e acossada pelas águas, mas o homem que resiste às águas apresenta poderes mágicos inexplicáveis, havendo um lugar muito preponderante para elementos místicos e simbólicos. Na realidade, os elementos tecnológicos contrastam com os elementos mágicos, quase como se a tecnologia se apresentasse corrupta, e a magia trouxesse redenção e purificação.

Da mesma forma, parece existir uma oposição entre esperteza e inocência, com o regime de ditadura a apresentar estratégias e raciocínios lógicos, e este homem, um género de Messias a agir (e a ser considerado) quase como um idiota, um inocente que parece agir sem motivo e sem razão, mas que, por isso mesmo, acaba por ser um elemento de disrupção. Esta personagem principal contrasta, também, com outros heróis de Jodorowsky. Não é um guerreiro, nem uma personagem dura, criada na violência. É antes um ser simples, quase um anjo, mas com poderes e condescendente, um género de redentor que não julga mas aceita, que não pune, mas à volta do qual os homens acabam por se punir pelas suas próprias acções.

Este ser é o verdadeiro Messias, a personagem que irá libertar o povo daquela ditadura. Mas não é o único Messias. A sociedade que aqui encontramos está em decadência moral e física e procura os seus próprios salvadores, existindo quem use essa necessidade para criar falsos messias, reflectindo-se nessa criação, o grotesco e a corrupção que corroem cada camada da sociedade. Esta ideia de messias falsos, também já explorada noutras narrativas de Jodorowsky, são usadas para contrastar, uma vez mais, com o verdadeiro, puro e inocente Messias. Este verdadeiro Messias (catalisador da mudança) vai permitir que as personagens, presas no sistema de corrupção e de ditadura, lutem por uma causa comum e ultrapassem as suas próprias amarras psicológicas.

Para além dos elementos que rodeiam o Messias, somos apresentados a várias outras camadas da sociedade, cada uma com os seus próprios elementos místicos. Encontramos, por exemplo, uma comunidade de pescadores que centram as suas crenças numa mulher inconsciente, um género de Santa que representa tudo o que é divino. Nesta sociedade patriarcal, as feridas resultantes da batalha contra os monstros marinhos são procuradas e, por vezes, realizadas pelos próprios, como forma de ganharem estatuto social – um elemento usado pelo autor em outras narrativas, onde a marca física é uma espécie de ritual de passagem.

Encontramos, também, um grupo de ex-clérigos, os verdadeiros donos do regime, que usam um ditador de origens humildes como fachada. Este grupo deixo o sagrado há muito e é com descrença que assistirão aos poderes do Messias, reconhecendo o poder disruptor que a sua personalidade poderá ter na ordem da sociedade. Para além destes grupos, existem, também, sociedades ocultas ou escondidas que são ligeiramente toleradas – são sobretudo lugares de degradação, seja moral seja física. Estes grupos, a par com os soldados (resultado de cruzamentos incestuosos e nitidamente com problemas mentais) são os principais elementos que demonstram o resultado da corrupção daquela sociedade.

Apesar de todos estes elementos, a história possui um arco clássico. Depois de rapidamente nos introduzir aos elementos corruptos através de episódios curtos mas significativos (e polarizantes na forma abrupta e repentina de nos demonstrar os lados bom e mau), seguimos o Messias por uma série de provas enquanto recolhe apoios (ainda que este caminho nem sempre pareça totalmente consciente). Pelo caminho, faz amigos e inimigos, maravilha e ultrapassa.

Neste sentido, a história é mais do que satisfatória, proporcionando uma leitura agradável e interessante, carregada de episódios estranhos q.b., onde os elementos sobrenaturais (não explicados) e mágicos possuem um papel bastante importante. No ponto de vista visual, as paisagens reflectem os elementos tecnológicos e místicos, complementando bem o texto. Mas o desenho é nitidamente de Boucq e tal nota-se nas expressões faciais carregadas e muitas vezes desagradáveis.

Conclusão

Cara de Luna mostra o contraste do misticismo com o futurismo, opondo a tecnologia (que causa corrupção) com a magia (libertadora) numa boa e completa história. Como é habitual em Jodorowsky, são-nos apresentados elementos imaginativos e originais, de uma forma pouco usual. O desenho complementa a abordagem e proporciona páginas visualmente interessantes. O resultado é muito bom, ainda que não considere ser o melhor trabalho do autor.

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