The Windup Girl é a primeira história longa de Paolo Bacigalupi, um autor conhecido pelos contos em mundos arrasados por desastres ecológicos. Nomeado para os prémios Hugo e Nebula, a história ocorre num mundo futuro de recursos esgotados, em que os combustíveis fósseis foram substituídos pela força motriz de seres humanos ou animais, acumulada em baterias especiais. Para além dos recursos energéticos, também a maioria dos espécies animais e vegetais se extinguiram, devido a alterações climáticas e pragas dizimadoras, que atingiram os seres humanos sob a forma de doenças hemorrágicas de rápida propagação.

A Tailândia é um dos poucos países que se manteve intacto, em parte pela existência de diques que impedem o avançar das águas (cujo nível subiu), em parte por manter uma força semi-militar que trava a propagação de pragas através de medidas drásticas, ou impede a importação de transgénicos que poderão desestabilizar o frágil equilíbrio ecológico. Jaideee é o chefe de uma destas forças semi-militares, um camisa branca,  um dos poucos que é honesto, o que lhe valerá poderosos inimigos.

Os limitados recursos energéticos contrastam com uma extensa capacidade biotecnológica, e para além de elefantes melhorados e espécies vegetais reinventadas encontramos seres humanos artificiais. Manipulados geneticamente, estes seres humanos foram aperfeiçoados para determinadas funções, domésticas ou militares, mantendo uma característica comum que os identifica, uma falha constante na fluidez dos movimentos, que justifica a alcunha de pessoas de corda.

Emiko é uma rapariga de corda, construída para colmatar a falta de mulheres no Japão, foi programada para servir, constituindo a companheira perfeita: dócil, obediente e fiel. Para além de cuidar da casa e executar as tarefas de secretária, será a companheira sexual perfeita do seu dono. Abandonada na Tailândia, vê-se reduzida a prostituta, onde os seus movimentos pouco fluídos são aproveitados num humilhante espectáculo. Ainda que humilhada, não pode fugir do bordel por ser considerada, na Tailândia, apenas um objecto biologicamente nocivo.

Parcialmente isolada, a Tailândia terá acolhido milhares de refugiados chineses, designados por cartões amarelos. Hock Seng é um deles. Apesar de trabalhar como coordenador, procura recuperar o estatuto social perdido desviando dinheiro. Desconhece, no entanto, que a fábrica onde trabalha é uma fachada, uma forma de o gestor, o demónio branco, Anderson, procurar na Tailândia o banco genético que permite ao país produzir algumas espécies vegetais supostamente extintas.

De ritmo pausado, The Windup Girl é uma história excelente, que se diferencia da maioria da ficção científica por se debruçar sobre temas ecológicos. Num mundo de recursos energéticos esgotados, os seres humanos recorreram a alternativas tecnologicamente interessantes, provocando um contraste irónico entre o extenso conhecimento científico e a regressão das condições em que vive a humanidade.

Bastante melancólico, explora a saudade por um mundo saudável de grande diversidade animal e vegetal ao mesmo tempo que nos descreve uma realidade monótona em sabores, cores e vida. Esta é a visão das próprias personagens que, embora interessantes, nem sempre captam o leitor. Alguns dos seus pensamentos são-nos revelados, mas existe um afastamento constante, uma alienação, que resulta num envolvimento incompleto na história.

Em suma, apesar de ter gostado imenso da forma como o autor nos apresentou um apocalipse ecológico, ficou a sensação de que, não fosse a forma como as personagens foram desenvolvidas, e esta obra poderia ser um clássico do género.

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