brave new worlds

A premissa desta história é bastante interessante: e se, à semelhança de James Bond, os cidadãos tivessem licença para matar? Mas só se tiverem um red card, um cartão vermelho que dá, a quem o possui, o direito de matar alguém mesmo que seja sem motivo evidente, mas só uma pessoa por cartão, e com a arma que o acompanha. Quem possui o cartão não se sabe e por isso todo o cuidado é pouco em qualquer relacionamento. Claro que continuam a existir pessoas irritantes e desrespeitadoras. Mas de vez em quando alguém resolve silenciá-los.

Linda é uma das cidadãs que possui um cartão vermelho, o direito de matar alguém e finalmente decide-se pelo marido. Depois de longos anos de mal tratos verbais, saca calmamente do revólver e dispara. Com um corpo estendido no meio da sala, segue o protocolo, telefona para a polícia e informa que usufruiu de um cartão vermelho. Eis parte dessa conversa:

(…) “Who did you shoot?”

“My husband.”

“Is he dead?” he asked.

Linda studied Larry, sensitive to any movement, the slightest twitch. “He’s not moving.” she said. “He hasn’t moved since i shot him.”

“How many times did you shoot him?”

“Once,” she said.

“I’d recommend you shoot him one more time just to be sure,” said Officer Hamilton.

Após comunicar o acontecimento, aguarda pacientemente pelo carro da polícia. Mas, claro, não será presa, apenas questionada, sobre as possíveis razões da escolha do alvo. Enquanto a questionam uma equipa de limpeza dirigiu-se a casa para eliminar qualquer sinal do ocorrido. Fotografada para os jornais e aplaudida, sente-se, naqueles que a conhecem, o nervosismo da possibilidade “e se tivesse sido eu!”.

Um conto que, apesar de simples, acompanha a personagem principal na perfeição, uma mulher que se deixa levar pela possibilidade do cartão vermelho, sentindo, por ela própria, as consequências do seu acto, ainda que a sociedade não lhe peça contas. Retratando uma distopia dramática, é aliviada pela forma irónica, quase cómica como decorrem os acontecimento – ou não tivesse largado uma gargalhada após a leitura da passagem transcrita acima.